segunda-feira, 18 de maio de 2009

No siléncio, o que importa...

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


Retrato Ardente, Eugénio de Andrade
in Obscuro Domínio

2 comentários:

R. disse...

Excelente! Bem diferente do genial, embora demasiadamente platónico, Pessoa.


É na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.

Eugénio de Andrade

JCD disse...

Caro R,

Como diz o inultrapassável cáustico Lobo Antunes, que cito de memória, um tipo que nunca fez amor, dificilmente pode ser bom escritor.