
Hermínio, o pastor. O que se move na Serra todos os dias. Domingos e dias santos, sem parar, como refere. Rodeado do abandono que se aprofundou com a chegada das leis comunitárias que foram fechando as queijarias, as mesmas leis que deixaram longe os sinais de desenvolvimento e conforto do local que as criou, vive os dias na solidão. Não vê ninguém de sol a sol. Tem pouco e ambiciona pouco. Mas o pouco que deseja, porque mais não pode, significa muito. Entre os desejos do corpo e os poucos sonhos que alimenta, mantém o olhar vivo. A certeza de que um dia há-de ver e ouvir Quim Barreiros tem a grandeza de um grande sonho que se pretende vivido. O Vale não permite mais. Ele sabe-o.
Rosa, a menina que, junto com o seu irmão, dominava os sorrisos e os sonhos de criança do vale. A mesma a quem a poeira e dureza da terra retirou ao sonho a vontade de estudar. Gouveia ficou fora das rotas da vontade do seu pai, e a economia de subsistência encerrou-lhe as saídas do vale.
Casais de Folgosinho, um local ausente do Portugal europeu, dos fundos comunitários que não trouxeram o bem estar que habita os olhos que vêem com interesse turístico ou alheamento um outro país que não conhecem. Um país divido entre os excluídos de uma geografia ignorada e distante, do lado errado da vida, e o privilégio adormecido pela estupidez sem limites, que nunca se sente satisfeita, por mais que tenha, por muito que acumule.
Ainda há Pastores é um lindíssimo documentário realizado por Jorge Pelicano, escrito pelo próprio, por Cátia Vicente e João Morais, a que Fernando Alves empresta a voz. Vale a pena ver. Ver, também, como bem nos corre a vida.

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