domingo, 12 de abril de 2009

Imagens soltas de um mundo em movimento

Museu Nacional de Machado de Castro; Gonçalo Byrne (remodelação), Coimbra.
































Gonçalo Byrne é um dos arquitectos portugueses mais significativos. É certamente um dos autores que mais tem contribuído para a boa fase que esta disciplina atravessa entre nós e a ele se deve, também, o amplo reconhecimento que a mesma tem alcançado para lá das fronteiras.
Reconhece-se-lhe cuidado e rigor dsciplinares, bem como um profundo sentido ético, em obra nova, em trabalhos à escala da cidade e do território, bem como em intervenções sobre o património.
A modéstia e simplicidade são marcas fortes da sua personalidade e um modelo que sempre me impressionou. Fui aluno de Gonçalo Byrne no início dos anos 90, em Projecto do 5º ano, e desde essa altura que passei a admirá-lo, também pessoalmente. Passei, pois, a seguir a sua obra de modo particular, sobretudo, a que vem realizando em Coimbra.
Foi com este espírito que aguardei, com curiosidade e interersse, a abertura do recentemente, embora não de todo concluído, remodelado Museu Nacional de Machado de Castro.
Esta intervenção tem sido encarada como uma lufada de ar fresco no centro histórico (marcado por um abandono de anos ou por – pior - intervenções ao arrepio do que deveriam ser as preocupações de regeneração, tanto no edificado, como no espaço público) e vista como um forte impulso no património museológico da cidade.
Não duvido de que o conseguirá - felizmente para a cidade - e, espera-se, com efeitos multiplicadores.

A intervenção pode ser encarada em vários planos: os que dizem respeito a uma abordagem eminentemente disciplinar - morfo-tipológica, espacial e de linguagem; urbana - de inserção no sítio e dos impactos no local (das rupturas e/ou continuidades) e quanto ao contributo para acentuar a vida, convocando novas dinâmicas; patrimonial - de valorização e promoção dos valores pré-existentes.

A minha visita, incompleta, não me permitirá juízos completos sobre o primeiro tema. No entanto, as primeiras impressões transmitem a ideia de um objecto belo, equilibrado pelo domínio das proporções, com um cuidado geral na escolha e combinação dos materiais e das soluções que lhes dão suporte físico.

A Alta só pode ter ganho com o novo Machado de Castro. É esta a primeira apreciação, parcelar, de uma abordagem de cariz urbano. A Rua Borges Carneiro é hoje seguramente melhor; o largo de entrada, abaixo da Sé Nova, está visivelmente mais qualificado; a paisagem urbana, numa visão distante sobre o tecido urbano, foi fortemente melhorada: desapareceram as feridas com que a demolição e a ruína marcavam há muitos anos as diversas vistas que se ofereciam a partir de vários importantes pontos de observação.
O partido proposto para a intervenção, assente na desmaterialização através de vários volumes dialogantes, mas fisicamente autónomos, revela-se uma estratégia acertada de inserção local e numa abordagem à escala urbana e de diálogo com todo o morro da Alta. As fendas que se abrem - nas novas superfícies, rompendo os volumes propostos, e entre estes e as pré-existências – mostram-se, adicionalmente, como mais um procedimento para a procura da escala justa, bem como para a construção das aberturas de luz, de entradas e percursos com distância física e formal relativamente às janelas e portas do edificado existente: às pré-existências oferece-se a serenidade, silêncio e enquadramento de planos lisos de pedra, desenhados como instrumento de fuga a rupturas e contrastes, no que refere à expressão e dimensão das fenestrações.
Adicionalmente, assistir-se-á, certamente, a uma nova dinâmica local, fruto da maior qualificação urbana, de um interesse renovado pelo museu (com capacidade de atrair um novo público, espera-se) e, como normalmente acontece, motivada pelo efeito de novidade que se espera que solidifique e evolua para qualquer coisa de mais perene e estruturado.

As questões patrimoniais colocam-se para além das condições de preservação e exposição, certamente irrepreensíveis.
O museu era marcante por três elementos, chave da sua caracterização do ponto de vista do edificado, do significado urbano e da riqueza patrimonial. A par com o acervo, partes fundamentais, adivinhavam-se três elementos fundadores do projecto: o pátio que se abre por detrás do portão de ferro, centro aglutinador do volume em U e primeiro momento de uma vista que se projectava sobre a cidade; a Loggia que o fecha sempre foi um ponto fundamental de observação da paisagem urbana, um local único da Alta aberta à contemplação, sendo, adicionalmente, uma peça de um refinamento excepcional, de uma beleza pura, de umas proporções exactas, com uma forte presença a partir, quer da Rua Borges Carneiro, quer de outros pontos de observação mais distantes; sob o pátio, o criptopórtico constitui a mais significativa presença da cidade romana de Aeminium.
O pátio, encontra-se mais clarificado, mais limpo, sem perturbações na apreensão da sua espacialidade e dos elementos que o pontuam: a fonte e a Loggia. Esta última, porém, não conservou o protagonismo que se desejava. Antes da intervenção, era um limite, uma fronteira entre o chão e a encosta. Era o último elemento entre o espaço apropriável e a cidade aberta à contemplação. Era um elemento de forte caracterização local, como mediador entre o olhar e a cidade, e como remate na subida a partir da Sé Velha.
Essas relações perderam a força e expressão que detinham: uma nova cafetaria com esplanada bloqueia um horizonte que se impunha como o de maior protagonismo local - a nova construção reclama essa importância, substituindo-se à pré-existência; na Rua Borges Carneiro o pano de fundo é, agora, desempenhado pela malha metálica da fachada de gradil, cuja dobtragem para o plano horizontal se constitui, na cota mais elevada, como prolongamento visual do pavimento do pátio - a Loggia deixa de se expor sem reservas como limite e elemento último no forte desnível e, onde antes se afirmava, esconde-se com timidez, por detrás dos novos elementos adicionados.
Provavelmente, a dimensão do programa não tornava fácil uma outra solução. Mas pela sua importância e qualidade arquitectónica, a loggia deveria ter-se assumido no projecto como um elemento-base, a que se deveria ter submetido toda a articulação volumétrica. Pelo valor intrínseco e significado urbano da mesma e devido admiração que manifesto pelo autor, lamento que a intervenção não tenha ido mais longe neste aspecto particular, mas de capital importância.

Imagens soltas de um mundo em movimento

Sé Nova, segundo Il Gesú de Roma; Coimbra.



























Il Gesú; Roma.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Publicidade e (também) a vida



Declaro: sou um admirador de publicidade. Nunca me deu para ir uma das edições do Festival de Devoradores de Publicidade. Mas por puro acaso. Confesso que seria fantástico.
No cinema, por outro lado, os spots antes da sessão prendem-me completamente a atenção. Em tempos mais recentes, o filme Super Bock é dos meus preferidos. Não me canso de o ver. Considero-o uma homenagem ao Amor, à relação entre as pessoas, ao convívio são, à alegria, à boa disposição, à vida, à suprema beleza de um sorriso feminimo, à mulher, por que não dizê-lo. Só este último motivo seria razão suficiente para incorporar esse filme neste espaço. Mas, adicionalmente, trata-se de um belo filme, com uma articulação perfeita entre som e imagem e o Porto como pano de fundo. Aqui fica, portanto, a versão sem cortes.

Por estes dias... a janela que liga ao mundo

















No meio das palavras, evado-me.
O sol invade com sombra os espaços que percorre. A vontade de o tocar causa-me abandono e entrega. Move-me para outras paragens.
O tempo, imóvel, permanece suspenso. Faz morrer brevemente na agitação imaginada. Desejada.
Onde a luz se esgota, um sorriso recebe. A vida renasce no conforto desejado, entre dedos, na pele macia.
Lá fora, cá dentro, os opostos. E as palavras de novo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Aforismos roubados

Deixa o mundo mudar-te e poderás mudar o mundo.

Ernesto Guevara de la Serna, El Che.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Imagens soltas de um mundo em movimento

Uma peça de arquitectura maravilhosa com um espaço excepcional; Emocionante.
Cemitério medieval, Pisa.





Imagens soltas de um mundo em movimento

A cidade com as suas acumulações inesperadas: a beleza fascinante de uma montra alimentar; Florença, entre o Palazzo Rucellai e a Piazza Antinori.

Imagens soltas de um mundo em movimento

Quinta da Conceição; um outro regresso

Imagens soltas de um mundo em movimento

Boa Nova revisitada.

Imagens soltas de um mundo em movimento

Boa Nova revisitada.

Prémio ''Não há por aí um Lápis Azul?!''
















Não será tempo de a opinião pública começar a exigir a revisão prévia do discurso político, com vista a censurar a falta de sentido das, infelizmnente, já frequentes declarações públicas dos suspeitos do costume?

“Não lhes falta nada. Têm cuidados médicos, comida quente... Claro que o actual lugar de abrigo é provisório, mas há que encarar a situação como um fim-de-semana no parque de campismo”

Berlusconi à cadeia de Televisão alemã N-Tv, a propósito das vítimas do sismo em L'Aquila. in Público online.

Por estes dias...

Sem aulas, o edifício vazio e o tempo que teima em não sorrir abertamente.

Testemunhos do tempo em movimento

Por estes dias...

Poucos passos, entre torres, em mais um começo de dia.

Testemunhos do tempo em movimento

Parabéns Saca

Tiago Pires, qualificado para a segunda ronda do Rip Curl Pro, em realização na Austrália. Irá ter pela frente Mick Fanning. Força Saca!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Por estes dias...

Breves olhares sobre o exterior, entre papéis e palavras.

Testemunhos do tempo em movimento

Outros sentidos poéticos

José Duarte, reconhecido amante e divulgador do jazz e, segundo o visado neste post, um exímio manipulador de palavras, referindo-se a um amigo: O Arquiportas Nuno Tecto . Maravilhoso!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Poesia de Ambulatório

A habitual arrogância bem-pensante tem o hábito de olhar de soslaio para a criatividade com que alguns de nós usam a língua portuguesa. Eu, pelo contrário, prefiro enaltecer-lhes a capacidade poética e o sentido encantatório e enfático com que manipulam palavras e frases. Novos significados e realidades semânticas são desenvolvidos todos os dias. A língua é isso: um organismo vivo.
E a realidade é simplesmente maravilhosa!

Um senhor com dores no braço na urgência:
o médico - doi-lhe o braço?;
o doente - dói, dói, sr. dr... e pior do que isso... é que aleija!

domingo, 5 de abril de 2009

Imagens soltas de um mundo em movimento

A cidade acontece onde se manifesta o encantamento com o inesperado, revelado em cada esquina dobrada, em cada recanto percorrido, em permanente renovação e mutação.


Florença, junto ao Palazzo Vecchio.

Imagens soltas de um mundo em movimento

Boa Nova revisitada.

Poesia de Ambulatório

Como a realidade pode ser surpreendente.
Uma senhora, idosa, de lenço na cabeça, num hospital do interior, a propósito do seu mal estar:
-tenho a cabeça subjugada!

imagns soltas de um mundo em movimento

Serralves a fechar

Imagens soltas de um mundo em movimento

Sala do 5º ano. Vazia, fica apenas a beleza do gesto.

sábado, 4 de abril de 2009

Obrigado, Eugene, por nunca teres ligado!



Perdeu-se em romance, ganhámos em música!
Graças a um ingrato - e palhaço, porque não dizer - que obteve o número de uma mulher, após pedir-lho, e a quem nunca ligou, temos esta música fenomenal.

Não, não é Pink Martini. Mas podia...

Hoje, no Quebra Costas

Portugal bom e que vale a pena, porque sim
























O Zé está cansado.
Na verdade, estamos todos: um Pouco!
Seria bom que, como que por milagre, para o futuro não se ouvisse falar mais do caso Freeport ou ''fripor''.
Antes de prosseguir, devo fazer um manifestação de ''desinteresse'': não tenho particular simpatia pelo Primeiro-Ministro, José Sócrates. Na verdade, tão-pouco me lhe oponho violentamente. Entrei neste porto de águas calmas em que nada se agita, como, desconfio, a esmagadora maioria dos portugueses.
Retomando, dizia eu que ambiciono uma manhã em que os jornais não noticiem o que se passa ou passou em Alcochete. Já sabemos: nada! Não passou nada. Eu explico: nunca mais se ouviu falar da Quinta da falagueira; nunca mais se soube nada do abate de uns milhares de sobreiros para um projecto imobiliário de alto interesse nacional; nem de uma casa construída com legalidade anunciada como duvidosa na Arrábida. Com este alegado caso não vai certamente acontecer nada de diferente, tal como não sucedeu com o Eurostadium, em Coimbra, ou com o Cidade do Porto, nesta mesma cidade do Norte.
Todos sabemos as regras do jogo. Há sempre uns favores de final da mandato - ou de início, é indiferente -, não interessa a quem, nem em que contexto. Se esperarmos sentados, chegará a nossa vez. É só uma questão de tempo. Tem tocado a todos. Nós temos a manobra de circunstância no sangue. Não vamos mudar. É mais provável eu ganhar o Euromilhões - mesmo sem jogar - do que haver transformações muito grandes na política à portuguesa ou do que haver algum apuramento da verdade por parte da justiça. Adivinham-se mais trapalhadas processuais pelo caminho e meios de prova ineficazes. No final haverá muitas páginas de jornal escritas, muitos milhões de euros gastos em investigações, dossiês, apensos e processos e, pura e simplesmente, NADA!

É preferível, portanto, falar de coisas mais animadas e consequentes: a Escola da Segunda Oportunidade, em Matosinhos, é uma experiência fantástica; o Mercado do Quebra Costas, em Coimbra, é uma acção fundamental para a animação urbana e para devolver vida a essa zona da cidade - esperemos o seu efeito multiplicador e mais gente na rua; a Escola da Noite estreou uma nova peça, a partir da palavra de Kafka - “atravessando as palavras há restos de luz”, no Teatro da Cerca de São Bernardo. Hoje estará esgotada.

Isto sim, são coisas boas a acontecer em Portugal.

O passado aqui tão perto.



Descobri este vídeo através das Twittadas do Ricardo Castanheira e não resisti.
O Teledisco é fantástico e a versão maravilhosa.

Qualquer coisa mesmo diferente



E porque estamos na onda, uma homenagem à língua francesa.
Não há provavelmente nenhuma outra que atinja a mesma beleza, quando cantada.
Jane Birkin, de quem gosto bastante!

Les Deux Magots



Picasso conheceu aqui a sua musa Dora Maar em 1937. Oscar Wilde, Hemingway sentavam-se por lá. Por uns ridículos € 4,00 por um café, conquistamos acesso a um prazer semelhante ao que experimentavam. E o Café de Flore mesmo ali ao lado. E as esplandas completamente cheias. E a beleza que constrói e povoa as ruas. E as boa disposição e alegria que invade o ar. E nós, que nos deixamos contaminar e nos apetece parafrasear John Kennedy, tomando Paris por Berlim.
É um privilégio raro. Viver só pode passar por isto.

A loja mais Pequena do Mundo

Sacha Finkelsztajn
























Um Cheesecake verdadeiramente épico. Doce q.b.

Café de Flore








~















Nsceu em 1887. Em 1913, o poeta Guillaume Appolinaire fez ali o seu escritório. André Breton, Philipe Soupault e Louis Aragon conheceram-se no local e nele deram origem ao núcleo francês do Dadaismo. Na década de 30, torna-se um local de encontro de artistas e intelectuais. Camus, Dali, Alberto Giacometti frequentaram-no. Sartre e Beauvoir fizeram dele praticamente uma casa durante a II Guerra. nesses anos, o café converteu-se num importante foco da Resistência. Era ponto de reunião dos grupos de Jacques Prévert, do de Marguerite Duras e do de Sartre.
O local pode já não manter o mesmo perfil de frequentador, mas a atmosfera mantém-se mítica. E nada iguala o inultrapassável prazer de uma maravilhosa fatia de tarte de chocolate em Saint-Germain-des-Prés. Viver será seguramente isto.

Paris, as suas contradições e a vontade de voltar

















Paris cidade Luz. Cidade do Amor, do romantismo e de cultura. Da música que nos fala ao coração. Da eterna, terna, sonoridade da língua francesa.
Mas, surpresa, a cidade que nos apaixona não resulta de nenhum desejo de elevação cultural. Não é a normal sequência da Revolução de 1789, de um desejo de liberdade. Não resulta de qualquer consequência do Iluminismo. Não há nela um traço, sequer, que derive do positivismo. De positivo, os seus criadores, perseguiram, tão só, uma maior facilidade na movimentação e fogo da artilharia.
Não há, provavelmente, maior contradição entre a beleza de uma realidade e a ideia que lhe deu origem. Paris, cidade única, imensa, fantástica, nasceu de um desejo de repressão. Após a revolução de 48, Napoleão III tem todo o interesse na realização de grandes obras, na destruição do tecido compacto e estreito de origem medieval e na eficácia do movimento das tropas, que pôde comprovar logo em 1851, reprimindo a tiro, através dos longos bouevards, o então Golpe de Estado.
Haussmann, o ideólogo da renovação urbana, prefeito de Paris, abre 95 km de novas ruas no centro da cidade, por sobre a malha urbana existente, e outros 70 na periferia. Uma cidade que possuía já 384 km na zona central e 355 nos subúrbios, permite perceber a violência da operação. E os prazos são em si mesmos reveladores. Em dezassete anos, a duração do mandato do Barão Georges- Eugéne Haussmann, surgem os princípios orientadores e grande parte da cidade que hoje causa um fascínio universal com a sua atmosfera verdadeiramente mágica. Paris de mil encantos, dos cafés e das livrarias. Dos museus e parques. Das praças e das ruas. Das coberturas e das mansardas. Das chaminés e das paredes corta-fogo. Das esplanadas e da vida urbana. De um magnífico tecido urbano, desenhado com mestria. Vivido com paixão.
Parte-se com o desejo de regresso. Em breve!

Assente a Poeira.

Assente a poeira, faço um regresso aos locais do crime. Não sei se são highlights, mas são seguramente locais onde me quero voltar a ver. Tenho tema para uns quantos posts.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Por estes dias...

Mudei-me. Mudei de sítio e de piso.
O candeeiro talvez tenha de estar aceso. Mas que importa, quando lá fora o sol lava os planos em que se espalha sem tréguas?
...e o mundo a abandonar-se com um outro sol: divide-se em duas, para cada lado de si, permanecendo inteira, intacta, pontual e localizada, concentrada num só lugar, único. Alheio a tudo.
Na verdade, tudo que verdadeiramente interessa, não se encontra nos algoritmos por trás deste ecrã.


sexta-feira, 27 de março de 2009

Nneka no Gil Vicente

Extraordinário concerto.
Nneka trouxe até Coimbra o calor da sua voz e dos sons de África, que, com a ajuda de excelentes músicos, mistura com outras sonoridades. Soul, Funk, Blues, Hip Hop e Reggae deslizaram pelo palco numa síntese maravilhosa e ao ritmo do alinhamento que esta nigeriana de figura delicada, mas voz poderosa, cheia de cambiantes, fez ouvir com elevado entusiasmo.

É de lhe admirar, ainda, as causas que com sentido de oportunidade embora num registo nem sempre consensual, mas certamente com determinação e coragem, transporta pelos palcos a que vai subindo. É, certamente, um exemplo.

Surpreendente. Absolutamente rendido.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Chico Espertismo

Depois de ter comprado um passagem aérea, através da internet - à distância, portanto, à companhia Air France e de ter solicitado o envio de uma factura via correio, recebi a seguinte resposta:


Exmo Senhor,

Acusamos a recepção da sua mensagem com data de 18 de Março de 2009, pedindo que lhe enviemos uma factura relativa à reserva 3IKTZX, feita ao seu nome.

Permitimo-nos informá-lo que para obter uma factura, deverá comparecer ao balcão Air France no aeroporto da Portela, onde poderá solicitar a emissão da factura correspondente.



A sanidade mental da empresa está fortemente afectada. Propõe-se vender serviços à distância, mas tratando-se da entrega de um documenmto de disponibilização obrigatória com qualquer venda, sugerem-me que me desloque 300 km, durante 3 horas.

Recomendo vôos na TAP.
Em Memória de Elefante (1979), António Lobo Antunes, coloca o personagem principal em confronto com o fracasso da vida pessoal, que se pergunta, atormentado: ..''onde é que eu me fodi?''

Ponho-me a mesma pergunta: onde é que nós, enquanto povo, nos fodemos?
Em que curva de percurso ou dobra do tempo entrámos em desnorte?

Os regressos são sempre complicados. A volta à rotina tem os seus impactos. Mas é muito mais do que isso. Não espero que me digam num café, à saída, ''até à vista'' ou ''até sempre'' e com um sorriso franco. Não damos essa confiança a um desconhecido. É mesmo de desconfiança que se trata. Não abrimos assim a porta da nossa vida e intimidade a um total desconhecido. Queremos lá vê-lo outra vez!?
Não deixo de me intrigar, apesar das fracas expectativas. O que leva esta gente a logo de manhã me atender com cara fechada, com quase indiferença, a reagir mal quando faço notar (delicadamente) que o que me é entregue não está de acordo com o meu pedido e que a demora é injustificada, a arrancar-me a nota com quase violência quando pago e a quase não olhar para mim no final?

O que nos terá acontecido? O que é que se passa aqui?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Quatro dias de Vélib



















Sempre me interessei e deixei seduzir pelo uso que certos povos conseguem dar às cidades, tornando-as, de facto, espaços de cidadania, de encontro: de alegria, no limite. São múltiplos os factores: seguramentre culturais, económicos, de organização do tempo e da sociedade, uns; urbanos, arquitectónicos, de qualificação da paisagem urbana, outros.
Sem complexos e com simplicidade, Paris está nesse universo. É belíssimo o contributo que a circulação em bicicletas oferece à cidade; e é magnífico que quem a visita possa participar na rotina diária, na vida da cidade, sentir-se incluído. O sistema de bicicletas de uso livre e partilhado Vélib contribui um pouco para isso. Parisienses e turistas usam os mesmos meios para circular pela cidade, isto de uma forma que introduz uma outra riqueza na vivência do espaço urbano. Percorrê-lo, necessita de velocidade, de movimento rápido ao longo das fachadas e das ruas, necessitando, também, de tempo para a observação. As bicicletas oferecem essa dupla possibilidade e, por outro lado, aproximam o movimento daqueles que se movem a pé ou estão parados nas esplandas, nas praças e jardins. Ambos se escutam - peões e ciclistas; ambos se misturam - parisienses e turistas.

Espero que Lisboa possa experimentar o mesmo tipo de realidade com a chegada da Vélib.

Hemingway, Shakespeare & Company e Les Deux Magots

There is never any ending to Paris and the memory of each person who has lived in it differs from that of any other. We always returned to it no matter who we were or how it was changed or with what difficulties, or ease, it could be reached. Paris was always worth it and you received return for whatever you brought to it. But this is how Paris was in the early days when we were very poor and very happy.

A Moveable Feast
Ernest Hemingway

Regressado

quarta-feira, 18 de março de 2009

sábado, 14 de março de 2009

A Vélib vai chegar a Lisboa

Um serviço de bicicletas de aluguer, há muitos anos existente em Paris, vai ser implementado em Lisboa.
A sua utilização tem um custo simbólico e é certamente uma boa notícia.

Angola, terra de oportunidades

Mais de dois terços da população vive na miséria.
O país está em 162º de uma lista de 177 estados, quanto ao desnvolvimento humano.
Segundo o relatório da International Transparency, posiciona-se em 158º lugar em 180 estados avaliados quanto à presença e importância da corrupção.
De acordo com um índice usado para avaliar as assimetrias sociais - o fosso entre os mais favorecidos e os mais pobres - a sociedade angolana é das mais desiguais do planeta.
É dos piores países para se fazer negócios, segundo o índice Doing Business, do Banco Mundial - Angola ocupa a 168ª possição de um total de 181.
Um relatório da Freedom House dá conta das continuadas restrições aos direitos, liberdades e garantias.
As participações em empresas portuguesas têm aumentado significativamente nos últimos anos, com a compra de acções por parte da empresas públicas angolanas - como a Sonangol - ou pela holding pessoal da filha de José Eduardo dos Santos; a título de exemplo, a petrolífera angolana já é o maior accionista do BCP, com 9,99 do capital, enquanto no BPI, Isabel dos Santos detém 9,69 dos títulos.

Aos dados da Visão, junta-se o relato de quem por lá passou.
Em Luanda, o arrendamento de um T2 normal (para os padrões portugueses, claro) pode custar mensalmente 4500 e Dólares, com um ano pago à cabeça.
Um jantar para 3 pessoas na Ilha, na capital angolana, pode ascender aos 600 Dólares. No interior, tudo é impecável; no exterior, há lixo à porta.
A diária num hotel poderá ter um custo e 400 Dólares e é difícil de conseguir: os hotéis estão esgotados.

Serão estes contrastes uma surpresa? Complementando a afirmação do personagem interpretado por Michael Dougla em Wall Street - o dinheiro não dorme - direi: o dinheiro não faz juízos de valor. É simplesmente assim.

Casa das Histórias e Desenhos Paula Rego

Com o contributo de uma amiga, a Paula - a quem agradeço - aqui fica uma antecipação da obra de Souto de Moura, em Cascais.


Ai Portugal, Portugal...

Para quem duvida de que chegamos ''inclusivamente'' a ser bem governados:
em 1979, foi decido que o novo Palácio da Justiça de Coimbra seria construído no terreno que actualmente serve de estacionamento aos funcionários do Ministério da Justiça, próximo das actuais instalações do tribunal;
cumprimdo com naturalidade a decisão, no início dos anos 90 chegou a haver um projecto completo, acabado, para obra - tudo a correr como esperado, embora com atrasos ciclópicos;
mais tarde, segundo o normal exercício da política em terras lusas, houve um governo que decidiu que o projecto realizado não se adequava às necessidades de Coimbra, em matéria de justiça;
com essa decisão, ou em concomitância com ela, foi encontrado um novo terreno, na margem esquerda, junto da recolha dos transportes públicos (que ocupa o local mais anormal do mundo, tendo em conta as potencialidades do sítio) e, para dar seguimento ao assunto, é lançado um concurso de arquitectura - houve um vencedor e, no mínimo, prémios a pagar (desconhço se foi iniciada alguma fase posterior do projecto e, em consequência, mais custos com honorários, estudos e consultorias);
no entanto, sem que se saiba muito bem porque motivo (certamente para dar outros usos à margem do rio e garantir maior qualificação dos espaços da cidade não foi certamente), o processo nunca avançou;
agora, 20 anos e muitos milhares de escudos e euros depois, o Ministério da Justiça, em conjunto com a Câmara Municipal, decidiu voltar ao terreno inicial - foi apenas um passeio, tudo bem!

Bom, agora imaginemos estes senhores que nos governaram e governaram, com as seguintes decisões:
Mandam realizar uma casa num terreno que possuem, mas depois do projecto integralmente realizado e pago, decidem que afinal o programa que pensaram não lhes serve, e que o terreno é exíguo para o que pretendem;
seguidamente, fazem uma permuta de terrenos, para conseguir o local adequado para outro projecto, para o que lançam um concurso de arquitectura e pagam os respectivos prémios;
não, afinal não é ali, é melhor voltar ao terreno inicial e desfazer a permuta;
agora só faltará encomendar um novo projecto e pagá-lo, naturalmente (não sem antes explorar mais uns projectistas, com a fixação de um custo irreal por metro quadrado para efeitos de cáculo dos honorários).

Real? Claro que não! Ninguém gere assim os seus dinheiros e bens!
...sim, eu sei. Admito. A comparação está mal feita. Os governos não gastam senão o dinheiro de outrem e com a morosidade de decisão na construção de uma casa nenhum particular lesa profundamente a sociedade e o seu funcionamento.
Brindemos à Justiça.

Por estes dias...

Por estes dias, os dois pólos do meu mundo...

Por estes dias...

E assim me movimento, por estes dias:


...acima dos montes, subindo alto,


...e no meu gabinete, descendo à terra.

Pequeno brinquedo pequeno

Exige algum esforço, mas é como caminhar directamente sobre a água.
A pausa parou.