quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mundo Perfeito, por Fernado Guerra














Quando alguém se notabiliza, as amizades surgem facilmente. Toda a gente quer ter a notabilidade de ser amigo de alguém notável. No meu caso, é com propriedade que posso falar do meu amigo Fernando Guerra. Conheci-o antes de se tornar conhecido como o excelente fotógrafo de arquitectura que é. Estava na altura a dar passos para construir a carreira que se encontra a solidificar. Não tinha o site (com 1000 visitas diárias), não fotografava para os melhores arquitectos nacionais, não fazia capa de revistas estrangeiras com as suas magníficas fotografias. É com esta declaração de interesse que me refiro aqui ao Fernando. De qualquer forma, não me sinto comprometido para falar do seu trabalho. A sua qualidade é demasiado evidente, óbvia. Dispensa favores ou exageros.
O Fernando é neste momento, para além de um excelente profissional, talvez o melhor e mais activo divulgador da arquitectura nacional. Além das suas fotografias serem publicadas fora de Portugal, o seu site é um ponto de observação privilegiado sobre as obras que os arquitectos portugueses estão a fazer na actualidade e em cada momento. Funciona. A mostra é plural e inclui mais de 250 trabalhos de arquitectura.
Pela qualidade do seu trabalho, por essa importante tarefa, é mais do que merecida, justa, a exposição que a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto organizou sobre o seu trabalho. A mostra tem por título Mundo Perfeito e merece uma visita no espaço do Museu da Faup. As fotografias são belíssimas. Direi o mesmo do catálogo: vale a pena comprar.

Parabéns Fernando.

P.S. cada vez que vejo o trabalho do Fernando, no espaço Últimas Reportagens do seu site, fico sempre com a impressão de que os arquitectos portugueses são verdadeiros heróis. A qualidade do trabalho que realizam, com as condições de trabalho em que actuam, é verdadeiramente alucinante. Talvez a arquitectura portuguesa um dia tenha o reconhecimento publico que merece. Como sou ingénuo, ainda acredito que deixe de ser o parente pobre da cultura portuguesa. Ao menos que os políticos saibam capitalizar o interesse económico que pode assumir, até na definição da marca Portugal. Seja porque motivo for, faça-se qualquer coisa. Mas faça-se!

RAP, mesquinhices e o país real

Como é hábito, gostei imenso da última crónica de Ricardo Araújo Pereira (RAP) na Visão. Concordo com o seu ponto de vista, que ironiza sobre o excesso de bairrismo, mesmo provincianismo, daqueles que se levantam, por esse país fora, sempre que se diz mal das suas terrinhas (suas por um leve acaso, já que a ninguém é dada a oportunidade de escolher o local de nascimento). RAP tem razão; por contraste, ninguém se incomoda quando surge alguma crítica, mesmo que injusta – acrescento eu – à cidade de Lisboa. A verdade, porém, é que RAP esquece dois dados fundamentais. Em primeiro lugar, o Lisboeta é um ser tão raro quanto o Lince da Malcata. Para além do meu avô paterno, tenho conhecido muito poucos seres nascidos na capital. A emigração urbana é um fenómeno que se tem estendido no tempo e é relativamente recente. As famílias ainda não criaram raízes. Ainda orbitam em torno das suas terras de origem. Basta ver o que sucede cada vez que há uma ponte ou datas festivas. Êxodo geral a partir de Lisboa e a caminho do que por lá se usa designar por província. Claro que essa gente tem tantos motivos para se indignar com uma crítica em relação á capital como com a mudança de Luís Figo do Barcelona para o Real Madrid. Mas sejamos honestos. Em Lisboa o que é que falta? Só e apenas aquilo que o país não pode pagar (leia-se todos os portugueses; aí sim, o princípio da solidariedade nacional funciona). Um habitante de Lisboa não sente que a sua cidade de adopção, a sua capital, tenha sido abandonada; não tem razões para lamentos. É o abandono que cria reacções provincianas e parolas à mínima crítica. É essa sensação de que estão a comprometer o pouco património que resta, sem lugar a substituição ou renovação, que origina a indignação e reacção. O complexo existe, é real, RAP tem razão, mas não surge do nada. Apetece lembrar os 80 milhões de contos que o governo se prepara para gastar na frente ribeirinha de Lisboa. Faz muito bem, Lisboa merece e aquele frente de água está de facto muito mal tratada. É precisa uma nova travessia do Tejo?! Com certeza que sim! Sem dúvida! Mais Cril’s e outras coisas mais; planos Baixa-Chiado; tratamentos vários para todas as maleitas? A tudo direi que sim. Mas olhemos à volta e para fora do umbigo da sedlutora e feminina Alfama.

P.S. que ninguém do Porto leia isto, se não lá temos a histeria e o fanatismo do costume... não podem ver nada.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Donos da língua, acordo ortográfico e outros devaneios

Fiquei pasmo com a última intervenção de Miguel Sousa Tavares no telejornal da TVI.
Estava o senhor indignado por o Governo se ter comportado como dono da língua portuguesa no processo do acordo ortográfico. Lacónico e corrosivo como sempre, Sousa Tavares manifestou-se frontalmente contra o facto de só terem sido ouvidos os especialistas, os linguistas, aqueles que apelidou como os teóricos da língua. No seu entender deveriam ter sido também escutados aqueles que fazem uso da língua, os que trabalham com ela: escritores, editores, livreiros. Pasme-se! De um dono da língua passaríamos a ter vários. Não sei como é que alguém pode ter a ideia, apresentá-la e defendê-la, de que, por inerência da actividade profissional, possui direitos acrescidos sobre a língua que, só no nosso país, é falada por 10 milhões de pessoas. Será que está tudo a ficar maluco nesta terra?!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Publicações

O mercado editorial portugês é maravilhoso. Os títulos proliferam. Que se calem todos aqueles que, como habituais profetas da desgraça, não vêem mais do que problemas e insuficiências. Mesmo que os ambiciosos projectos de Pedro Santana Lopes não tenham sido muito mais do que isso mesmo - projectos! - certo é que nada corre assim tão mal. Mais uma prova de que os portugueses estão a investir na cultura e nos índices de desenvolvimento humano. Quem é que tem coragem de dizer que não lêem? Não lêem o que a corrente oficial gostaria que fosse lido. A realidade está aí a provar o contrário. Mesmo que uma publicações de referência como o Jornal do Incrível tenha desaparecido, podemos contar actualmente com o 24 Horas e o Correio da Manhã que são muito, muito bons. E que dizer de publicações como o Diário Tauromáquico Olé ou como o Semanário Taurino Farpas? Não, não é gozo, existem mesmo. Que demonstração de cultura. Decerto será uma homenagem a Ramalho Ortigão e a Eça de Queirós. Não se percebe quem lê estas coisas, é verdade, mas os títulos são dos mais inspiradores que se encontram nas bancas. Não têm concorrência. Com tal criatividade e diversificação de interesses só não se percebe é como é que este país deixou sucumbir esse enorme tributo ao jornalismo, à fotografia, à ficção, tudo sob a mesma capa, que representou a grande revista Gina. É injusto.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Rita Redshoes

E porque estamos em maré de concertos, Rita Redshoes actuará dia 4 de Abril na Fnac de Coimbra, às 22h00.
Para ficar a saber um pouco mais sobre a cantora, fica o endereço: http://www.myspace.com/ritaredshoes

Cohen em Portugal

"Leonard Cohen, 73 anos, é considerado um dos maiores escritores de canções folk da segunda metade do século XX, autor de músicas que versam sobre amor, espiritualidade, religião ou sexo, "embrulhadas" em soturnidade, melancolia, cinismo e provocação."
edição do Público online de 26.3.08

Este senhor regressa aos palcos internacionais depois de uma ausência de 15 anos. No âmbito da World Tour 200-2009, o cantor actuará pela terceira vez em Portugal. Dia 19de Julho poderá ser visto e ouvido no Passeio Marítimo de Algés. A não perder.

Este também não é para meninos

As ondas fecham, não é? Estão sempre a fechar? E curiosamente estão invariavelmente boas, fantásticas, quando não vamos ao mar. É o que se ouve mais fora de água e da boca dos meninos que todos somos, numa espécie de desculpa perante as dificuldades para lidar com as adversidades. As nossas, não as que o mar impõe.
Parece que o grande Kelly não vê qualquer problema em dropar a onda, ostensivamente a fechar. Grande bottom.
Esqueçam! Vejam, vejamos, e deixemo-nos de lamúrias.


quinta-feira, 27 de março de 2008

No sítio errado à hora errada

Nunca é demais recordar.

Não. Não são plataformas a flutuar. É o resultado da acção do furacão Katrina.

quarta-feira, 26 de março de 2008

A esperança

Estou sempre a dizer mal. Estou cansado! Vou tentar ter uma atitude mais positiva.
A esperança está aí. Com Luís Filipe Menezes, Portugal vai retomar o caminho da convergência europeia. Se o homem conseguiu despoluir 16 quilómetros de praias, também conseguirá por esta coisa a crescer 3 ou 4% ao ano. Afinal o que é que são 3 ou 4 unidades comparadas com 16?!

Demasiado

Fantástico, a criminalidade violenta diminui no ano passado. Mas como nem tudo é perfeito, o mesmo não se passou com a pequena criminalidade. O carjacking chegou mesmo a um incrível aumento de 30%. Mas para o que conta para este ministro é a crueza dos números. Não importa que as pessoas se sintam inseguras. Se sentem é porque são parvas! O ministro não é, em todo o caso, das pessoas que dê mais prazer ouvir e a verdade, além do mais, é que o Estado português está em perfeita falência e ruína. A Justiça é a injustiça do tempo longo e ainda temos que ser confrontados com um bastonário da Ordem dos Advogados desbocado e pouco institucional. A educação apresenta-se tão incrivelmente pouco educada, que está a empurrar os filhos das famílias de maiores rendimentos para o ensino particular, no qual se reprova, se tem faltas disciplinares e se é expulso; basta não cumprir as regras. Mas para a ministra, tudo está bem e qualquer incidente é de um caso isolado que se trata. Nada mais. A cultura, bem dessa nem se ouve, nem ouviu falar (tricas à volta da mesma não contam).
A saúde já esteve mais sã, antes de se ter começado a extinguir serviços sem que tivesse sido implementada uma alternativa. É verdade que quem não tem dinheiro não tem vícios; não há, não se gasta; mas onde é que se meteu o princípio da solidariedade nacional? Se todos temos que pagar as obras públicas em Lisboa, não parece justo que muitos cidadãos deste país sejam literalmente abandonados, esvazidas que vão sendo as regiões onde vivem de todos e quaisquer serviços públicos. Provavelmente até tem lógica. Veja-se: fechando todas as unidades de saúde desse interior que já não conta, consegue-se, sem tanto esforço, construir mais umas quantas circulares e nós viários ou mais uma travessia sobre o Tejo (como a tecnocracia gosta de lhe chamar). Poupamos todos e, além do mais, o TGV vai precisar na nova ponte. É pena que todos os esses seres bizarros que não migraram para as cidades do litoral, por vontade própria, falta de meios ou incapacidade, só muito remotamente o possam utilizar, ao TGV e a mais uns quantos investimentos públicos. É a vida! Azar! Como aquele que impediu umas quantas ambulâncias do INEM de se moverem pela falta de abertura de vagas para provimento de lugares de Técnicos de Ambulâncias. Isto em locais onde já muitos serviços de saúde foram encerrados. Claro que não foi em Lisboa, no Porto, em Braga ou em Coimbra. Aí os azares vão sendo menores. Neste país não há dinheiro, é certo. Mas o desiquilíbrio a que o território nacional é sujeito é de uma injustiça sem qualquer desculpa ou justificação. É demasiado. Ponto!

terça-feira, 25 de março de 2008

Este Surf sim, não é para meninos
















O título é emprestado, mas não podia estar mais perfeito.

FF

''Não há fim nem princípio. Apenas a infinita paixão da vida''
Federico Fellini

Assim não!

Sim. Também nós fazíamos m... Lembro-me de um estirador que virei literalmente ao contrário, numa aula de Teoria do Design. A vítima foi o meu colega e amigo João Carlos. A professora, quando viu (porque inicialmente estava de costas) não tinha sido ninguém, nem se havia passado nada. O habitual. Tenho presente a sessão de colagem de autocolantes da campanha para as presidências de 86, nas costa do professor de História de Arte do 10º ano, por cada um de nós e sempre que nos dirigíamos à sua secretária. Isto a propósito de dúvidas que inventávamos com esperança de que o docente se pusesse uma vez mais a jeito, de costas, para mais um selo da nossa inconsequente insolência. Recordo as inúmeras vezes que íamos para a rua - ou por eu e o Chico andarmos a correr, a fugir um do outro, à volta dos estiradores na aula de desenho, ou por outras manifestações de pequena indisciplina, muitas vezes com esquecimento de que nos encontrávamos numa sala de aula, outras por querermos ser mais engraçados do que na realidade éramos. Mas por vezes tinha mesmo graça, ainda que na altura não fizéssemos rir os professores. A história do Raul é das melhores. Não percebendo nada do que lhe era perguntado num ‘’ponto’’ o Raul, que sempre teve o que se costuma designar de jeito para desenho, resolveu responder ao enunciado numa espécie de Mandarim, imitando e criando caracteres à medida das necessidades e da sua incapacidade para uma resposta mais séria. A professora, chocada com a audácia, chamou-o, após a correcção das provas, para lhe dar o ralhete da vida. O Raul, de mãos atrás das costas e mochila às costas, cabisbaixo, inventou que estava a passar um mau bocado, que não era conveniente apresentar queixa do incidente aos pais, porque estavam em processo de divórcio. A docente, tocada pelo que desconhecia ser uma mentira, concedeu segunda oportunidade ao chinês da Infanta D. Maria. O Raul, recebeu o novo ‘’ponto’’ e, agradecido, abandonou o mandarim, para, fazendo uso das suas capacidades - as de desenho, não as cognitivas - responder em ÁRABE!
Eram estas as nossas manifestações de indisciplina. Claro que tínhamos noção dos limites. Desde logo, os nossos pais tinham bom senso e sabiam porque nos punham na escola. Exigiam-nos que aprendessemos! Além de que os professores impunham respeito; tinham mecanismos para o fazer (não era difícil reprovar - a tal palavra anti-pedagógica, que, por o ser, foi banida – e havia múltiplas formas de o conseguir), e a ameaça de ser presente ao Conselho Directivo era como ter que falar com Deus, numa mistura de susto e vexame. Lembro-me de me ver forçado a lidar com isso depois de, junto com outro colega do 7º ano, ter partido uns quantos expositores em vidro de uma exposição. A perspectiva de ir falar com alguém da direcção da escola era bem pior do que ter que pagar os estragos. Servia de emenda. Para que não voltasse a acontecer bastava que nos obrigassem a pagar um quantia simbólica - como ocorreu na realidade - cujo fim – percebi-o bastante mais tarde – era o da responsabilização. Sem falsos moralismos, a verdade é que os actos que cometíamos não eram de uma gravidade extrema e éramos responsabilizados. Não havia a obsessão por tudo que ‘’pudesse’’ ser anti-pedagógico nem se pretendia vencer o atraso por medidas administrativas e de gabinete, a partir da 5 de Outubro. É verdade que não tínhamos telemóveis. Mas a agressão de professores tão pouco nos passava pela cabeça. O objectivo da nossa indisciplina era precisamente o de não sermos apanhados (um certo pudor e vergonha, além do medo das consequências também ajudavam). Certo é, na verdade, que os sucessivos ministros da educação, apesar de sempre contestados, não diziam a enormidades que se ouvem, como esta de que ‘’o código da estrada não impede que haja acidentes’’. Isto dito de uma responsável que promove a falta de rigor de exigência, de responsabilização, parece uma provocação a quem todos os dias tem que lidar com as consequências de medidas patéticas como o novo estatuto do aluno e outras desgraças do género. Durante algum tempo achei que havia um queixume, um certo exagero, quando os professores instavam a tutela a ir para as escolas ver o que lá se passava. Mas hoje estou certo. Esses senhores de secretária, burocratas da educação, deviam deixar a 5 de Outubro e constatar in loco os resultados práticos das suas opções. Sim porque os teóricos já conhecemos. A Eurostat divulga-os. Parolos como só nós, pode ser que agora que os Estados Unidos, após anos de maus resultados, puseram em causa as teorias construtivistas no ensino da matemática, os ventos de mudança se façam senti por cá. É bom que aconteça. É pena é que seja sempre a reboque. Que país! Agora parece que vai ser, ou foi, anunciado um programa para tornar os têxteis nacionais mais competitivos. O primeiro comentário que me surge é que não sabia que ainda era possível. Ainda bem que o é. Mas a medida vem do gabinete do ministro Pinho, o tal do fim da crise e do ALLGARVE! O que é que aí virá?!
Quanto à educação, falta o quê, depois do youtube? Que espanquem um professor em directo na TVI?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Confusao habitual

Na minha profissão, sou vítima da híper-produção de legislação e de forma desarticulada e dispersa, o que, é evidente, condiciona o conhecimento dos códigos e regulamentos. É impossível. Nem sei como nas cãmaras e outroas instituiçoes do Estado alguém pode mover-se na intrincada teia de Leis, Decreto-Leis, Portarias, Despachos, normas e artigos.
Mais uma vez, está-nos no sangue. Já era assim em 1920, nos primórdios do Código da Estrada. Nada de Novo, portanto.

''(...) se por outro lado houvesse tambem menos cahos nas leis que vigoram e que em vez de disseminadas em vinte mil decretos, posturas, regulamentos deveriam pelo contario ser reduzidas a um documento unico, de fácil consulta por parte dos interessados.
Assim como tudo está é dificil entendermo-nos.
Um exemplo: o artigo 45 do decreto de 27 de Maio de 1911 regulando a circulação diz:
É prohibido ao conductor abandonar o automovel nas ruas ou estradasplanas sem tomar todas as precauções necessarias para evitar qualquer acidente. Em caso algum é permitido o abandono em ruas ou estradas inclinadas.
D'aqui parece concluir-se que é permitido abandonar o automovel n'uma rua ou estrada plana desde o momento que sejam tomadas as precauções tendentes a evitar qulaquer desastre.
Mas o artigo 66 do código de posturas diz
Ninguém guiando ou conduzindo vehiculos pode deixal-os abandonados na via publica sob pena de 2$00 de multa.

Pode-se ou não se pode abandonar o automóvel em rua plana?

Tudo sempre igual

A história, neste país, não reserva surpresas. Ia dizer que é cíclica, mas seria um erro, porque na verdade é contínua, sem cortes, sobressaltos ou mudanças significativas, em todos os campos e sectores. Não é necessariamente mau! Se conhecermos bem o passado, saberemos lidar bem como a vidinha, pois já sabemos que daqui não vêm surpresas.

O nº 2 da revista O Automóvel , de 30 de janeiro de 1920, contém um artigo fantástico. Fica a sua passagem mais relevante:

Turismo
A nova signalisação das estradas em França

Todos os nossos automobilistas sabem, por experiencia propria, como é mais que deficiente a signalisação das estradas em Portugal. Quantos de nós não temos perdido um tempo precioso, no cruzamento de estradas desconhecidas, indecisos no caminho a tomar, e obrigados a perguntas constantes, - quando há a quem se possa faze lo.
Em França, porem, estas cousas são tratadas d’outra maneira. A signalisação das estradas, que era já ali muito completa, vae ser remodelada e profundamente melhorada, pois se prevê que certos itinerários, comportando troços de vias publicas diversos – estradas nacionaes e departamentaes, caminhos vicinaes, etc. – vão ser submetidos a um movimento intenso, de turismo e industrial.

A actualidade, em 1920

''Muito se tem escrito sobre o problema nacional, melhor diria sobre os vasto conjunto de problemas fundamentais da vida portugueza. Grande trabalho será um dia o dos historiadores de recolherem tantos alvitres tantos projectos de soluções, utopias vãs e realidades sensatas perdidas no oceano das palavras e inutilizadas pela crise política.''

As palavras são de um artigo do nº 1, Revista O Automóvel, de 15 de Janeiro de 1920. 88 anos separam o texto da actualidade, mas sem que se perceba qualquer mudança.

Formação perfeita na Arrifana













Não, o tamanho não importa. Esta imagem da Arrifana, encontrada algures na net, é disso prova inequívoca.

terça-feira, 18 de março de 2008

Biblioteca Nacional

As bibliotecas são lugares fantásticos. É espantosa a atmosfera que se vive a partir da sala do catálogo até à sala de leitura. A calma e o silêncio que separam do mundo exterior são o que mais fascinam nestes edifícios. Parece que de facto se estabelece uma suspensão no tempo e um corte com a vida que temos ''lá fora''. O nível sonoro não é um ponto forte na Sala de Leitura da Biblioteca Nacional (fortemente condicionado pela constante passagem de aviões), ainda assim, dá vontade de entrar e permanecer. A luz velada ajuda a superar o que a rota de aproximação ao aeroporto perturba. Podia elogiar a qualidade do desenho do mobiliário, a nobreza da imagem e ambiente dos espaços internos, a perenidade do seu desenho ou a robustez com que tem resistido ao passar dos anos, mas isso são coisas do passado, quando a política de obras publicas não se costumava enganar ou enveredar por vias mais incultas ou pelo facilitismo. Não é novidade. Costumava ser assim. Já se sabe. Surpreendente é a forma como são realizados os pedidos de consulta de leitura a partir da sala do catálogo e dos computadores onde se faz pesquisa da base de dados dos fundos depositados na biblioteca. No novo sistema de pedidos on-line, o primeiro passo consiste na escolha de lugar, com um simples clique de rato, depois de realizado o login. Seguidamente, durante a pesquisa, acto contínuo, é só clicar num campo que está associado à listagem das obras pesquisadas, e aquela(s) que for(em) escolhida(s) passa(m) do ecrã para processamento directo pelos funcionários, nos depósitos. Quando chegamos ao nosso lugar, previamente escolhido, já parte das obras a consultar se encontram sobre a secretária. Até parece de país civilizado. O horário também. Depois de meses metido em sítios com horários estranhos, encontrar uma biblioteca aberta até às 19h30 é o mesmo que a imagem de um oásis num deserto. Que país de contradições, capaz do mais insólito e destes nichos de excelência. Mas desta vez está bem, bastante bem.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Festival de Blues em Coimbra

Para me redimir do mal que digo, um elogio à edição deste ano do festival Coimbra em Blues que se realizou este final de semana. Numa cidade que parece estar um pouco letárgica, iniciativas como esta contribuem decisivamente para a por no mapa. A direcçao musical de Paulo Furtado só pode estar de parabéns.

O último dia contou com a presença de Ruby Ann (como coninbricense só podia mesmo cantar bem!) e, claro, com a do magistral Super Chikan. Grande concerto. O Gil Vicente animado como nunca o tinha visto.
Ambos para descobrir no youtube. Imperdível.