quinta-feira, 3 de julho de 2008

Cultura e outras histórias

Bragança inaugurou na passada segunda-feira, o Museu de Arte Contemporânea Graça Morais, da autoria de Eduardo Souto de Moura.
O Museu, uma recuperação de um edifício existente ao qual foi adicionada um nova ala, contará com uma colecção permanente constituída por obra da pintora que dá nome à instituição cultural. No que refere à programação temporária, o Museu contará com a colaboração do Museu de Serralves, que ficará responsável por essa área temática.
A instituição agora inaugurada vem juntar-se a uma série de outros equipamentos culturais, que a Câmara tem promovido, com um significativo esforço finaceiro. Segundo as palavras do Presidente de Cãmara, o investimento em cultura nunca é demasiado, pondo em evidência que os públicos não se criam de um momento para o outro.

Centro de Arte Contemporânea nasce em São João da Madeira, nos terrenos da antiga fábrica Oliva. A Câmara Municipal assinou um protocolo de colaboração com a Fundação de Serralves, que ficará responsável pela planificação e implementação do projecto no terreno, além de lhe ser atribuída a gestão futura da instituição.
O acervo do museu englobará o acervo do casal são-joanense José e Norlinda Lima, constituído por cerca de mil peças de Arte, entre as quais figuram quadros de Paula Rego, Vieira da Silva, Júlio Resende e Graça Morais. A doação foi formalizada na segunda-feira, no mesmo dia em que foi inaugurado o Museu de Bragança. Boas notícias, portanto, para a cultura em Portugal.

Coimbra denunciou - ou não renovou, se se preferir - o protocolo que ligava a Cãmara Municipal ao Museu de Serralves. Através do mesmo esta instituição era a responsável pela programação do Pavilhão de Portugal em Hanôver, edifício que fora transferido para essa cidade, onde se mantinha como espaço expositivo.
Segundo a justificação da autarquia, num ano o espaço de exposições recebeu cinco mil visitantes, em contraste com os vinte mil do Museu da Água, cujo conteúdo é totalmente nulo, acrescento.
Com a medida, ficou aberto o caminho para a cedência do edifício à Orquestra Sínfónica das Beiras, que pela manifesta inadequação do edifício a sala de ensaios e concertos, deve determinar o fim desta obra de Siza Vieira e Souto de Moura, cuja ruína já foi iniciado pelo incúria, desprezo e maus tratos a que a mesma tem sido sujeita.

Não vou cruzar estas três realidades nem fazer qualquer comentário. As evidências falam por si. Só quero lembrar que Coimbra é a Cidade do Conhecimento - como se anuncia na autoestrada A1, segundo proposta apresentada à Brisa pelo presidente da Câmara, Dr. Carlos Encarnação - e que reclama ser conhecida como uma cidade de Cultura.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Sem Título

Estou sonolento, cansado, anestesiado.
Além do mais, passei os últimos dias num esforço sem igual para me tentar lembrar do PIN do meu mais recente cartão de acesso ao universo do consumo. Com sucesso, convém dizer. Não fui vencido por um pedaço de pástico com um chip. Mas o esforço foi total e sem tréguas.
Decidi, pois, dar folga à memória. Não lhe pedir grandes combates. Razão pela qual a única coisa a que me sinto obrigado, é dizer é que descobri a frase abaixo na net. A autoria não recordo.

''(...) beijar-te a boca; deslizar pelo teu corpo, até ao mais quente e húmido dos teus segredos.''

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Coimbra no Público

Nesta última semana Coimbra conseguiu a enorma proeza de ser notícia duas vezes (apenas duas!) e sempre pelos piores motivos. Ou intriga política, ou intriga política e acusações de financiamento ilegal de partido e abuso de poder. No primeiro caso, a Distrital do PSD, na pessoa de Jaime Soares, recusa a candidatura de Pina Prata à Câmara Municipal de Coimbra; no segundo, Luís Vilar é notícia pelos piores motivos e, com ele, também o PS.

Triste cidade esta. Não é possível prender a atenção da imprensa nacional por motivos dignos? Inovação, criatividade, conhecimento, afirmação, qualquer coisa que valha a pena?

terça-feira, 17 de junho de 2008

A direita da Arrifana

As valentes quedas que o ano passado experimentei na Arrifana, em tarde de marés vivas e em consequência de uma má avaliação da dimensão do mar, não me deixam saudades. Depois de um gesto de ousadia e após conseguir chegar ao line up a única ideia que consegui ter foi simples: como é que vou sair daqui?!

Senti-me um verdadeiro menino e bem pequenino. E estes malucos a desafiar o mar desta forma e, ainda por cima, em zona de rochas, algumas das quais emergindo violentamente e bastante acima da superfície da água.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Broke Down Melody

O que mais me agrada em Jack Johnson não é a sua música. Gosto de a ouvir, dispõe bem, mas nada comparado com os filmes. É incrível como, nesse registo, consegue transmitir com bastante fidelidade o prazer que o surf proporciona, a satisfação da aceleração da prancha com a última remada, o gozo de deslizar ao longo da onda, de forma serpenteante a acompanhar o seu movimento.
Mais do que a música de Jack Johnson, admiro-lhe a capacidade para a selecção das bandas sonoras dos filmes. Thicker than Water é um exemplo magnífico. Olhar para o mar ao som desse cd é fenomenal. Mas a melhor combinação entre surf e música que já vi está em A Broke Down Melody. O próprio Johnson a surfar ao som de know How dos Kings of Convenience é brutal. Mas o que me fez apaixonar por esse filme foi antes de mais o seu trailer. Descobri-o na net há muito tempo, antes mesmo de ter visto o filme.

Prosa Fantástica

Durante a transmissão do jogo do Euro que opôs a Holanda à Itália, um dos comentadores, em diálogo com um outro, ao enaltecer as qualidades da partida presenteou-nos com esta verdadeira pérola do comentês:

''quando o futebol toma o freio nos dentes não há nada a fazer''


Haveria, sim senhor, se o bom senso imperasse: poupar-nos!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Fim anunciado do Pavilhão de Portugal em Hanôver?

















A Orquestra Clássica do Centro vai assumir a gestão do pavilhão do Centro de Portugal já a partir de dia 10 de Junho. O prtotocolo de cedência do espaço prevê ainda a organização de um programa cultural diversificado para o espaço, para além da sua utilização para concertos.

A medida é divulgada no jornal Público de dia 3, sendo referido na notícia que o pavilhão é feito em cortiça no interior (o que não está correcto, é em cortiça, sim , mas no exterior) e que não contém nenhuma sala de espectáculos. Parece uma afirmação visando desculpar qualquer grave alteração do edifício. A verdade é que é perfeitamente natural que seja como é referido. Foi concebido para fins diversos daqueles para que o querem utlizar agora. É até preocupante esta cedência e com o fim em causa. Recorde-se que o edifício foi projectado por Álvaro Siza e Souto de Moura para a Exposição Universal de Hanôver 2000. Emília Martins, directora da Orquestra já fez saber que a não existência da dita sala de espectáculos constitui uma limitação que poderá ser ultrapassada, admitindo a necessidade de a médio prazo se proceder a ''algumas alterações'' com o objectivo de ''melhorar as condições acústicas''.

A única reacção a tudo isto é de temor:
1. receio que a responsável não tenha pleno conhecimento da autoria e do valor arquitectónico do imóvel;
2. tendo em atenção o estado miserável como o edifício tem sido utilizado e desprezado temo que esteja anunciado o seu fim definitivo; dúvido, face a essa realidade que qualquer alteração venha a ser pensada pelos seus autores; estou mais inclinado para pensar que sejam chamados os responnsáveis pela colocação dos projectores na fachada, os mesmos (julgo) que escolheram o mobiliário desqulificado que invadiu de forma ignóbil o espaço e que têm permitido que o edifício se esteja a despedaçar e que permaneça sujo; face à alterações ali produzidas e à descaracterização que o pavilhão vem sofrendo custa-me ser optimista;
3. o edifício funciona muito bem como sala de exposições (tem uma luz magnífica) mas como sala de concertos parece difícil (com aquela cobertura de tela translúcida?); parece-me impossível insonorizá-lo sem o desvirtuar gravemente;
4. foi posto em causa o protocolo com a Fundação de Serralves (o Museu de Serralves foi responsável por todas as exposições ali produzidas) e com esse fim anuncia-se uma incógnita quanto à qualidade da programação cultural que se avizinha.

Como eu gostaria que as coisas em Coimbra se passassem de forma distinta.
Não se percebe para que é que a cidade insistiu tanto para ficar com o pavilhão se não sente por ele o menor apreço e se nem o sabe o usar. Só por ser do Siza, como se tratarasse de uma etiqueta? Coimbra, de uma só vez, conseguiu desperdiçar a oportunidade de ter exposições de nível internacional num magnífico espaço para as albergar e acabou de dar um passo para uma pesada incógnica sobre uma peça de arquitectura de inegável valor e qualidade. Não parece que o património deva ser tratado assim. Sobretudo numa cidade tão pobre em arquitectura moderna e contemporânea. Esperemos que não se configurem motivos para pensar que a demolição seria um fim mais digno e que as árvores deviam morrer de pé.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Inédito

Normalmente os portugueses reclamam dos atrasos dos serviços públicos e dos contratempos que tais atrasos lhes causam.
Agora, imagine-se o contrário. Eu sei que é difícil, mas é real. A história refere-se a um ilustre cidadão que solicitou uma consulta de especialidade num hospital do Norte. A dita consulta foi pedida pelo médico de família no dia 27 do mês de Maio. A verdade é que os serviços de saúde nem sempre funcionam mal. E na realidade todos devíamos ficar satiesfeitos com isso. Todos não, porque parece que há a quem o facto causa incómodos. Ontem, dia 3, foi o dia em que o dito senhor pôde usufruir da consulta pedida. E se atrás disse que nem todos se sentiam agradados com a celeridade com que este assunto se desenvolveu é porque o senhor em questão além de ter comparecido na consulta não se limitou a fazê-lo. Pasme-se, reclamou no hospital porque no seu entendimento a consulta tinha sido disponibilizada num prazo muito curto. Depressa demais, portanto. Assim é difícil trabalhar, de facto. Tuguices!

Pura Liberdade

Não, o tamanho não importa

O que já temos e o que aí vem




















Segundo é noticiado na edição de hoje do jornal Público, as obras de construção de um edifício de 18 andares no Vale do galante, na Figueira da Foz, decorrem sem que esteja afixado no local qualquer informação sobre os trabalhos a realizar ou o tipo de obra em execução. Segundo a lei que regula a actividade, deveria estar afixado no local um edital informativo sobre a intervenção, onde deveria constar o número do alvar da obra, a licença de construção, a área de construção, o técnico responsável, o prazo de execução e o período de validade da licença. Pasme-se, o único edital que existe no local diz repeito a um aranjo urbanístico no valor de 22 mil euros. Ter-se-ão esquecido de afixar o edital respeitante à intervenção principal, ou será que que ninguém reparou nela, um edifício de 18 andares, e outros seis de 9 andares cada?
Dado que o edifício mais alto tem uma implantação e volumetria que mais parece uma barragem a ser construída na marginal acho pouco provável que ainda não se tenha dado conta de que existe. Diria mesmo que deverá ser visível da lua. Mas dado que o


diector municipal do urbanismo se recusa a prestar declarações sobre o assunto sou levado a acreditar que a obra não é assim tão visível e que esse responsãvel não tem conhecimento do assunto. Afinal, como sempre ouvimos na televisão, os políticos e representantes de cargos públicos não comentam matérias que desconhecem ou das quais não tomaram conhecimento oficial. O mesmo deve acontecer com o presidente da autarquia. Segundo é comentado na notícia por um dos representantes da Associação de Defesa do vale do Galante, o responsável pela autarquia vive a escassas centenas de metros do local, mas com toda a certeza, presumo, não passa pala zona (deve ir para a câmara pela inútil circular da Figueira da Foz) e terá toda a razão para segundo o Público, não atnder o telefone. Acho prudente. Falar com jornalistas sobre assuntos de que só se sabe pelos jornais não é boa ideia. Decerto eles saberão muito mais sobre a matéria. Está muito bem!
Decerto também ninguém se apercebe que a obtra decorre aos fins de semana, depois das sete da tarde, de madrugada, com claro desrespeito pela Lei do Ruído, segundo é avançado ainda pelo orgão noticioso. Acho muito bem, também? Se é para fazer, que se faça depressa e, assim, quando alguém der por ela, já está. Já nem os tribunais vão a tempo. Assim é que é. Actuação de forma resoluta.

A este propósito, lembro aqui a notícia também hoje no Jornal Público em que Mariano Gago, a propósito das praxes académicas, faz questão de salientar que os meios académicos não são uma espécie de santuário onde sejam permitidas práticas que o não são fora deles, razão pela qual encaminha todas as queixas que lhe chegam para o Ministério Público. Talvez seja melhor o Ministro da Ciência e Ensino Superior ir dar uma ajudinha em matéria de urbanismo e licenciamento de obras particulares pois aí parece que reina um clima à parte. Os casos são já muitos, mas bastam uns poucos exemplos. O centro Comercial Cidade do Porto continua de pé; às residências Studio Residence do estádio, em Coimbra, nada acontece (parece que o caso nem sequer transitou em julgado); os edifícios em frente ao parque, também na mesma cidade permanecem na mesma. São apenas três exemplos, mas com claras violações de PDM. Quer-se, pois, defender a ideia de que é errado o clima de desconfiança em relação às autarquias? Tenhma juízo! Depois de 20 anos de PDM vemos como o país se encontra. Diga-se em abono da verdade, que para os autarcas (muitos deles) esses instrumentos de regulação só forma realizados para poderem aceder a fundos comunitários, sem o que estariam impedidos, inteligentemente pelo Governo de então, de lhes ter acesso. Esses autarcas nunca acreditaram nesses documentos, nunca se reviram neles e, pelo contrário, encontraram no seu articulado um bloqueio à determinação de progresso e desenvolvimento concelhio e mais umas quantas argumentações para justificar o injustificável. A história está feita e o resultado está à vista, com a ajuda de mais umas quantas doses de chico-espertismo e de movimentações pouco transparentes e dificilmente defensáveis à luz do interesse público. Vamos agora ver como ficará o país, sem o controlo do Governo na aprovação dos planos de Urbanização e de Pormenor. Devrá ter-se presente que uma alteração ao PDM pode produzir efeitos pela realização de um plano de nível superior, ou seja, por PP ou PU. Não é preciso ser mago ou oráculo para antecipar os resultados, e é certo que nada mais será como dantes. Ainda haverá ilegalidades depois disso? Julgo que não.


P.S- Estou, em todo o caso, curioso para ver o que acontecerá em Coimbra com a revisão do PDM em curso. Haverá surpresas? Julgo que não.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Este Surf Sim, Não É Para Meninos

Eu Vou!

Aforismos roubados

Se nas prisões as celas fossem decoradas por arquitectos, isso deveria ser considerado um agravamento da pena.

Adolf Loos in Ornamento e Delito

Aforismos roubados

A arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz.

Le Corbusier

Aforismos roubados

Less is More.

Mies van der Rohe

Um Cabedelo Melhor












As mulheres dão uma beleza ao mundo que não consigo traduzir por palavras. Não me acho Eugénio de Andrade ou Vinicius pelo que nem sequer tento. Mas não quero deixar deixar de expressar o quanto seria melhor um Cabedelo onde a presença masculina fosse menos expressiva. A água é boa, adoro deslizar na superfície de uma onda, o entardecer a partir de agora vai ser brutal, mas podia ser mais bonito. Muito mais bonito.

Nova Opportunidade ou Abandono Definitivo?

A decisão está tomanda. O BCP vai deixar a cidade de Lisboa e as instalações que a sua sede ocupa na Baixa Pombalina. O BES já há imensos anos se mudou de armas e bagagens para fora da área que o Millennium pretende abandonar.
Para a baixa, esta pode ser uma oportunidade única para a sua regeneração ou o seu fim absoluto. Há anos que a zona está ameaçada. Primeiro, sairam os habitantes que agora se pretende que voltem. Agora saem as sedes de grandes empresas, que, apesar de tudo, aguentavam um pouco a área e antes esse tipo de ocupação do que lojas de chineses com artilos manhosos e lojas mixurucas como as que paulatinamente vão tomando conta de todas as ruas. De há poucos anos para cá (embora a transformação se vá perdendo no passado já longínquo) a mudança é brutal. Ainda me lembro de ser possível comprar qualquer coisa que valesse a pena naquele conjunto de ruas, o que, presentemente, já começa a ser complicado. Isto aliado há falta de moradores e a uma população envelhecida é a morte daquela zona da cidade. Esperemos que a mudança de estratégia destes gtrandes grupos finaceiros seja uma oportunidade para revitalizar a área, por deixarem vagas grandes áreas que poderão ser ocupadas por outros usos capazes de imprimir maiores dinâmicas urbanas diárias, maior vibração quotidiana. Mas para isso, alguma coisa, muita coisa terá de ser feita. Se o Plano da Baixa não avançar, aí será o fim.

Fundação Iberê Camargo














Na última sexta feira foi inaugurada a sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, no Brasil. Iberê Camargo foi um pintor surrealista brasileiro e o edifício que vai albergar a colecção do artista foi concebido por Álvaro Siza e é já considerada uma das suas melhores obras, dados o magistral controlo espacial, o magnífico domínio da luz e do modo de percorrer o edifício, o exemplar sentido escultórico.

Até aqui tudo bem. A escolha de um arquitecto português para construir uma obra com um significado tão importante para os brasileiros decerto nos honra a todos e faz de Siza um dos nossos maiores embaixadores culturais. Com toda a certeza fará despertar muito mais interesse pela cultura portuguesa no Brasil do que o Instituto Camões e o torpe Acordo Ortográfico e os equívocos dos seus objectivos.

Mas nem tudo vai bem por cá. Na entrevista que o arquitecto deu ao Jornal Público a propósito da inauguração, Siza diz esta coisa fantástica: tendo alternativas, prefere não trabalhar em Portugal. Motivos? Está cansado e magoado por ver as suas obras votadas ao abandono, mal tratadas e arruinadas. A este propósito não posso deixar de pensar no caricato exemplo do Pavilhão de Portugal de Hannover. Tanto esforço para a cidade de Coimbra conseguir ficar com o edifício e passados estes anos é chocante ver a forma como o edifício é usado e o estado de conservação ou de falta dela em que se encontra. É vergonhoso. Mas, não sendo caso único, o que se retira daqui é que o caso Saramago, parte 2, está a reeditar-se, desta vez com Siza. Não há nada a fazer. A questão é cultural, de mentalidades e não vai lá com decretos. O envolvimento do Dono de Obra (cliente), poderes públicos, empreiteiro, Director de Obra, em torno da Fundação de Porto Alegre, do qual nos fala Siza, e que apresenta como importantíssimo para que se tivesse chegado a um bom resultado, pretendido por todos, não existe em Portugal. Esqueçam. O que existe é o que se passou em Coimbra. Pretendia-se, à força, uma obra de Siza, estilo fast-food, já feita, para a seguir usar e abusar, sem entendimento nem apreço. Não adianta. Chamem os patos bravos e os maus projectistas. Com esses a malta dá-se bem.

O que aqui escrevo não tem nada que ver com a defesa do papel demiúrgico de que muitas vezes os arquitectos são acusados; não tem nada que ver, tão pouco, com a pretensão de endeusar este arquitecto e de se lhe prestar vassalagem ou de olhar para a sua obra de modo acrítico; antes pelo contrário. Se não se sente apreço e vontade de preservar os seus edifícios com naturalidade, espontaneamente, então nada vale a pena; não é importante tê-los. Mas nesse caso, melhor será que Siza os vá produzir para outras paragens. Melhor para si e para a humanidade. Fica o legado para outras gerações, com a garantia de que os portugueses não os destróem.

Entretanto celebremos a brilhante arquitectura que Ávaro Siza produziu em Porto Alegre.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Insanidade Total

Segundo é hoje noticiado, o trabalhadores do Porto de Lisboa preparam-se para suspender o seu trabalho durante as transmissões televisivas dos jogos do Euro.
Parece-me uma medida justa. O país goza de boa saúde, a produtividade (segundo dados recentes) está em alta e não sofreu uma diminuição assinalável nos últimos anos. Não há nada como recuperar a nossa tradicional tríade: fado, futebol e, já agora, Nossa Senhora de Fátima, porque, assim, só ela nos pode valer.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Praia, Ondas, Outros Luxos e Prazeres
















Esta foto da minha praia de eleição, tirada algures da net através do motor de busca de imagens do Google, fez-me recordar o quanto quero voltar. João, por favor, abre! Faz parar este tempo que não dá tréguas e volta a proporcionar-nos aqueles espantosos finais de tarde, de fino na mão, em boa companhia, a ouvir excelente música e com o Sol a esconder-se por detrás das dunas e sobre o mar. Tudo, claro, depois de uma ou outra onda, com a serra diante dos olhos.
Como é boa a vida!

Palavras

Qual será o limite na correspondência entre o significado e o significante? Entre a palavra expressa e a ideia, o conceito? Como, quando, se manipulam vocábulos com intencionalidade? Qual o limite de actuação da espontaneidade? Onde deixa esta de se expressar, para ser comandada pela razão e pela vontade de uma sequência pensada, procurada?
Algum poeta, mesmo de algibeira, que me responda.

Boas Notícias e Mais Mamoplastias

















Vitor Santos, presidente do Colégio de Especialidade de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, afirma ao Jornal Público, na edição de hoje, que muitas cirurgias estéticas estão a ser pagas pelo SNS em clínicas privadas, através do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), atingindo valores impressionantes. Para o médico, devem ser definidas regras lógicas e sensatas para o acesso a esse tipo de intervenção. De acordo com o SIGIC, qualquer cidadão que esteja inscrito para cirurgia e não encontre resposta dos serviços públicos ao fim de nove meses recebe um vale-cirurgia que lhe permite aceder a uma clínica privada. Como o SIGIC é ‘’cego’’ parece não haver controlo neste tipo de prática.
Até que enfim uma boa notícia neste país. Há muito tempo que o meu amigo Raúl e eu próprio vimos defendendo a necessidade de o SNS comparticipar em 100% a realização de mamoplastias. Trata-se de uma medida fundamental para elevar a auto-estima das mulheres portuguesas e a felicidade do homens lusos. Apesar da prática que Vitor Santos refere não produzir efeitos sobre a totalidade dos requerentes (nem todos os hospitais têm o mesmo entendimento do SIGIC) parece que estamos a dar passos concretos no bom caminho. Boa! Já agora, porque não resolver outros problemas mais prementes de saúde pública, com recurso ao dinheiro proveniente da receita fiscal e das taxas moderadoras?

Aforismos roubados

Portugal, sem milagres externos, é uma quadratura do círculo, isto é, um problema irresolúvel.

José Manuel Fernandes in Editorial de hoje do Público

De Novo O Petróleo

Rússia, EUA, Canadá, Dinamarca e Noruega pretendem reclamar soberania sobre mais território na zona de degelo do Árctico. Motivo? Estima-se que a área contenha cerca de um quarto das reservas mundiais de petróleo. E porquê ficarem nas mãos desses manos?... pergunta-se!

Aforismos roubados

Acerca do que não se pode falar, tem que se ficar em silêncio.

Wittgenstien

terça-feira, 27 de maio de 2008

Aforismos roubados

Só a palavra certa é de utilidades pública

Eugénio de Andrade

Saca de novo; Parabéns!















Na última prova do ASP World Tour, Globe Pro Fiji, Taj Burrow opôs-se a Tiago Pires, naquele que foi classificado como o melhor heat do dia. Num combate renhido, Burrow viu-se e desejou-se para vencer ao nosso Saca, por um resultado bastante expressivo do que se passou no mar: 17,00 contra 15,01.
Boa Miúdo!

O senhor que nos salve

A propósito das dificuldades que se vivem no Douro, ouvi hoje, na TSF, as declarações que o Primeiro Ministro da Nação realizou numa visita que fez à região há algum tempo, com o intuito de intervir para mitigar os problemas. Dizia o senhor esta coisa bela: ''as palavras para salvar o mundo estão ditas; resta salvá-lo'' Estamos à espera, José! Começa por nós, Portugueses!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Outro Portugal

Enquanto Lisboa já vive dentro dos padrões europeus (calma! é só de riqueza, dinheiro, que se trata!) e o restante país atinge 73% do rendimento médio da União Europeia, O Douro fica-se por 48% desse mesmo rendimento. Um indicador de peso do presente sombrio que ali se vive é dado por outro expressivo valor: nos últimos anos a região perdeu 30% da população. Nem o Vinho do Porto e a excelência de numerosos vinhos de mesa contrariam as dificuldades. As cooperativas estão nas ''lonas'' e não têm como remunerar as centenas de lavradores. Triste gente, triste região, triste país!

Mas será que está tudo doido???

Enquanto é ignorada a forma brilhante como Tiago Pires defrontou a última ronda do WCT (com excepção da edição de hoje do Público - que lhe dedica duas páginas e uma foto espectacular - ficamos a saber que José Mourinho irá para o Inter de Milão com um contrato de 9 ou 10 milhões de euros anuais livres de impostos, e que Cristiano Ronaldo poderá estar a caminho do Real Madrid, sendo noticiada a sua transferência por 90 milhões de euros! Não, não é engano! São mesmo 90 milhões de euros. Imoral, não é? Qual será o limite para esta doideira? O céu? Ou esse já não chega?

Parabéns Saca















Na terceira ronda do circuito mundial do WCT, realizada em Teahupoo, o nosso Tiago Pires eliminou o americano e experiente Bobby Martinez. Boa Miúdo! Mas não se ficou por aqui. O nosso Tiago sacou um 10 (sim um 10!) contra o australiano Joel Parkinson!

Segundo o que a imprensa tradicional não noticia, ficamos a saber que:

''Tiago Pires dominou todo o heat e fez das melhores e mais bonitas ondas de toda a prova tendo mesmo conseguido uma onda perfeita de 10 pontos.

Quando faltavam cerca de 5 minutos para terminar o heat e com Tiago Pires a ter uma vantagem confortável sobre o australiano Joel Parkinson, o surfista luso cometeu uma interferência, que deixou algumas dúvidas, que deitou tudo a perder.

Numa altura em que Tiago Pires tinha uma nota 10 e um 2,63, para descartar, o surfista português precipitou-se e remou para uma onda em que o australiano, segundo os juízes, tinha prioridade.

Esta derrota de Tiago Pires tem um sabor a injustiça, uma vez que o português deu um verdadeiro show de surf com um tubo espectacular que lhe rendeu 10 pontos, a nota máxima numa onda, e de seguida um grande tubo sem as mãos no rail, praticamente em pé, que valeu 8,47.

1st
Joel Parkinson (AUS )
13.O6p,Win by 3.O6

2nd
Tiago Pires (PRT )
1O.OOp, Needs 13.O6

O vencedor do heat, Joel Parkinson, não conseguiu melhor do que um 6,23 e um 6,83, mas soube tirar partido das regras e beneficiou da interferência de Tiago Pires.''

in ondasurf.pro

Em todo o caso, Parabéns Tiago.

terça-feira, 20 de maio de 2008

segunda-feira, 19 de maio de 2008

João Abel Manta

Este genial cartoon de João Abel Manta data de 1951.
Só o espírito mordaz desse arquitecto/cartoonista... Está muito bem apanhado!

Celulite Afinal É Coisa Boa

E a humanidade a pensar que a celulite era coisa má.
Desengane-se! Segundo este anúncio publicado num exemplar da Revista Arquitectura de 1959, é caso para dizer que era bom que todos tivéssemos celulite em nossas casas. Sobretudo agora que a poupança energética está na ordem do dia.
Talvez valha a pena dizer que celulite=redução nas emissões de dióxido de carbono.
Só não se percebe, sendo assim, porque é que os Estados Unidos são responsáveis por 50% dessas emissões!

Quanta sedução

No entendimento de muitos, a arquitectura é sinónimo de glamour. Só Charme! Os arquitectos, esses, são uns tipos mais ou menos desprendidos, cultivam um ar mais ou menos blasé, trabalham invariavelmente sós, têm umas casas de sonho e muita, mas mesmo muita massa. Ah... Quase esquecia: só fazem o que querem, mais ou menos quando querem. Quando têm inspiração, como se usa dizer, julgo. Isto já para não dizer que têm invariavelmente muita pinta e vestem com um estilo próprio, mas muito, muito bem. Em suma, encarnam sem equívocos o tal glamour. Para provar isso mesmo, deixo aqui um texto fantástico, prova de que aquilo que os ocupa (me ocupa neste momento) não é mais do que charme e encanto em permanência, sem interrupções. É só sedução. Que seja mesmo muito encantatório e sedutor:

3.3- COBERTURAS
3.3.1- Fornecimento e aplicação de camada de forma na cobertura geral com 1% de inclinação, em betão leve tipo LECA 16/32mm, com a espessura mínima de 50mm, com caimentos para as caleiras, incluindo formação destas; a superfície deve ser afagada, não apresentar depressões que permitam empoçamentos; as betonagens deverão ser executadas em painéis com as dimensões máximas de 3,00x3,00 m, feitas alternadamente de modo a evitar a sua fissuração por retracção; conforme projecto.
3.3.1.1- O Empreiteiro deverá executar uma amostra de 1x1m, para ser aprovada pela Fiscalização. Só após a sua aprovação poder-se-á dar início aos trabalhos

3.3.2- Fornecimento e execução de betonilha, com argamassa de cimento e areia ao traço 1.4, com espessura constante com cerca de 20mm, pronta a receber telas; conforme projecto.

3.3.3- Fornecimento e aplicação de emulsão betuminosa tipo "Imperkote" da Imperalum, aplicada à trincha e diluída em duas partes de produto para uma parte de água; nas zonas críticas deve aplicar-se pura; conforme projecto.

3.3.4- Fornecimento e aplicação de telas de betume polímero tipo "Polyplas 30" e "Polyplás 40", em duas camadas, da Imperalum; as juntas de sobreposição devem ser perfeitamente soldadas, por fusão, com a chama de um maçarico; durante a soldadura deverá compactar-se a zona da junta de forma a garantir uma colagem eficiente entre as membranas; após a soldadura deverá passar-se uma espátula aquecida nos bordos da mesma; as sobreposições terão um mínimo de 8 cm; após a impermeabilização, os tubos de queda deverá ser devidamente tapados e as coberturas inundadas de forma a que fiquem completamente submersas, assim devendo manter-se durante 48 horas a fim de realizar-se o ensaio de estanquicidade; conforme directivas do fabricante e projecto.
3.3.4.1- Todos os trabalhos de impermeabilização não deverão efectuar-se em tempo de chuva ou de humidade, devendo a superfície e impermeabilizar encontrar-se perfeitamente seca e limpa na ocasião de aplicação do produto
3.3.5- Fornecimento e aplicação de separador geotextil tipo " Impersep 105" da Imperalum; antes da colocação dos separadores deverá certificar-se que não existem vestígios de pedras ou qualquer elemento perfurante, deverá garantir-se uma sobreposição mínima de 10 cm; conforme directivas do fabricante e projecto.

3.3.6- Fornecimento e aplicação de placas de poliestireno extrudido tipo ROOFMATE SL80, incluindo fixação; conforme projecto.
3.3.6.1- As placas serão colocadas, os bordos terão encaixes à meia espessura e no tardoz terão ranhuras para melhor fixação ao suporte.
3.3.6.2- A classificação de resistência ao fogo será de M1.
3.3.6.3- A cola para fixação ao suporte será uma mistura de 30% em peso de cimento com cargas minerais e adjuvantes misturados com um copolymero acrílico em dispersão, e de acordo com as indicações da casa fornecedora.
3.3.6.4- As placas serão assentes em elementos inteiros, apenas se admitindo elementos de dimensão inferior nos extremos.

3.3.7- Fornecimento e aplicação de camada de gravilha de granito com espessura média de 10cm, calibre 16/32, com superfície regularizada, sobre as placas de isolamento; conforme projecto.

3.3.8- Fornecimento e aplicação de camada de forma em coberturas de lanternins, com 2% de inclinação, em betão leve tipo LECA 16/32mm, com a espessura mínima de 50mm, com caímentos para as caleiras, incluindo formação destas, de acordo com projecto; a superfície deve ser afagada, não apresentar depressões que permitam empoçamentos; as betonagens deverão ser executadas em painéis com as dimensões máximas de 3,00x3,00 m, feitas alternadamente de modo a evitar a sua fissuração por retracção; conforme projecto.
3.3.8.1- O empreiteiro deverá executar uma amostra de 1x1m, para ser aprovada pela Fiscalização. Só após a sua aprovação poder-se-á dar início aos trabalhos.

3.3.9- Fornecimento e assentamento de rufos/capacetes em zinco nº 12, incluindo presilhas e fixações, em remates de platibandas e lanternins; conforme projecto.
3.3.9.1- As peças de zinco que revestem superiormente as platibandas e em remates de paredes exteriores, serão executadas de acordo com os pormenores e assentes de modo a permitir a sua livre dilatação.
3.3.9.2- A soldadura de zinco será executada com solda de estanho, tomando-se as precauções necessárias para garantir a perfeita estanquicidade da soldadura.
3.3.9.3- Serão executados em todas as peças independentemente do seu pormenor, juntas de dilatação de 8 em 8m.
3.3.9.4- Quando fixas nas paredes, serão executados rufos e contra-rufo, aplicadas em roço tomado e cordão de silicone esmagado contra a parede.

3.3.10 - Fornecimento e assentamento de trop-pleins em aço inox AINSI 316 decapado, Ø90mm, incluindo fixações, em drenagem de lanternins lt01, lt02, lt16, lt7 e lt18; conforme projecto.

3.3.11- Fornecimento e aplicação de protecção de entradas de condutas de avac em sistema tipo camarinha, em chapa de zinco nº12, incluindo todos os acessórios de fixação, conforme projecto.
3.3.11.1- As peças serão em chapa de zinco de zinco-titânio, constituída por elementos com o comprimento máximo de 8,0 m e 0,52 m de distância entre eixos, incluindo presilhas (aço inoxidável AISI-316) ripas de fixação, filme plástico de ventilação e todos os acessórios. As diferentes peças horizontais serão fixadas através de perfis especiais de chapa quinada de 2,5mm de espessura devidamente metalizados e assentes de modo a permitir a sua livre dilatação.
3.3.11.2- A soldadura de zinco será executada com solda de estanho, tomando-se as precauções necessárias para garantir a perfeita estanquicidade da soldadura.

domingo, 18 de maio de 2008

Chuva, Vida Para Além Do Surf e Fritz Lang














Mais um dia de chuva. Este ano insiste em não dar tréguas. Não pára. Deixa o sol brilhar uns dias, poucos, para voltar logo em seguida, implacável.
Quem diria, depois do dia de ontem. Este será mais um daqueles fins de semana a saber a pouco. Depois de tantos sem mar - ora por estar grande, por estar desordenado, ora por estar liso (flat para os mais dados à precisão ou snobeira de linguagem) -, depois dos últimos que me afastaram da água por trabalho (o que passou) e por uma inadiável escapadela (o anterior), é mais uma vez o tempo incerto a boicotar a ida ao Cabedelo. Fica na retina a melhor onda de ontem e dos últimos tempos, a escorregar do lip para a base da onda por duas vezes, as mesmas em que o floater esteve iminente. Podia não ter feito mais nenhuma. Essa bastava. É inexplicável a sensação, e tudo tão dependente de imponderáveis e do acaso: por pouco não me aguentava, numa entrada no limite, quase radical, além de ter sido um ''velho'' e ocasional companheiro dessas andanças ao obrigar-me a escolher a esquerda (tendo-me bloqueado a direita) a proporcionar-me essa oportunidade única.
Com esse prazer ainda bem presente, e como há vida para além do surf, hoje resta ver a chuva lá fora, ficando com um filme de Fritz Lang - O Testamento do Dr. Mabuse - como companhia. E desta vez o trabalho tem o destino do passado: foi lá atrás.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Quero voltar a Lungarno Corsini.

http://www.2night.it/v2/firenze/locali/membri/5822.html
http://www.noirfirenze.com/

Os passeios estão cheios. No muro do rio, não há um local para sentar. Na esplanada, só pessoas. Ao fundo, na Ponte S. Trinita, o cenário repete-se: umas miúdas acomodam-se fora do tabuleiro, sobre os contrafortes; ouve-se o saxofone de um músico de ocasião que se senta de modo informal, sobre o muro da ponte em questão, como se o cavalgasse; ao lado espalha-se mais gente.
É Domingo. Dezanove horas e trinta minutos. O céu deixa passar uma magnífica luz quente de final de tarde. O ambiente é italiano, informal mas bem vestido, e as mulheres fazem notar que está calor.
O Martini está óptimo. Quem disse que não se faz nada ao Domingo? NOIR!











Estações

À Chegada














À partida.


















É verdade. As estações de Caminho de Ferro podem ser belas obras de arquitectura. Os espaços envolventes podem ser qualificados. Podem ser grandes portas de entrada e saída nas cidades; ter uma notória dimensão de equipamento público, urbano.
Só não deixo aqui uma imagem de Coimbra B, face-a-face com a estação de Santa Maria Novela, por pura vergonha. Como é possivel! A estação de Florença é de 1935!

Não será possível fazer melhor do que aquele pardieiro com que somos brindados à chegada de Coimbra? É sempre o mesmo choque cultural, o mesmo desagrado ao chegar a casa. É triste senti-lo. Grande lição de vivência cívica nos é dada com este tipo de edifícios. A Democracia tinha obrigação de fazer melhor do que os regimes totalitários, mas parece que não consegue. Sendo propositadamente polémico, parece que Mussolini teve mais preocupações urbanas e cívicas do que aqueles que nos governam, localmente e a partir do Terreiro do Paço. Deviam ter vergonha. Refer incluída.

Sim. A Perfeição Existe

Se a perfeição existe, encarnou em Michelangelo Buonarroti.
Não. Não é um estado limite, sem evolução possível, como disse um amigo meu.
Basta ver as obras de escultura, de arquitectura e de pintura que legou.

Quarto Com Vista Sobre a Cidade II

Quarto Com Vista Sobre a Cidade I

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mundo Perfeito, por Fernado Guerra














Quando alguém se notabiliza, as amizades surgem facilmente. Toda a gente quer ter a notabilidade de ser amigo de alguém notável. No meu caso, é com propriedade que posso falar do meu amigo Fernando Guerra. Conheci-o antes de se tornar conhecido como o excelente fotógrafo de arquitectura que é. Estava na altura a dar passos para construir a carreira que se encontra a solidificar. Não tinha o site (com 1000 visitas diárias), não fotografava para os melhores arquitectos nacionais, não fazia capa de revistas estrangeiras com as suas magníficas fotografias. É com esta declaração de interesse que me refiro aqui ao Fernando. De qualquer forma, não me sinto comprometido para falar do seu trabalho. A sua qualidade é demasiado evidente, óbvia. Dispensa favores ou exageros.
O Fernando é neste momento, para além de um excelente profissional, talvez o melhor e mais activo divulgador da arquitectura nacional. Além das suas fotografias serem publicadas fora de Portugal, o seu site é um ponto de observação privilegiado sobre as obras que os arquitectos portugueses estão a fazer na actualidade e em cada momento. Funciona. A mostra é plural e inclui mais de 250 trabalhos de arquitectura.
Pela qualidade do seu trabalho, por essa importante tarefa, é mais do que merecida, justa, a exposição que a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto organizou sobre o seu trabalho. A mostra tem por título Mundo Perfeito e merece uma visita no espaço do Museu da Faup. As fotografias são belíssimas. Direi o mesmo do catálogo: vale a pena comprar.

Parabéns Fernando.

P.S. cada vez que vejo o trabalho do Fernando, no espaço Últimas Reportagens do seu site, fico sempre com a impressão de que os arquitectos portugueses são verdadeiros heróis. A qualidade do trabalho que realizam, com as condições de trabalho em que actuam, é verdadeiramente alucinante. Talvez a arquitectura portuguesa um dia tenha o reconhecimento publico que merece. Como sou ingénuo, ainda acredito que deixe de ser o parente pobre da cultura portuguesa. Ao menos que os políticos saibam capitalizar o interesse económico que pode assumir, até na definição da marca Portugal. Seja porque motivo for, faça-se qualquer coisa. Mas faça-se!

RAP, mesquinhices e o país real

Como é hábito, gostei imenso da última crónica de Ricardo Araújo Pereira (RAP) na Visão. Concordo com o seu ponto de vista, que ironiza sobre o excesso de bairrismo, mesmo provincianismo, daqueles que se levantam, por esse país fora, sempre que se diz mal das suas terrinhas (suas por um leve acaso, já que a ninguém é dada a oportunidade de escolher o local de nascimento). RAP tem razão; por contraste, ninguém se incomoda quando surge alguma crítica, mesmo que injusta – acrescento eu – à cidade de Lisboa. A verdade, porém, é que RAP esquece dois dados fundamentais. Em primeiro lugar, o Lisboeta é um ser tão raro quanto o Lince da Malcata. Para além do meu avô paterno, tenho conhecido muito poucos seres nascidos na capital. A emigração urbana é um fenómeno que se tem estendido no tempo e é relativamente recente. As famílias ainda não criaram raízes. Ainda orbitam em torno das suas terras de origem. Basta ver o que sucede cada vez que há uma ponte ou datas festivas. Êxodo geral a partir de Lisboa e a caminho do que por lá se usa designar por província. Claro que essa gente tem tantos motivos para se indignar com uma crítica em relação á capital como com a mudança de Luís Figo do Barcelona para o Real Madrid. Mas sejamos honestos. Em Lisboa o que é que falta? Só e apenas aquilo que o país não pode pagar (leia-se todos os portugueses; aí sim, o princípio da solidariedade nacional funciona). Um habitante de Lisboa não sente que a sua cidade de adopção, a sua capital, tenha sido abandonada; não tem razões para lamentos. É o abandono que cria reacções provincianas e parolas à mínima crítica. É essa sensação de que estão a comprometer o pouco património que resta, sem lugar a substituição ou renovação, que origina a indignação e reacção. O complexo existe, é real, RAP tem razão, mas não surge do nada. Apetece lembrar os 80 milhões de contos que o governo se prepara para gastar na frente ribeirinha de Lisboa. Faz muito bem, Lisboa merece e aquele frente de água está de facto muito mal tratada. É precisa uma nova travessia do Tejo?! Com certeza que sim! Sem dúvida! Mais Cril’s e outras coisas mais; planos Baixa-Chiado; tratamentos vários para todas as maleitas? A tudo direi que sim. Mas olhemos à volta e para fora do umbigo da sedlutora e feminina Alfama.

P.S. que ninguém do Porto leia isto, se não lá temos a histeria e o fanatismo do costume... não podem ver nada.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Donos da língua, acordo ortográfico e outros devaneios

Fiquei pasmo com a última intervenção de Miguel Sousa Tavares no telejornal da TVI.
Estava o senhor indignado por o Governo se ter comportado como dono da língua portuguesa no processo do acordo ortográfico. Lacónico e corrosivo como sempre, Sousa Tavares manifestou-se frontalmente contra o facto de só terem sido ouvidos os especialistas, os linguistas, aqueles que apelidou como os teóricos da língua. No seu entender deveriam ter sido também escutados aqueles que fazem uso da língua, os que trabalham com ela: escritores, editores, livreiros. Pasme-se! De um dono da língua passaríamos a ter vários. Não sei como é que alguém pode ter a ideia, apresentá-la e defendê-la, de que, por inerência da actividade profissional, possui direitos acrescidos sobre a língua que, só no nosso país, é falada por 10 milhões de pessoas. Será que está tudo a ficar maluco nesta terra?!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Publicações

O mercado editorial portugês é maravilhoso. Os títulos proliferam. Que se calem todos aqueles que, como habituais profetas da desgraça, não vêem mais do que problemas e insuficiências. Mesmo que os ambiciosos projectos de Pedro Santana Lopes não tenham sido muito mais do que isso mesmo - projectos! - certo é que nada corre assim tão mal. Mais uma prova de que os portugueses estão a investir na cultura e nos índices de desenvolvimento humano. Quem é que tem coragem de dizer que não lêem? Não lêem o que a corrente oficial gostaria que fosse lido. A realidade está aí a provar o contrário. Mesmo que uma publicações de referência como o Jornal do Incrível tenha desaparecido, podemos contar actualmente com o 24 Horas e o Correio da Manhã que são muito, muito bons. E que dizer de publicações como o Diário Tauromáquico Olé ou como o Semanário Taurino Farpas? Não, não é gozo, existem mesmo. Que demonstração de cultura. Decerto será uma homenagem a Ramalho Ortigão e a Eça de Queirós. Não se percebe quem lê estas coisas, é verdade, mas os títulos são dos mais inspiradores que se encontram nas bancas. Não têm concorrência. Com tal criatividade e diversificação de interesses só não se percebe é como é que este país deixou sucumbir esse enorme tributo ao jornalismo, à fotografia, à ficção, tudo sob a mesma capa, que representou a grande revista Gina. É injusto.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Rita Redshoes

E porque estamos em maré de concertos, Rita Redshoes actuará dia 4 de Abril na Fnac de Coimbra, às 22h00.
Para ficar a saber um pouco mais sobre a cantora, fica o endereço: http://www.myspace.com/ritaredshoes

Cohen em Portugal

"Leonard Cohen, 73 anos, é considerado um dos maiores escritores de canções folk da segunda metade do século XX, autor de músicas que versam sobre amor, espiritualidade, religião ou sexo, "embrulhadas" em soturnidade, melancolia, cinismo e provocação."
edição do Público online de 26.3.08

Este senhor regressa aos palcos internacionais depois de uma ausência de 15 anos. No âmbito da World Tour 200-2009, o cantor actuará pela terceira vez em Portugal. Dia 19de Julho poderá ser visto e ouvido no Passeio Marítimo de Algés. A não perder.

Este também não é para meninos

As ondas fecham, não é? Estão sempre a fechar? E curiosamente estão invariavelmente boas, fantásticas, quando não vamos ao mar. É o que se ouve mais fora de água e da boca dos meninos que todos somos, numa espécie de desculpa perante as dificuldades para lidar com as adversidades. As nossas, não as que o mar impõe.
Parece que o grande Kelly não vê qualquer problema em dropar a onda, ostensivamente a fechar. Grande bottom.
Esqueçam! Vejam, vejamos, e deixemo-nos de lamúrias.


quinta-feira, 27 de março de 2008

No sítio errado à hora errada

Nunca é demais recordar.

Não. Não são plataformas a flutuar. É o resultado da acção do furacão Katrina.

quarta-feira, 26 de março de 2008

A esperança

Estou sempre a dizer mal. Estou cansado! Vou tentar ter uma atitude mais positiva.
A esperança está aí. Com Luís Filipe Menezes, Portugal vai retomar o caminho da convergência europeia. Se o homem conseguiu despoluir 16 quilómetros de praias, também conseguirá por esta coisa a crescer 3 ou 4% ao ano. Afinal o que é que são 3 ou 4 unidades comparadas com 16?!

Demasiado

Fantástico, a criminalidade violenta diminui no ano passado. Mas como nem tudo é perfeito, o mesmo não se passou com a pequena criminalidade. O carjacking chegou mesmo a um incrível aumento de 30%. Mas para o que conta para este ministro é a crueza dos números. Não importa que as pessoas se sintam inseguras. Se sentem é porque são parvas! O ministro não é, em todo o caso, das pessoas que dê mais prazer ouvir e a verdade, além do mais, é que o Estado português está em perfeita falência e ruína. A Justiça é a injustiça do tempo longo e ainda temos que ser confrontados com um bastonário da Ordem dos Advogados desbocado e pouco institucional. A educação apresenta-se tão incrivelmente pouco educada, que está a empurrar os filhos das famílias de maiores rendimentos para o ensino particular, no qual se reprova, se tem faltas disciplinares e se é expulso; basta não cumprir as regras. Mas para a ministra, tudo está bem e qualquer incidente é de um caso isolado que se trata. Nada mais. A cultura, bem dessa nem se ouve, nem ouviu falar (tricas à volta da mesma não contam).
A saúde já esteve mais sã, antes de se ter começado a extinguir serviços sem que tivesse sido implementada uma alternativa. É verdade que quem não tem dinheiro não tem vícios; não há, não se gasta; mas onde é que se meteu o princípio da solidariedade nacional? Se todos temos que pagar as obras públicas em Lisboa, não parece justo que muitos cidadãos deste país sejam literalmente abandonados, esvazidas que vão sendo as regiões onde vivem de todos e quaisquer serviços públicos. Provavelmente até tem lógica. Veja-se: fechando todas as unidades de saúde desse interior que já não conta, consegue-se, sem tanto esforço, construir mais umas quantas circulares e nós viários ou mais uma travessia sobre o Tejo (como a tecnocracia gosta de lhe chamar). Poupamos todos e, além do mais, o TGV vai precisar na nova ponte. É pena que todos os esses seres bizarros que não migraram para as cidades do litoral, por vontade própria, falta de meios ou incapacidade, só muito remotamente o possam utilizar, ao TGV e a mais uns quantos investimentos públicos. É a vida! Azar! Como aquele que impediu umas quantas ambulâncias do INEM de se moverem pela falta de abertura de vagas para provimento de lugares de Técnicos de Ambulâncias. Isto em locais onde já muitos serviços de saúde foram encerrados. Claro que não foi em Lisboa, no Porto, em Braga ou em Coimbra. Aí os azares vão sendo menores. Neste país não há dinheiro, é certo. Mas o desiquilíbrio a que o território nacional é sujeito é de uma injustiça sem qualquer desculpa ou justificação. É demasiado. Ponto!

terça-feira, 25 de março de 2008

Este Surf sim, não é para meninos
















O título é emprestado, mas não podia estar mais perfeito.

FF

''Não há fim nem princípio. Apenas a infinita paixão da vida''
Federico Fellini

Assim não!

Sim. Também nós fazíamos m... Lembro-me de um estirador que virei literalmente ao contrário, numa aula de Teoria do Design. A vítima foi o meu colega e amigo João Carlos. A professora, quando viu (porque inicialmente estava de costas) não tinha sido ninguém, nem se havia passado nada. O habitual. Tenho presente a sessão de colagem de autocolantes da campanha para as presidências de 86, nas costa do professor de História de Arte do 10º ano, por cada um de nós e sempre que nos dirigíamos à sua secretária. Isto a propósito de dúvidas que inventávamos com esperança de que o docente se pusesse uma vez mais a jeito, de costas, para mais um selo da nossa inconsequente insolência. Recordo as inúmeras vezes que íamos para a rua - ou por eu e o Chico andarmos a correr, a fugir um do outro, à volta dos estiradores na aula de desenho, ou por outras manifestações de pequena indisciplina, muitas vezes com esquecimento de que nos encontrávamos numa sala de aula, outras por querermos ser mais engraçados do que na realidade éramos. Mas por vezes tinha mesmo graça, ainda que na altura não fizéssemos rir os professores. A história do Raul é das melhores. Não percebendo nada do que lhe era perguntado num ‘’ponto’’ o Raul, que sempre teve o que se costuma designar de jeito para desenho, resolveu responder ao enunciado numa espécie de Mandarim, imitando e criando caracteres à medida das necessidades e da sua incapacidade para uma resposta mais séria. A professora, chocada com a audácia, chamou-o, após a correcção das provas, para lhe dar o ralhete da vida. O Raul, de mãos atrás das costas e mochila às costas, cabisbaixo, inventou que estava a passar um mau bocado, que não era conveniente apresentar queixa do incidente aos pais, porque estavam em processo de divórcio. A docente, tocada pelo que desconhecia ser uma mentira, concedeu segunda oportunidade ao chinês da Infanta D. Maria. O Raul, recebeu o novo ‘’ponto’’ e, agradecido, abandonou o mandarim, para, fazendo uso das suas capacidades - as de desenho, não as cognitivas - responder em ÁRABE!
Eram estas as nossas manifestações de indisciplina. Claro que tínhamos noção dos limites. Desde logo, os nossos pais tinham bom senso e sabiam porque nos punham na escola. Exigiam-nos que aprendessemos! Além de que os professores impunham respeito; tinham mecanismos para o fazer (não era difícil reprovar - a tal palavra anti-pedagógica, que, por o ser, foi banida – e havia múltiplas formas de o conseguir), e a ameaça de ser presente ao Conselho Directivo era como ter que falar com Deus, numa mistura de susto e vexame. Lembro-me de me ver forçado a lidar com isso depois de, junto com outro colega do 7º ano, ter partido uns quantos expositores em vidro de uma exposição. A perspectiva de ir falar com alguém da direcção da escola era bem pior do que ter que pagar os estragos. Servia de emenda. Para que não voltasse a acontecer bastava que nos obrigassem a pagar um quantia simbólica - como ocorreu na realidade - cujo fim – percebi-o bastante mais tarde – era o da responsabilização. Sem falsos moralismos, a verdade é que os actos que cometíamos não eram de uma gravidade extrema e éramos responsabilizados. Não havia a obsessão por tudo que ‘’pudesse’’ ser anti-pedagógico nem se pretendia vencer o atraso por medidas administrativas e de gabinete, a partir da 5 de Outubro. É verdade que não tínhamos telemóveis. Mas a agressão de professores tão pouco nos passava pela cabeça. O objectivo da nossa indisciplina era precisamente o de não sermos apanhados (um certo pudor e vergonha, além do medo das consequências também ajudavam). Certo é, na verdade, que os sucessivos ministros da educação, apesar de sempre contestados, não diziam a enormidades que se ouvem, como esta de que ‘’o código da estrada não impede que haja acidentes’’. Isto dito de uma responsável que promove a falta de rigor de exigência, de responsabilização, parece uma provocação a quem todos os dias tem que lidar com as consequências de medidas patéticas como o novo estatuto do aluno e outras desgraças do género. Durante algum tempo achei que havia um queixume, um certo exagero, quando os professores instavam a tutela a ir para as escolas ver o que lá se passava. Mas hoje estou certo. Esses senhores de secretária, burocratas da educação, deviam deixar a 5 de Outubro e constatar in loco os resultados práticos das suas opções. Sim porque os teóricos já conhecemos. A Eurostat divulga-os. Parolos como só nós, pode ser que agora que os Estados Unidos, após anos de maus resultados, puseram em causa as teorias construtivistas no ensino da matemática, os ventos de mudança se façam senti por cá. É bom que aconteça. É pena é que seja sempre a reboque. Que país! Agora parece que vai ser, ou foi, anunciado um programa para tornar os têxteis nacionais mais competitivos. O primeiro comentário que me surge é que não sabia que ainda era possível. Ainda bem que o é. Mas a medida vem do gabinete do ministro Pinho, o tal do fim da crise e do ALLGARVE! O que é que aí virá?!
Quanto à educação, falta o quê, depois do youtube? Que espanquem um professor em directo na TVI?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Confusao habitual

Na minha profissão, sou vítima da híper-produção de legislação e de forma desarticulada e dispersa, o que, é evidente, condiciona o conhecimento dos códigos e regulamentos. É impossível. Nem sei como nas cãmaras e outroas instituiçoes do Estado alguém pode mover-se na intrincada teia de Leis, Decreto-Leis, Portarias, Despachos, normas e artigos.
Mais uma vez, está-nos no sangue. Já era assim em 1920, nos primórdios do Código da Estrada. Nada de Novo, portanto.

''(...) se por outro lado houvesse tambem menos cahos nas leis que vigoram e que em vez de disseminadas em vinte mil decretos, posturas, regulamentos deveriam pelo contario ser reduzidas a um documento unico, de fácil consulta por parte dos interessados.
Assim como tudo está é dificil entendermo-nos.
Um exemplo: o artigo 45 do decreto de 27 de Maio de 1911 regulando a circulação diz:
É prohibido ao conductor abandonar o automovel nas ruas ou estradasplanas sem tomar todas as precauções necessarias para evitar qualquer acidente. Em caso algum é permitido o abandono em ruas ou estradas inclinadas.
D'aqui parece concluir-se que é permitido abandonar o automovel n'uma rua ou estrada plana desde o momento que sejam tomadas as precauções tendentes a evitar qulaquer desastre.
Mas o artigo 66 do código de posturas diz
Ninguém guiando ou conduzindo vehiculos pode deixal-os abandonados na via publica sob pena de 2$00 de multa.

Pode-se ou não se pode abandonar o automóvel em rua plana?

Tudo sempre igual

A história, neste país, não reserva surpresas. Ia dizer que é cíclica, mas seria um erro, porque na verdade é contínua, sem cortes, sobressaltos ou mudanças significativas, em todos os campos e sectores. Não é necessariamente mau! Se conhecermos bem o passado, saberemos lidar bem como a vidinha, pois já sabemos que daqui não vêm surpresas.

O nº 2 da revista O Automóvel , de 30 de janeiro de 1920, contém um artigo fantástico. Fica a sua passagem mais relevante:

Turismo
A nova signalisação das estradas em França

Todos os nossos automobilistas sabem, por experiencia propria, como é mais que deficiente a signalisação das estradas em Portugal. Quantos de nós não temos perdido um tempo precioso, no cruzamento de estradas desconhecidas, indecisos no caminho a tomar, e obrigados a perguntas constantes, - quando há a quem se possa faze lo.
Em França, porem, estas cousas são tratadas d’outra maneira. A signalisação das estradas, que era já ali muito completa, vae ser remodelada e profundamente melhorada, pois se prevê que certos itinerários, comportando troços de vias publicas diversos – estradas nacionaes e departamentaes, caminhos vicinaes, etc. – vão ser submetidos a um movimento intenso, de turismo e industrial.

A actualidade, em 1920

''Muito se tem escrito sobre o problema nacional, melhor diria sobre os vasto conjunto de problemas fundamentais da vida portugueza. Grande trabalho será um dia o dos historiadores de recolherem tantos alvitres tantos projectos de soluções, utopias vãs e realidades sensatas perdidas no oceano das palavras e inutilizadas pela crise política.''

As palavras são de um artigo do nº 1, Revista O Automóvel, de 15 de Janeiro de 1920. 88 anos separam o texto da actualidade, mas sem que se perceba qualquer mudança.

Formação perfeita na Arrifana













Não, o tamanho não importa. Esta imagem da Arrifana, encontrada algures na net, é disso prova inequívoca.

terça-feira, 18 de março de 2008

Biblioteca Nacional

As bibliotecas são lugares fantásticos. É espantosa a atmosfera que se vive a partir da sala do catálogo até à sala de leitura. A calma e o silêncio que separam do mundo exterior são o que mais fascinam nestes edifícios. Parece que de facto se estabelece uma suspensão no tempo e um corte com a vida que temos ''lá fora''. O nível sonoro não é um ponto forte na Sala de Leitura da Biblioteca Nacional (fortemente condicionado pela constante passagem de aviões), ainda assim, dá vontade de entrar e permanecer. A luz velada ajuda a superar o que a rota de aproximação ao aeroporto perturba. Podia elogiar a qualidade do desenho do mobiliário, a nobreza da imagem e ambiente dos espaços internos, a perenidade do seu desenho ou a robustez com que tem resistido ao passar dos anos, mas isso são coisas do passado, quando a política de obras publicas não se costumava enganar ou enveredar por vias mais incultas ou pelo facilitismo. Não é novidade. Costumava ser assim. Já se sabe. Surpreendente é a forma como são realizados os pedidos de consulta de leitura a partir da sala do catálogo e dos computadores onde se faz pesquisa da base de dados dos fundos depositados na biblioteca. No novo sistema de pedidos on-line, o primeiro passo consiste na escolha de lugar, com um simples clique de rato, depois de realizado o login. Seguidamente, durante a pesquisa, acto contínuo, é só clicar num campo que está associado à listagem das obras pesquisadas, e aquela(s) que for(em) escolhida(s) passa(m) do ecrã para processamento directo pelos funcionários, nos depósitos. Quando chegamos ao nosso lugar, previamente escolhido, já parte das obras a consultar se encontram sobre a secretária. Até parece de país civilizado. O horário também. Depois de meses metido em sítios com horários estranhos, encontrar uma biblioteca aberta até às 19h30 é o mesmo que a imagem de um oásis num deserto. Que país de contradições, capaz do mais insólito e destes nichos de excelência. Mas desta vez está bem, bastante bem.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Festival de Blues em Coimbra

Para me redimir do mal que digo, um elogio à edição deste ano do festival Coimbra em Blues que se realizou este final de semana. Numa cidade que parece estar um pouco letárgica, iniciativas como esta contribuem decisivamente para a por no mapa. A direcçao musical de Paulo Furtado só pode estar de parabéns.

O último dia contou com a presença de Ruby Ann (como coninbricense só podia mesmo cantar bem!) e, claro, com a do magistral Super Chikan. Grande concerto. O Gil Vicente animado como nunca o tinha visto.
Ambos para descobrir no youtube. Imperdível.

€ 0,30 a fotocópia

De novo na rotina de ''investigador''. Enquanto tento perceber exactamente o que vem a ser esta mais ou menos profissão/ocupação/trabalho, vou tentando deixar, para trás, plantas de localização e a várias cotas, detalhes de fachadas e de vãos a escalas e com definição várias, esquemas de pintura e de localização de pontos de iluminação, pormenores de arranjos exteriores e um sem número de folhas e de impressões em formato XL. Mais uma pausa, um afastamento muito temporário, sem grande quebra, até porque as obras não darão, felizmente, tréguas, requerendo a minha presença na alternância entre alguns problemas para resolver, verdadeiras catástrofes e um normal desnvolvimento. Enquanto tento concentração e penso na estrutura do texto que é suposto escrever ao longo dos próximos anos, vou testanto a minha capacidade para bater as teclas, o que me dará enorme jeito nos próximos tempos e enquanto não conseguir deixar o Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas. Depois das 1600 fotocópias que acumulei graças ao acervo do Direcção-Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento urbano, eis-me a pensar em poupar papel e, consequentemente, a assumir uma veia ecologista e a salvar umas quantas árvores de um abate mais do que certo. É que isto de fazer capitular uns quantos eucaliptos com a cópia a € 0,03 não é tarefa heróica. Ningém deverá ser lembrado por essa coisa de meninos. No MOP, sim! Aí a coisa é a sério. Talvez um pouco surpreendente, ainda assim. Dizem os nossos responsáveis políticos e decisores que a aposta agora é na qualificação e na investigação. Há um ano ou dois, inclusivamente, o Sr. Primeiro Ministro fez atrasar o resultado das candidaturas às bolsas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, depois de ter anunciado, na Assembleia da República, o seu reforço em € 20 000 000,00. A experiência parece querer dizer-me outra coisa. Apesar de ter sido um dos felizes contemplados não encontro um cenário assim tão coerente. Maldade minha, porque na verdade o MOP é coisa séria. De um país que não vê a investigação como coisa de pelintra. Mais nada! A tabela de preços que ali vigora é a do Arquivo Nacional da Torre do Tombo! Nada de brincadeiras!

Mas que se pague € 0,30 por uma fotocópia na na Torre do Tombo, eu percebo, já que desincentiva a reprodução de documentos raros e garante a sua preservação . Mas parece-me um claro excesso ter que me ver confrontado com um custo semelhante para obter a cópia de uma vulgar fotocópia e nem sempre de boa qualidade. Mais uma falácia do nosso Estado. Já não se trata de preservação dos originais, que estão a salvo e bem guardados, mas do financiamento dos serviços públicos, lamentavelmente por vias que entram em clara contradição com as políticas definidas e com a utilidade dos impostos que nós, utilizadores/pagadores/financiadores e contribuintes temos que entregar à fazenda pública.

Só mais um pormenor: a digitalização de documentos tem o preço unitário de € 0,15, no Arquivo Histórico do MOP. Mas infelizmente o digitalizador tem estado persistentemente avariado.

segunda-feira, 10 de março de 2008

sexta-feira, 7 de março de 2008

Estranho critério

A ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, confirmou ontem o empenho deste governo na avaliação por objectivos e mérito, dos professores. Não deixa de ser insólito, tendo em conta que a avaliação dos discentes deixou de ser uma prioridade. A passagem de ano, cada vez mais facilitada (mesmo no caso de um aluno faltoso), e a indisciplina generalizada, facilitada pelo esvaziamento de autoridade da escola e dos professores, não apontam para a definição de objectivos e mérito que os alunos tenham que cumprir e demonstar. É realmente estranha a falta de coerência e, sobretudo, e impossibilidade da medida, tendo em conta o mínimo de rigor e objectividade. Como se pode avaliar os professores, se os alunos não têm o seu desempenho devidamente apreciado? Neste contexto de indisciplina generalizada e em que não se consegue ensinar nada a ninguém, como é que os professores podem ser avaliados? Num quadro em que a escola deixou de ser valorizada pela sociedade, correspondendo muito mais a um depósito onde os paizinhos largam os filhos durante o dia, como é que se pode querer apreciar o desempenho de quem quer que seja, pelo menos numa base séria?
A ideia da avaliação é boa, mas deste modo parece que está tudo a começar pelo fim. Melhor seria começar por devolver o rigor e a dignidade ao sistema de ensino.
Mas claro que a acusação de falta de rigor é injusta. A visita da polícia a escolas, no quadro da manifestação de professores em Lisboa, demonstra um rigor assinalável para a rigorosa regulação do trânsito na capital, onde será rigorosamente acautelada a segurança dos manifestantes. Muito bem!

quinta-feira, 6 de março de 2008

Caro Raúl

Fiquei realmente convencido com a tua argumentação. Temos de sugerir ao presidente da Comissão, já que é nosso patrício, para que, o mais depressa possível, proponha o alargamento da União Europeia. Mas não à Turquia (esses têm indicadores melhores do que Portugal). A misereráveis ainda mais ignorantes e brutos do que nós. Sei que vai ser difícil encontrar; não esqueço isso. Mas o homem é habilidoso. No fim de contas conseguiu os acordos de paz de Bicesse. É certo que foi sol de pouca dura e não muito tempo depois O José (o Eduardo) e o Jonas já andavam ao estalo outra vez. De qualquer forma foi uma boa tentiva e, seguramente, ele conhecia muito pior África do que conhece agora a Europa, lá a partir e Bruxelas.
Aí sim, se ele conseguir, se conseguirmos esse desígnio de um verdadeiro alargamento, vai ser bom. A Europa tem de deixar de ser elitista. Temos que dizer não a esta união de estados, ou ricos, ou instruídos, quando não acumulam as duas condições. Temos, além de mais, como dizes, de ter pensamento positivo. E na verdade, tudo é muito relativo. Se conseguirmos passar da 19ª posição numa Europa a 27, para o lugar 19º numa Europa a 49... toda a Europa! ...estaremos perfeitos. O problema, ver-se-á, é que nesses 49 estão países como a Suiça, o Liechtenstein, a Noruega e a Rússia. Se não os conseguirmos deixar de fora, passamos para o 23º posto. Paciência. Mas se os senhores do Vaticano quiserem, também... mau! Ou nem tanto, mais vale tê-los do nosso lado que isto sem milagres não vai lá! Mas os do Mónaco e de San Marino que nem pensem. Não queremos princípes, nem capitalistas, nem princípes capitalistas! Além de que como dizem (e não queremos aborrecer os senhores do Vaticano) é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos Céus. De qualquer forma, podemos ainda contar com a Arménia, o Azerbaijão, a Ucrânia, a República Moldava, a Bielorrússia e a Albânia. Nada Mau.

Ainda a propósito...

Sempre me fascinaram as pessoas que pronunciam, de forma quase mágica, há-des e há-dem (que criatividade, que liberdade no uso da língua); é que dá muito mais trabalho! Não sei como conseguem. É quase o mesmo fascíno que sinto quando ouço trocar e baralhar biografia com bibliografia; quase a mesma coisa!
Ainda assim, não há quem chegue à malta das obras. É que trocar viga de travamento por viga de travação... Travação é daquelas invenções linguísticas de se lhe tirar o chapéu... de sol, de preferência, pois só essa dimensão presta a devida homenagem.

Poesia popular

Esta coisa da língua Portuguesa e do acordo ortográfico tem motivado os mais diversos posts artigos de opinião e intervemções públicas. Como não quero ficar arredado do debate (desejo estar na moda e actual), fica o meu contributo, deixando um testemunho de como o nosso idioma pode ser objecto de grande expressividade e de como se presta a grande criatividade, como língua viva que sempre tem sido.
Há anos atrás, numa das habituais incursões de elementos das forças de segurança nos cafés abertos a hora tardia na cidade de Coimbra (nem sempre para impor ordem e o fecho, mas algumas vezes para matar a sede...), foi registada esta brilhante frase, no Avenida, por um polícia, quase um poeta: ...ou a gente vai todos ou não vamos ninguém!

O habitual estigma da beleza

Joana Amaral Dias na televisão com Guilherme Silva no frente-a-frente da SIC Notícias. Mário Crespo com a sua evidente e habitual verve e delicadeza podia ter explicado a esta bonita e inteligente mulher que não precisa ser arrogante, quase desagradável, para que seja levada a sério.

Um grande favor ao país

Algum dos senhores deputados pode explicar ao seu colega da bancada comunista, Bernardino Soares, que é o personagem mais irritante e incomodativo da vida política nacional, e que prestaria um grande serviço à nação e à imagem dos políticos se se eclipssasse?

Resposta óbvia

Um grande amigo meu, o Raúl, coloca-se perante uma dúvida com toda a pertinência: porque é que os homens têm mamilos? Com tanto vigor a questão toma conta do seu pensamento que seria aquela que, se pudesse, Lhe apresentaria. Esquece um dado essencial. De nada valeria. O Raúl acabou de mandar para o sotão, para a cave, para a estratosfera, a teoria criacionista e todos os seus defensores. O Raúl, tal como eu, e todos os do nosso género, é um derivado de gaja. Qual costela...

Ai Portugal, Portugal...





Portugal é um erro histórico.

A frase é de Vasco Pulido Valente. Durante muitos anos quis recusar-me a aceitar que encerrasse alguma verdade. Mas a sucessão de factos e a ''evolução'' do país, cada vez me tornam mais céptico. Medina Carreira terá a sua responsabilidade. E nem Ricardo Costa tem conseguido desfazer o que o primeiro agrava. O seu optimismo não é suficiente forte perante a crueza e evidência dos factos, dos números, das estatísticas. Mas a verdade é que nem ele consegue explicar o seu modo de encarar a realidade portuguesa (E eu até sou bastante optimista. Não me pergunte é porquê).
Estou contagiado. A leitura do Dever da Verdade, daquele advogado de profissão e do jornalista da SIC, tem-me mostrado um futuro, tudo menos risonho e promissor:
''As estatísticas da OCDE mostram que, na pupulação dos 25 aos 64 e sem mais que o primeiro ciclo da do secundário, a Finlândia [o nosso modelo, se bem me lembro] registava em 2002 25%, a Irlanda 39% e Portugal 80%. Estamos pior que a Turquia e só melhor do que o México. Portugal é um dos três países com mais baixos níveis de instrução entre todos os trinta da OCDE''.
Será da falta de investimento?
A resposta é clara: ''(...) o esforo financeiro de Portugal é, em termos relativos, dos mais elevados da UE/15.
Em 2001 registávamos 5,9% do PIB, ficando acima de nós apenas a Dinamarca [da Flexisegurança!] (8,5%), a Suécia (7,3%), a Finlândia (6,2%) e a Bélgica (6,1%)''.
No lote dos que dispensam à educação uma percentagem do PIB inferior à nossa contam-se a Áustriam a Alemanha, a França, a Grécia, a Holanda, a Itália, o Luxemburgo e o Reino Unido. Claro que com melhores resultados.

Noutros indicadores não estamos melhor: ''(...) a economia mundial crece a 4%. Para 2007 prevê-se que a China evolua à taxa de 10%, os EUA a 2,9%, a Rússia 6,5%, a Espanha 3%, a zona Euro a 1,9% e a OCDE 2,5%.
Para Portugal admite-se apenas 1,3%, depois de, entre 2000 e 2005, termos registado uma média anual de de 0,5%''.

Fantástico. Que fazer com este pedaço de terra e com esta gente? Cada vez estamos mais brutos, laxistas, irresponsáveis, menos exigentes e, sobretudo, muito mais burocratas. Desde que me conheço, já houve 350 ministros da Educação e 2500 formas distintas de aceder ao ensino superior e 9800 modos distintos de organização do secundário. Claro que os decretos e as estatísticas não têm conseguido mudar a realidade. Essa parece não querer atender à vontade indómita das secretarias dos ministérios e das Direcções-Gerais (não se percebe porquê, confesso). Agora ambicionamos copiar outros países da Dinamarca à Finlândia, passando pela Irlanda. Acontece, porém, que nenhum fez e fará o favor de esperar por nós. Entre 45 e 75, durante 30 anos a seguir à guerra, período de crescimento ímpar, estiveram a tratar da vidinha. Agora, parece que para nosso mal, continuam a insistir no terrível hábito de crescer a um ritmo superior ao nosso. Acordámos, se é que acordámos, tarde e mal. É oportuno terminar como comecei, com Jorge Palma, perguntando a este país ...de que é que estás à espera?

Claro que estou a ser injusto porque José Sócrates tem a solução. Através do Programa Novas Oportunidades propõe-se formar 1 000 000 de activos até 2010. 10% da pupulação! Não se pode acusá-lo de falta de ambição. É de facto muita gente e muito pouco tempo. Mas há uma dúvida que me assola. Será que os restantes portugueses se vão transformar em formadores, para poder cuidar de todos esses formandos? Não, não vou ter a tentação de afirmar que será como a história dos 150 000 postos de trabalho até ao final da legislatura. Afinal ainda falta muito tempo! E se o primeito ministro der seguimento à sua carreira de projectista, com o fulgor que se lhe conhecia, decerto vai registar-se um forte incremento no sector da construção e um disparar da economia.

P.S.- Felizmente a arquitectura tornou-se um símbolo de status e vigor económico o que, com o cada vez mais profundo fosso entre ricos e pobres, o mais acentuado em toda a Europa, me deixa espaço para ter esperança num futuro mais risonho. Será essa a saída; como não pudemos aperceber-nos antes: vamos tornar Portugal numa imensa classe de arquitectos. ...isto, claro, se pudermos deixar de contar com a concorrência de todos esses ''pequenos projectistas da Covilhã'', espalhados por toda a parte, em todo o país.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Entre os teus lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


Retrato Ardente
, Eugénio de Andrade
in Obscuro Domínio

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Continua tudo no melhor dos mundos



Segundo dados apresentados por Medina Carreira, na Sic Notícias, Portugal será, em 2015, note-se bem, o país mais pobre da União Europeia.
Haja quem seja capaz de entender a nossa incompetência e impreparação ao fim de 21 anos, até ao presente, de fundos estruturais.
Realmente, nada como a história para compreender a evolução de um povo e de um país. É triste, muito triste, mas suspeito, com grande pesar, que nada mudará, nunca, no país da mão de obra barata do ministro Pinho, na WestCoast do ICEP... já agora, a propósito dessa campanha, já houve alguém que questionou a razão de quase todas as fotografias serem de desportistas, de não haver ninguém da literatura, da ciência, de outras áreas do saber... Que pergunta!! Não estará essa estratégia de acordo com tudo que disse acima?! Além do mais, não é inteiramente verdade que não haja outros representantes. Lembro aqui o Sr. arqto Câncio Martins, que ninguém faz a mínima ideia de quem seja. Em Portugal, em Lisboa, conhecem-lhe a obra mais recente (o Hotel Heritage, na Avenida da Liberdade) e por esse mundo fora os clientes e habituais conhecerão alguns dos mais badalados sítios de diversão, como restaurantes e bares, mas duvido que saibam quem venha a ser o autor. Seja como for, será sempre uma franja muito diminuta do potencial público alvo da campanha. Tudo sempre bem feito, à portuguesa, e de modo a que em 2015 não se confirme o presságio, ou previsão - mesmo - de que Medina Carreira nos lembrou.

por favor...




Estou farto da supremacia da imagem em tudo o que nos rodeia.
O design tornou-se, muitas das vezes, a par com a arquitectura, verdadeiramente idiota. E a ideia de sustentabilidade e eco-qualquer-coisa está a tornar-se a passos largos uma manifestação de estupidez e mau gosto permanentes. Isto de ser engraçado ou pretender sê-lo tem que se lhe diga.
E os ''cubos e cilindros amontoados'' são o quê? sustentabilidade japonesa? preservação do espaço, para aprisionar o ser humano em pequenas células de sobrevivência mínima? Há-de valer de muito! Depois de loucos, o espaço envolvente será certamente muito apreciado. Assim se vai pensando e representando o mundo.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Vida charmosa e, porque não, ocupada



Estas coisas da vida charmosa não vão lá sem mais, por acaso. É por isso mesmo que num aturado e empenhado treino estamos no escritório, desde sexta, dia 26, a efectuar impressões de teste e a corrigir 60 ''lençóis'' que, se espera, alguém saiba interpretar totalmente.
De manhã à noite, sem parar.
A isto sim, se chama Glamour!

Para subverter tudo isto, e dar mesmo ideia de que tudo resulta de exercícios de total desprendimento e absoluta e única inspiração, nada como, para a confusão, deixar as imagens que a Ana competentemente realizou.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Davos de novo


Digam aos senhores que todos os anos se juntam para decidir sobre os males do mundo - sim, sobre os males do mundo - que insistem em querer piorar, em nome das regras do comércio mundial e de mais uns quantos assomos de vaidade, ganância, cinismo, maldade e, não raras vezes, incopetência, que nos deixem em paz e aproveitem a estância de ski, a neve, que se divirtam, que gozem a vida, que desçam muitas pistas pretas e de bossas, para que se estraguem de vez... ah, mas primeiro visitem bem a estância, da autoria de Gigon/Guyer architekten. Pelo menos aproveitavam a viagem.

Um pouco de optimismo



Nem tudo é enfado e os resultados compensam muito, O acto criativo, o seu processo, nem sempre deixa de ser doloroso, mas é uma sensação inexplicável conseguir materializar qualquer coisa a partir no nada. Qualquer coisa que na origem só se encontra no interior das células cerebrais, e vai ganhando definição, complexidade, espessura e visibilidade em plantas, cortes, alçados, detalhes a escalas variadas, modelos, e finalmente na obra.
O projecto da última imagem de baixo não foi pago, trabalhei para aquecer, fiquei a arder, fui enganado, verdadeiramente ludibriado, a minha confiança foi traída, vilipendiada, desprezada e espezinhada, mas é sempre um prazer imenso olhar para estas imagens, fazendo-me esquecer o desprezível dinheiro. Talvez esta seja uma das essências do acto criativo. Apesar das contrariedades, apesar de todos os encargos, no final nada mais interessa. Fomos nós. É um trabalho nosso, que nos pertence. Espero que nada tenha de vaidade, mas é realmente boa, a sensação.




Glamour mal medido

Para quem acha que a vida de arquitecto é glamourosa, umas quantas recomendações:
1. pode começar pela revisão de um projecto, que por acaso, leve acaso, até já se encontra em obra, alterando dezenas de peças desenhadas que se davam por terminadas, a que se adiciona a solução de projecto que se pensava terminada e estabilizada;
2. mas o top dos tops, o highlight mesmo, é a finalização de um projecto de execução. Vale a pena passar pela experiência da correcção indindável das gralhas e incoerências que existem nos desenhos e entre folhas; já para não falar da definição, até à exaustão, em todas as escalas e adornados com as mais imaginativos tipos de tramas e legendas, dos múltiplos aspectos da obra que alguém usará, espera-se que bem, mas que nós, nós mesmos, raramente visitaremos de novo, desde logo para resistir ao desconforto de a ver ir-se tornando pior, dia a dia, com a legítima, ou nem tanto, apropriação por parte do dono ou ocupante; isto para já não falar do sem fim de mapas, com informação até ao infinito, como o de vãos, de acabamentos e de outras coisas mais, para terminar com as peças mais maravilhosas de todas: os mapas de medições (quantos m2 de tela de impermebilização ou de placas de isolamento térmico tem um edifício é seguramente um dado que interessa à UNICF, ao G8, à Organização Mundial de Saúde, a todos os países da EFTA, à Presidência do Concelho de Ministros e, porque não dizê-lo, à CENTRAL MODELS e, muito mais, a Karl Lagerfeld e, por maioria de razão, à felicidade de Sarkozy e Carla Bruni... quelqu'un m'a dit...), isto sem me esquecer, seria imperdoável, do glorioso Caderno de Encargos, este sim: ó chefe, aplique lá o geotêxtil, como deve ser, sobre a camada de forma e não deixe de afagar bem esse argamassa sobre o massame armado.

Maravilhoso?
É que é possível repetir a operação vezes sem conta, até à senilidade. Isto é, até ao dia em que deixarmos de trabalhar por manifesta incapacidade, ou, com juízo e fortuna, até ao dia em que a acumularmos precocemente, por herança ou golpe de sorte, que isto, como já se viu, com trabalho não vai lá, está toda a humanidade cansada de saber; esta ausência de pólvora está mais do que descoberta; não há roda, nem fogo nessas paragens.

No hay camino

O melhor das mulheres é descobri-las. Não há nada que chegue à primeira vez. Uma pessoa não sabe o que é a vida enquanto não despe pela primeira vez uma mulher.”

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento


Encontrei este post no blog do meu grande amigo Raúl. Não querendo tirar-lhe a originalidade, não resisti a postá-lo aqui, para que conste! Sobretudo, o melhor deste Ruiz Záfon é que cada descoberta é uma decoberta única, irrepetível, sem receitas, nem passos previamente estudados ou aprendidos. Como bem sabe António Machado:

caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
*

"Cantares" de (1875-1939)