terça-feira, 12 de maio de 2009

Desenhos

No corpo feminino, como quem busca cura para os males do mundo.
Desenhando o seu contorno, com a fluidez de um movimento contínuo, em curva suave, sem cortes, de modo inspirador, inspirado, absorvido, generoso e egoísta - como quem agradece toda a beleza que se rouba e nunca se poderá pagar (não há preço para a beleza ilimitada) -, o mundo reproduz vezes sem conta o que de tão banal, nunca se banaliza, na procura do gesto belo.
Só o desejo da beleza como redenção motiva a criação do inútil. O inútil como necessário.
A criação não é útil. Não serve um propósito imediato, identificável, utilitário. Mas a beleza é util, enquanto necessária, coisa vaga que se pretende respirada como se não houvesse alternativa.
A mulher está presente, sempre esteve, imaginada, recriada, reproduzida, desenhada, pintada, esculpida, filmada, descrita, observada, amada, desejada.
Nada muda entre as paredes ásperas de um primeiro abrigo e as páginas do caderno que guardo hoje entre os dedos. Nada é diferente na sensualidade da arquitectura de Niemeyer, encontrada ''nas curvas da mulher do meu país''. Como diz, ''o que importa é a mulher, o resto é brincadeira''.

Um comentário:

R. disse...

“Um corpo. Um corpo vertical ou estendido é sempre uma chama: aquece e ilumina. Um corpo respira, abre-se ao sol, floresce na noite. Em silêncio, é pura veemência; quando fala, queixa-se de ser tão frágil e tão só. Mais raramente, diz uma palavra de alegria. Exalta-se; fatiga-se; exaspera-se. A sua voz é o da terra – dali parte, ali regressa. É breve a sua duração, muito breve – quase só o tempo de um suspiro. Mas é belo aquele esplendor. Não há nada de mais belo. Da sua existência, deixa às vezes uns sinais. De inquietação; de plenitude. O mais efémero dos seres tem sede de eternidade, quero eu dizer: de outro corpo. Então balbucia, beija, ama, dá um subtil nome às coisas, e das dissonâncias da carne ergue-se à exacta medida do canto, ou de qualquer outra música. A luz torna-se fulguração. A eternidade é isto – e não há outra”.

Eugénio de Andrade, Afluentes do Silêncio