
Por força das circunstâncias, vejo-me cada vez mais a encarnar o papel de investigador. Eu que nem sei bem o que isso venha a ser. Não interessa saber se a tarefa me agrada ou não. Tenho que a desempenhar e encará-la como apenas uma etapa para prosseguir a vida com normalidade, sem grandes sobressaltos, como se deseja e espera na super-bem-organizada sociedade que é a nossa. E pensando bem, é um privilégio raro. Estou obrigado a permanecer em casa, durante 3 anos, para estudar e investigar um tema que eu previamente escolhi, onde previamente escolhi. Podia ter aproveitado para ir para fora, para novos mundos, novas realidades. Mas mais uma vez a força das circunstâncias, como força que são, forçaram-me a ficar, ou pelo menos não tive a sabedoria e a força (mais uma vez) para me libertar e aprofundar o privilégio. A verdade é que, voltando atrás, à obrigação a que estou sujeito, não tenho tido umas semanas más. É verdade que estou muito no início, que de vez em quando a pesquisa (ver se o que procuro e encontro me interessa, marcar as páginas que devo fotocopiar, tirar os apontamento e fazer as anotações que se mostram pertinentes e indispensáveis) se mostra, dizia, bastante exasperante. Mas tem compensado muito. Deixei de estar sujeito à pressão diária da arquitectura. Dos projectos de especialidades que tardam, das decisões que não chegam, de obras que se perpetuam, de descobertas, no estaleiro, inesperadas e imcompatíveis com o já definido, e que obrigam a alterações também inesperadas. Dos assucatanços habituais, do ritmo de trabalho idiota, das horas parvas, dos inúmeros mails e faxes. Não sei se estou melhor. Mas estou seguramente diferente. Os arquivos têm horários que ninguém entende (10h30m - 12h30m; 14h30m 17h00m; fechado à quinta-feira). As regras burocráticas não confirmam a tão anunciada aposta governativa em investigação. A FCT tem mais meios financeiros, mas no terreno a conversa é outra: as esperas pela consulta, apesar da boa vontade de funcionários, são de loucos e os pedidos de autorização fazem cair os cabelos a um careca. Temos tempo! Não se incomodem. Isto para já não falar das condições. Tenho estado bem sentado, é verdade, a temperatura ambiente não está mal, não chove, nem faz vento, mas fazia falta um rasgo de iluminação natural. Deve ser para acalmar, que me sinto afastado do pulsar dos dias, da variação de luminosidade ao longo do ciclo diáro e das estações. Para mim, enquanto ali estiver, tudo permanece na mesma. Nada muda. Se deixar o relógio em casa, o tempo permanecerá imóvel, e, se por lá dormir e viver durante meses, não notarei grande diferença. Deve ser mesmo para me acalmar; não notarei o tempo passado, será tão imóvel como a cabeça da velha, na Serra da Estrela. Sem a pressão do tempo, no stress!
Valham-me, no meio disto, as relações humanas. De quem me tem atendido, só posso dizer bem. Sempre o mesmo empenho em dar resposta aos pedidos que faço, sempre com a mesma solicitude e sorriso. Para quem diz mal dos serviços públicos, para quem afirma que só encontra má vontade e falta de educação, recomendo uma visita à biblioteca da Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano.
Voltando ao início e à força das circunstâncias, mais uma vez verifico que, como reconhecido por Maria Filomena Mónica no prefácio da sua autobiografia, a parcela daquilo que controlamos nas nossas vidas é menor do que julgamos. Estou a fazer o que estou, porque as minhas circunstâncias me enrolaram, nunca o pensei fazer; é verdade que é porque quero, para poder manter-me onde estava; porém, onde eu estou, é já resultado do que me havia já sido posto à frente e no caminho por uma conjugação de factos sobre o qual não tive controlo total. Apareceram assim na sua conjugação. Escolha, quem é que falou em Escolha? Mas a Liberdade é fantástica.