Que Título! Chegada a hora, porquê este e não outro? A pergunta impõe-se. Repete-se a mesma cena da escolha do nome, vezes sem conta. Não podía ter sido mais encontrado nas dobras do acaso, como geralmente acontece com tudo que realmente importa.
Recentemente, vi um filme sobre Óscar Niemeyer, no qual o próprio aparece (já próximo dos seus actuais 99 anos) em vários depoimentos na primeira pessoa. O que mais ali impressiona não é a qualidade, impressionante, da arquitectura que este arquitecto (dos mais significativos do Séc. XX) realizou e continua a produzir; não é, tão pouco, a vitalidade actual de que este homem continua a dar testemunho, não obstante a sua adiantada idade; o que mais emociona no filme é a enorme lição de vida que ali encontramos. Niemeyer viveu (continua a viver) a vida com grande sensibilidade e intensidade, com uma dimensão humana fora do comum, sorvendo-a até à última gota, com consciência de que tudo se resume de forma muito evidente e crua, e, no momento de fazer balanços, não vai sobrar muito. Isso mesmo transparece poeticamente no título do filme: A vida é um sopro.
Um pouco antes de, em boa hora, ter descoberto esse magnífico testemunho fílmico, tive a oportunidade de ver um conjunto de peças de Tchékhov, reunidas sob o mesmo título Tchékhov e a Arte Menor. Com evidente ironia, somos confrontados com a forma, quase desesperada, como os personagens questionam a vida aprisionada que os atormenta e que nos faz encarar Os Malefícios do Tabaco como dos menores males que podem assolar a natureza humana. Conservo como símbolo desse texto e dessa noite (que magnífico espectáculo, pela Escola da Noite) um personagem que, repetidas vezes, vezes sem conta, e alternadamente, terminava as frases com e por aí adiante... e e tudo mais...
Um sopro e tudo mais, porque a vida vale a pena e porque vale bem o esforço para a conquista de alguma liberdade. E, aí, nada melhor do que a poesia com que Niemeyer viveu e criou.
quarta-feira, 30 de maio de 2007
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