Museu Nacional de Machado de Castro; Gonçalo Byrne (remodelação), Coimbra.
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Gonçalo Byrne é um dos arquitectos portugueses mais significativos. É certamente um dos autores que mais tem contribuído para a boa fase que esta disciplina atravessa entre nós e a ele se deve, também, o amplo reconhecimento que a mesma tem alcançado para lá das fronteiras.
Reconhece-se-lhe cuidado e rigor dsciplinares, bem como um profundo sentido ético, em obra nova, em trabalhos à escala da cidade e do território, bem como em intervenções sobre o património.
A modéstia e simplicidade são marcas fortes da sua personalidade e um modelo que sempre me impressionou. Fui aluno de Gonçalo Byrne no início dos anos 90, em Projecto do 5º ano, e desde essa altura que passei a admirá-lo, também pessoalmente. Passei, pois, a seguir a sua obra de modo particular, sobretudo, a que vem realizando em Coimbra.
Foi com este espírito que aguardei, com curiosidade e interersse, a abertura do recentemente, embora não de todo concluído, remodelado Museu Nacional de Machado de Castro.
Esta intervenção tem sido encarada como uma lufada de ar fresco no centro histórico (marcado por um abandono de anos ou por – pior - intervenções ao arrepio do que deveriam ser as preocupações de regeneração, tanto no edificado, como no espaço público) e vista como um forte impulso no património museológico da cidade.
Não duvido de que o conseguirá - felizmente para a cidade - e, espera-se, com efeitos multiplicadores.
A intervenção pode ser encarada em vários planos: os que dizem respeito a uma abordagem eminentemente disciplinar - morfo-tipológica, espacial e de linguagem; urbana - de inserção no sítio e dos impactos no local (das rupturas e/ou continuidades) e quanto ao contributo para acentuar a vida, convocando novas dinâmicas; patrimonial - de valorização e promoção dos valores pré-existentes.
A minha visita, incompleta, não me permitirá juízos completos sobre o primeiro tema. No entanto, as primeiras impressões transmitem a ideia de um objecto belo, equilibrado pelo domínio das proporções, com um cuidado geral na escolha e combinação dos materiais e das soluções que lhes dão suporte físico.
A Alta só pode ter ganho com o novo Machado de Castro. É esta a primeira apreciação, parcelar, de uma abordagem de cariz urbano. A Rua Borges Carneiro é hoje seguramente melhor; o largo de entrada, abaixo da Sé Nova, está visivelmente mais qualificado; a paisagem urbana, numa visão distante sobre o tecido urbano, foi fortemente melhorada: desapareceram as feridas com que a demolição e a ruína marcavam há muitos anos as diversas vistas que se ofereciam a partir de vários importantes pontos de observação.
O partido proposto para a intervenção, assente na desmaterialização através de vários volumes dialogantes, mas fisicamente autónomos, revela-se uma estratégia acertada de inserção local e numa abordagem à escala urbana e de diálogo com todo o morro da Alta. As fendas que se abrem - nas novas superfícies, rompendo os volumes propostos, e entre estes e as pré-existências – mostram-se, adicionalmente, como mais um procedimento para a procura da escala justa, bem como para a construção das aberturas de luz, de entradas e percursos com distância física e formal relativamente às janelas e portas do edificado existente: às pré-existências oferece-se a serenidade, silêncio e enquadramento de planos lisos de pedra, desenhados como instrumento de fuga a rupturas e contrastes, no que refere à expressão e dimensão das fenestrações.
Adicionalmente, assistir-se-á, certamente, a uma nova dinâmica local, fruto da maior qualificação urbana, de um interesse renovado pelo museu (com capacidade de atrair um novo público, espera-se) e, como normalmente acontece, motivada pelo efeito de novidade que se espera que solidifique e evolua para qualquer coisa de mais perene e estruturado.
As questões patrimoniais colocam-se para além das condições de preservação e exposição, certamente irrepreensíveis.
O museu era marcante por três elementos, chave da sua caracterização do ponto de vista do edificado, do significado urbano e da riqueza patrimonial. A par com o acervo, partes fundamentais, adivinhavam-se três elementos fundadores do projecto: o pátio que se abre por detrás do portão de ferro, centro aglutinador do volume em U e primeiro momento de uma vista que se projectava sobre a cidade; a Loggia que o fecha sempre foi um ponto fundamental de observação da paisagem urbana, um local único da Alta aberta à contemplação, sendo, adicionalmente, uma peça de um refinamento excepcional, de uma beleza pura, de umas proporções exactas, com uma forte presença a partir, quer da Rua Borges Carneiro, quer de outros pontos de observação mais distantes; sob o pátio, o criptopórtico constitui a mais significativa presença da cidade romana de Aeminium.
O pátio, encontra-se mais clarificado, mais limpo, sem perturbações na apreensão da sua espacialidade e dos elementos que o pontuam: a fonte e a Loggia. Esta última, porém, não conservou o protagonismo que se desejava. Antes da intervenção, era um limite, uma fronteira entre o chão e a encosta. Era o último elemento entre o espaço apropriável e a cidade aberta à contemplação. Era um elemento de forte caracterização local, como mediador entre o olhar e a cidade, e como remate na subida a partir da Sé Velha.
Essas relações perderam a força e expressão que detinham: uma nova cafetaria com esplanada bloqueia um horizonte que se impunha como o de maior protagonismo local - a nova construção reclama essa importância, substituindo-se à pré-existência; na Rua Borges Carneiro o pano de fundo é, agora, desempenhado pela malha metálica da fachada de gradil, cuja dobtragem para o plano horizontal se constitui, na cota mais elevada, como prolongamento visual do pavimento do pátio - a Loggia deixa de se expor sem reservas como limite e elemento último no forte desnível e, onde antes se afirmava, esconde-se com timidez, por detrás dos novos elementos adicionados.
Provavelmente, a dimensão do programa não tornava fácil uma outra solução. Mas pela sua importância e qualidade arquitectónica, a loggia deveria ter-se assumido no projecto como um elemento-base, a que se deveria ter submetido toda a articulação volumétrica. Pelo valor intrínseco e significado urbano da mesma e devido admiração que manifesto pelo autor, lamento que a intervenção não tenha ido mais longe neste aspecto particular, mas de capital importância.