Sim. Também nós fazíamos m... Lembro-me de um estirador que virei literalmente ao contrário, numa aula de Teoria do Design. A vítima foi o meu colega e amigo João Carlos. A professora, quando viu (porque inicialmente estava de costas) não tinha sido ninguém, nem se havia passado nada. O habitual. Tenho presente a sessão de colagem de autocolantes da campanha para as presidências de 86, nas costa do professor de História de Arte do 10º ano, por cada um de nós e sempre que nos dirigíamos à sua secretária. Isto a propósito de dúvidas que inventávamos com esperança de que o docente se pusesse uma vez mais a jeito, de costas, para mais um selo da nossa inconsequente insolência. Recordo as inúmeras vezes que íamos para a rua - ou por eu e o Chico andarmos a correr, a fugir um do outro, à volta dos estiradores na aula de desenho, ou por outras manifestações de pequena indisciplina, muitas vezes com esquecimento de que nos encontrávamos numa sala de aula, outras por querermos ser mais engraçados do que na realidade éramos. Mas por vezes tinha mesmo graça, ainda que na altura não fizéssemos rir os professores. A história do Raul é das melhores. Não percebendo nada do que lhe era perguntado num ‘’ponto’’ o Raul, que sempre teve o que se costuma designar de jeito para desenho, resolveu responder ao enunciado numa espécie de Mandarim, imitando e criando caracteres à medida das necessidades e da sua incapacidade para uma resposta mais séria. A professora, chocada com a audácia, chamou-o, após a correcção das provas, para lhe dar o ralhete da vida. O Raul, de mãos atrás das costas e mochila às costas, cabisbaixo, inventou que estava a passar um mau bocado, que não era conveniente apresentar queixa do incidente aos pais, porque estavam em processo de divórcio. A docente, tocada pelo que desconhecia ser uma mentira, concedeu segunda oportunidade ao chinês da Infanta D. Maria. O Raul, recebeu o novo ‘’ponto’’ e, agradecido, abandonou o mandarim, para, fazendo uso das suas capacidades - as de desenho, não as cognitivas - responder em ÁRABE!
Eram estas as nossas manifestações de indisciplina. Claro que tínhamos noção dos limites. Desde logo, os nossos pais tinham bom senso e sabiam porque nos punham na escola. Exigiam-nos que aprendessemos! Além de que os professores impunham respeito; tinham mecanismos para o fazer (não era difícil reprovar - a tal palavra anti-pedagógica, que, por o ser, foi banida – e havia múltiplas formas de o conseguir), e a ameaça de ser presente ao Conselho Directivo era como ter que falar com Deus, numa mistura de susto e vexame. Lembro-me de me ver forçado a lidar com isso depois de, junto com outro colega do 7º ano, ter partido uns quantos expositores em vidro de uma exposição. A perspectiva de ir falar com alguém da direcção da escola era bem pior do que ter que pagar os estragos. Servia de emenda. Para que não voltasse a acontecer bastava que nos obrigassem a pagar um quantia simbólica - como ocorreu na realidade - cujo fim – percebi-o bastante mais tarde – era o da responsabilização. Sem falsos moralismos, a verdade é que os actos que cometíamos não eram de uma gravidade extrema e éramos responsabilizados. Não havia a obsessão por tudo que ‘’pudesse’’ ser anti-pedagógico nem se pretendia vencer o atraso por medidas administrativas e de gabinete, a partir da 5 de Outubro. É verdade que não tínhamos telemóveis. Mas a agressão de professores tão pouco nos passava pela cabeça. O objectivo da nossa indisciplina era precisamente o de não sermos apanhados (um certo pudor e vergonha, além do medo das consequências também ajudavam). Certo é, na verdade, que os sucessivos ministros da educação, apesar de sempre contestados, não diziam a enormidades que se ouvem, como esta de que ‘’o código da estrada não impede que haja acidentes’’. Isto dito de uma responsável que promove a falta de rigor de exigência, de responsabilização, parece uma provocação a quem todos os dias tem que lidar com as consequências de medidas patéticas como o novo estatuto do aluno e outras desgraças do género. Durante algum tempo achei que havia um queixume, um certo exagero, quando os professores instavam a tutela a ir para as escolas ver o que lá se passava. Mas hoje estou certo. Esses senhores de secretária, burocratas da educação, deviam deixar a 5 de Outubro e constatar in loco os resultados práticos das suas opções. Sim porque os teóricos já conhecemos. A Eurostat divulga-os. Parolos como só nós, pode ser que agora que os Estados Unidos, após anos de maus resultados, puseram em causa as teorias construtivistas no ensino da matemática, os ventos de mudança se façam senti por cá. É bom que aconteça. É pena é que seja sempre a reboque. Que país! Agora parece que vai ser, ou foi, anunciado um programa para tornar os têxteis nacionais mais competitivos. O primeiro comentário que me surge é que não sabia que ainda era possível. Ainda bem que o é. Mas a medida vem do gabinete do ministro Pinho, o tal do fim da crise e do ALLGARVE! O que é que aí virá?!
Quanto à educação, falta o quê, depois do youtube? Que espanquem um professor em directo na TVI?