terça-feira, 19 de maio de 2009

Testemunhos do tempo em movimento

Aqui fora, uma paz cálida que entorpece suavemente e com vontade.
Ficar, permanecer. O sol convida à inércia que o saboreia com toda a calma.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

No siléncio, o que importa...

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


Retrato Ardente, Eugénio de Andrade
in Obscuro Domínio

Aforismos roubados

''Portugal é um país em adaptação.''

Cidadão em declarações a um noticiário televisivo, fazendo notar a condição europeia incompleta do país, a propósito da colocação dos contentores de um ecoponto numa paragem de autocarros, na Baixa da Banheira.

domingo, 17 de maio de 2009

Escadas e suas metamorfoses

Escadas, ligações ao espaço envolvente e outras ambiguidades.
Fortaleza de Sagres.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Detalhes de divina beleza

A janela perfeita sobre o mar largo.

Boa Nova; Álvaro Siza.

Testemunhos do tempo em movimento

quinta-feira, 14 de maio de 2009

36 anos DEPOIS!

Ao fim de quase quatro décadas, Portugal pôs fim a um regime de excepção, descontextualizado, desajustado, bárbaro e injusto.
A proposta de lei 116/10 foi aprovada na comissão parlamentar de Obras Públicas e, com ela, chegará a revogação do Decreto-Lei 73/73.
Resultado prático? O exercício da arquitectura será consagrado aos arquitectos, tal como em qualquer país civilizado.
A medida só terá efeitos daqui a 5 anos, mas é uma óptima notícia. É a notícia do dia!

Testemunhos do tempo em movimento

quarta-feira, 13 de maio de 2009

imagens soltas de um mundo em movimento

Voltar a imagens do passado, revisitar a memória.
Desenhar uma escada, um percurso, a variação da imagem no tempo, a relação espaço/tempo.
Uma escada nunca é apenas uma escada. Num regresso a Venturi, prefiro pensar que pode ser um local de paragem, um miradouro, um percurso para passear com alheamento, um sítio para conversar ou namorar. Simplesmente, para que a vida aconteça.
Em Santiago, uma das formas mais ricas e apaixonantes de percorrer um edifício. Com prazer.

FCI; Santiago de Compostela; Álvaro Siza.







terça-feira, 12 de maio de 2009

Desenhos

No corpo feminino, como quem busca cura para os males do mundo.
Desenhando o seu contorno, com a fluidez de um movimento contínuo, em curva suave, sem cortes, de modo inspirador, inspirado, absorvido, generoso e egoísta - como quem agradece toda a beleza que se rouba e nunca se poderá pagar (não há preço para a beleza ilimitada) -, o mundo reproduz vezes sem conta o que de tão banal, nunca se banaliza, na procura do gesto belo.
Só o desejo da beleza como redenção motiva a criação do inútil. O inútil como necessário.
A criação não é útil. Não serve um propósito imediato, identificável, utilitário. Mas a beleza é util, enquanto necessária, coisa vaga que se pretende respirada como se não houvesse alternativa.
A mulher está presente, sempre esteve, imaginada, recriada, reproduzida, desenhada, pintada, esculpida, filmada, descrita, observada, amada, desejada.
Nada muda entre as paredes ásperas de um primeiro abrigo e as páginas do caderno que guardo hoje entre os dedos. Nada é diferente na sensualidade da arquitectura de Niemeyer, encontrada ''nas curvas da mulher do meu país''. Como diz, ''o que importa é a mulher, o resto é brincadeira''.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Desenhos

Por vício ou prazer, por prazer e vício, rapidamente as esferográficas à volta da mesa se concentram no papel, eliminado progressivamente a folha branca, seguindo um traço após o outro. O desenho é uma forma de comunicação, de pensamento, também de evasão.

Desenhos

Em 1956, Roger Vadim realizou o filme cujo título expressa, certamente, a maior de todas as verdades:

E DEUS CRIOU A MULHER

A mulher não veio depois e não sucede a nenhum ser. É em si mesma. Uma criação única.
Isso é tão evidente como o sol nascer todos os dias, com a sua beleza, sempre renovada.

Desenhos

Na Almedina, enquanto trabalho. Todos os desenhos contam uma história e deixam adivinhar ou escondem outra. Indiscretamente, a Bic penetra no universo de outros.
Por instantes, demora-se na observação. Por vezes, mais reveladora; outras, pouco percebe.
Dedicadamente explicando ou empenhadamente seduzindo?


sexta-feira, 8 de maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Prémio AICA/MC 08
















Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez, distnguidos com a última edição do Prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte / Ministério da Cultura.

São duas das pessoas que mais contribuiram para a minha formação. Em planos distintos e em fases diversas, fico a dever-lhes muito. Agradeço-lhes enquanto arquitectos e professores e é, pois, com enorme prazer que os felicito.

Muitos parabéns Sérgio; muitos parabéns Alexandre.

Imagens soltas de um mundo em movimento

Com a chegada da noite, é a Arquitectura que serve de fonte de luz para os espaços externos. O mundo como que se inverte.
As cores que antes se ocultavam sem desejo de exibição, tornam-se fortes, já sem o pudor que as fontes luminosas neutralizaram. As interacções entre o interior e o exterior são permanentemente renovadas e permitem novas descobertas. A riqueza da vida descobre-se nessas surpresas.


Roche. Basileia; Herzog & de Meuron


Imagens de apropriação espacial

As primeiras sensações foram de algum embaraço e apreensão, procurando identificar o modo de uso do espaço. Com o passar de algum tempo, as coisas surgem com mais naturalidade. Caminhando em redor do edifício por entre os seus espaços, contornando os apoios que tocam o chão, lançando o olhar para lá das perfurações que rasgam o volume desde o céu até aos passos que cadenciadamente se movem, começa um tactear que tudo revela. Os espaços imensos precisarão de gente, muita gente. A pouca ocupação humana permite perceber o quão insuficiente ainda é. O mistério apesar de tudo, vai acontecendo e faz desejar um regresso noutras circunstâncias. Com pessoas. Muitas.

Fórum 2004; Herzog & de Meuron; Barcelona.


quarta-feira, 6 de maio de 2009

Imagens soltas de um mundo em movimento

Na cidade, o olhar abandona-se ao desejo de descoberta de todos os brilhos e intensidades de luz, em permanente variação. A cidade não tem fim.

Fórum 2004; Herzog & de Meuron; Barcelona.

Ao lado das estatísticas.

Neorealismo ou imagem de um país abandonado à sua sorte?

A sempre surpreendente espessura do tempo.

O tempo imperfeito, descontínuo, desregrado, manifesta-se em cada superfície que toca. Não pede licença para se expressar, mas deixa-se contaminar por olhares sempre renovados. A Arquitectura é também isso.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Pela cidade, sem rumo, à deriva.

























Hoje em dia ninguém arrisca. Toda a gente quer estar segura, à partida. Só com todos os dados conhecidos avançam. Assim em tudo. Na vida.

Os Gps, Via Michelin, Multimaps e outros agentes da certeza tomaram o lugar do incerto e da descoberta. E há prazeres que ficam pelo caminho quando não se consegue resistir. Adoro perder-me na cidade, vaguear e deambular, sem me encontrar em cada momento. A seguir a cada lugar desconhecido, virá sempre o deslumbramento pelo conhecimento de um novo local. É fantástico.

Uma Carta Coreográfica

É o título da exposição inaugurada em 199 municípios e patente em todas as Livrarias Almedina, a propósito do dia mundial da dança, comemorado a 29 de Abril.

Os painéis que compõem a mostra exibem títulos de uma beleza singular. As fotos, na maioria de cena, correspondem à poesia do texto. Mas é sobretudo a palavra que mais me prendeu a atenção. Maravilhosamente bela.

Não resisto à transcrição.


''Terceira Fábula
Os dentes da princesa sem braços.

Braços, acreditar no que fazer sem usar os braços, prender alguém sem abraçar

Dentes, sorrir com os olhos, fazer covinhas no sorriso, chamar sem usar a voz

Mostrar a beleza do corpo incompleto

Por vezes, as mãos os braços não servem para nada. Isto se houver dentes, olhos e sorrisos que os saibam substituir. Hoje em dia, existem no campo e na cidade princesas que vivem incógnitas. Elas, só com os seus dentes muito brancos, os seus olhos de qualquer cor e os seus lábios que rasgam sorrisos preciososos, conseguem por um instante impressionar muito: criam com as suas armas a sugestão de um instante feito de luz, cor e transparências. E assim, sem necessitar de usar os braços que não têm, aprisionam-nos para sempre. Este instante duradouro chama-se amor à primeira e à última vista.
Faça de princesa: fixe um ponto desejado. Exercite a luz do seu olhar, focando, piscando, batendo as pálpebras como asas de insecto, recolhendo os olhos demoradamente, para os abrir em simultâneo com um sorriso novo.''

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Alguma novidade?!

Nada muda com este sol. O dia está de uma beleza sem limites. Todas as cores são outras. Tudo brilha. Mas o vento...
Nada é - nunca! - completo. Antes em Coimbra, que em frente do mar. Especialmente hoje.

Cheiro a papel

Nos jornais já é mau. Nos livros, insuportável.
Não gosto de livros em sacos. Após um livro acabado de comnprar, a célebre pergunta: - deseja um saco?!
Um livro de papel macio, que se adapta suavemente à forma das mãos, repentinamente apriosionado no interior de um saco de plástico, não é certamente objecto de comparações benévolas. É trágico.
Não me interessa.
Gosto do cheiro a papel. Gosto de sentir a capa nas mãos. Gosto de poder folhear o livro enquanto ainda o conservo entre os dedos.
Os sacos matam esse prazer. É como comprar um livro online, perdendo a sedução de entrar numa livraria.
Até no plano estético o resultado é mau. Muito mau. Um saco que pende das mãos de alguém que sai de uma livraria é feio. Infinitamente mais belo o gesto de quem conserva o livro debaixo do braço, entalado entre os dedos ou apertado contra o peito. Trata-se de uma proximidade com o objecto de leitura que o dignifica. O saco, não. Banaliza-o.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Entre dois mundos

Entre dois mundos, como Janus - a divindade de duas cabeças.
Colocada nas portas das cidades romanas, observava o confronto de opostos e marcava o contraste entre a civilização e a natureza - um outro universo.
Uma porta é sempre uma antinomia. Deve convidar a entrar, a abandonar um universo a favor de outro, que se deseja confortável e com vida própria, idiossincrático. As penumbras devem marcar-se. O contraste passa também pela luz. Só a diferença interessa.

Sta Clara-a-Velha; Atelier 15; Coimbra.



Recomendações para o prazer da vida

Imagens soltas de um mundo em movimento

A Cidade descobre-se em cada passo, em cada mistério arrancado a cada nova esquina forçada sob o andar. O tempo sucede-se em intervalos superiores aos da cadência do movimento. A Cidade é isso: permanente revelação, sob um tempo em permanente movimento e desfile encantatório. É assim que os olhos descobrem a primeira obra renascentista.

Santa Maria das Flores; Cúpula de Fillipo Bruneleschi; Florença.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Imagens soltas de um mundo em movimento

A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana.
in Memórias de Adriano
















Panteão; Projecto de Adriano; Roma.

Imagens de apropriação espacial

Coliseu; Roma.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Imagens soltas de um mundo em movimento

São Pedro; Roma.


Simplesmente belo.

Em Gran Torino, Clint Eastwood com grande intensidade.
Só o amor pode salvar?

Boas Notícias e Sta. Clara

Sta. Clara-a-Velha inaugurou.
Depois da visita:
Parabéns Alexandre
Parabéns Sérgio
Parabéns Luís.


Nem tudo é Péssimo

A Escola da Noite decidiu-se por um prolongamento de temporada. Bravo!

Mais um chapitô

Ali está. Impassível.
Todos os anos, nesta altura, um chapitô ocupa a Praça da República. É um clássico, afastado, ainda assim, do clássico que era entrar num circo a sério. Neste, recordo o mistério do cheiro a terra, a mofo e a animal que se escondiam debaixo da tela e despertavam, em cada entrada renovada, a curiosidade pelo que iria ser o espectáculo. No outro, no que todos os anos insiste em ocupar selvaticamente uma das poucas Praças da cidade, não se reconhece a mesma atmosfera fascinante. A escuridão não cativa ninguém, as bancas entortadas pelos desníveis do pavimento não são desejadas, o mobiliário estilo ''Móveis Paços de Ferreira com estilos florais'' ou a esplanada interna de ferro forjado - estupidamente afastada do exterior - mostram a pior face da cidade, que parece querer mostrar-se provinciana, mesmo contra a vontade de muita da população, mesmo da que frequenta a Feira do Livro. As pinturas - não é de obras de arte que se trata - expostas nesses ambientes reforçam a desqualificação geral e afastam, ainda mais, esta cidade e a iniciativa de quem sonha com uma cidade cosmopolita e integrada nas melhores dinâmicas nacionais.
Coimbra tem um panorama livreiro só comparável aos de Lisboa e do Porto. Há inumeras e boas livrarias em inúmeros locais da cidade, espalhadas não só pelos centros comerciais, mas pelas ruas. Por isso digo: não merecia este horror!

No exterior, o ambiente não melhora. O espaço onde o chapitô aterra fica desfeito por um longo período. É incrível, como, em nome da cultura, a cidade atenta contra si mesma. A Cidade é a expressão e realização máximas da cultura. A Cidade é sinónimo e motor de civilização. Todas as grandes civilizações são e foram urbanas. Todas as grandes formas de cultura nasceram nos espaços qualificados da Urbe. Coimbra afasta-se desta evidência e quer afastar os seus cidadãos do espaço público. Do espaço de cidadania. Não consigo entender!

sábado, 25 de abril de 2009

Elogio da cidade

''(...) amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestada irregular da cidade tranquila, sob o luar, visto da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa.''

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

Hoje

















Associação 25 de Abril; Álvaro Siza; Lisboa

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cassandra de novo.

Não resisto. A fechar a semana, a iniciar o fim-de-semana, a voz tocante de Cassandra Wilson.

O que Aprendi com a Arquitectura
















Siza fechou o ciclo. Depois de Eduardo Souto de Moura, coube-lhe a tarefa. Os mil e duzentos lugares da Casa da Música completamente esgotados para ouvir aquele que é provavelmente o maior vulto da cultura portuguesa. Durante quase 2 horas revelou o que ''aprendi com a arquitectura'', partilhando referências e entendimentos, lugares e viagens marcantes. Sempre com poética, a mesma que coloca nas obras, apresentou um discurso lindíssimo, falando-nos de uma carreira que se inicia em Barcelona, com Gaudi, e não terminará nunca, não cessará, como poeticamente se referiu a Le Corbusier, um exemplo a todos os título para Siza. A mesma perseverança e apego aos locais amados vão certamente movê-lo. Sempre.

Aproveitando as novas tecnologias e o desleixo que me impediu de conseguir bilhete antecipadamente, fiquei em casa, sentado no sofá, com o portátil ligado ao LCD, a ver a transmissão em directo em http://www.casadamusica.tv/. Não foi a mesma coisa, mas não me impediu de aprender imenso com as arquitecturas de Siza.

35 anos depois















Amanhã é dia 25 de Abril. 35 anos depois, eis a qualidade da nossa democracia:
- 2 milhões de cidadãos (sim, cidadãos) vivem na pobreza (um quinto da população, sublinhe-se);
- A fome aumenta todos os anos, segundo dados do Banco Alimentar Contra a Fome (em 2007 foram mais de 200 mil as pessoas que receberam apoio desta instituição);
- quase 10% de analfabetos (9 em cada 100 portugueses, com 10 anos ou mais, não sabem ler nem escrever, conforme os resultados definitivos do Censos 2001);
- Fátima Felgueiras foi absolvida;
- Avelino Ferreira Torres segue o mesmo caminho;
- Isaltino Morais perfila-se como candidato à Câmara de Oeiras;
- Santana Lopes é indicado como o homem certo para o lugar certo pela coligação de quatro partidos que o suporta na corrida à Câmara Municipal de Lisboa;
- Seis anos depois, o Processo Casa Pia não tem fim à vista;
- Os partidos políticos brincam no Parlamento sobre as medidas de combate e punição ao enriquecimento ilícito (em todo o mundo civilizado a matéria é entregue a especilistas em Direito Penal, segundo Maria José Morgado, que classifica a discussão como ''conversa de Casino e de Café'');
- ao abrigo da liberdade de imprensa, a comunicação social viola sistematicamente o segredo de justiça, achincalha qualquer cidadão na praça pública através de processos sumários em que se substitui à sede própria.

São apenas alguns exemplos. Não vou repetir a pergunta de Lobo Antunes. Mas, de facto, podiamos ter feito muito mais. Passou muito tempo. Avançámos muito, mas é claramente insuficiente e muitas vezes fizémo-lo de forma torpe. Enganados os que ano após ano dizem que estão fartos de comemorações do 25 de Abril, confundindo os que lembram a data com comunismo ou com a hipocrisía de quem não quer ficar de fora por motivos políticos. Não sou comunista, nunca fui, jamais exercerei política. No entanto, tenho a certeza: Abril está por cumprir. Portugal merece mais!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quebrar a Regra

Na Arquitectura como na vida. A poesia surge quando se quebram as regras.

Casa de Férias; Viana de Lima; Marinhas, Esposende.

Viana de Lima

Casa de férias; Marinhas, Esposende.


Música para a vida

É uma das vozes mais incríveis que conheço. O tom quente, a melodia incrível da música, são para conservar. Guardar e ouvir sempre.

A Cidade e os Outros

A cidade é o local onde tudo se sobrepõe. Continuamente.

Praça do Hospício dos Inocentes; Florença.

Os Vários Estratos do Tempo















Piazza del Duomo; Florença

A acumulação do tempo na cidade é intrigante, mas maravilhosa. Fala das várias sobreposições que a espessura da vida ao longo dos anos deposita, época atrás de época. Não gosto de áreas novas. Falta a vida incongruente, não planeada, nem programada. Falta a incoerência de histórias e percursos que nada sabem uns dos outros. Falta quase tudo.
A cidade fala com normalidade dos seus vários tempos, como uma fachada à qual se retiram pedaços, fazendo-o com a naturalidade da abertura de janelas ao sabor das necessidades e segundo os locais mais convenientes - sempre sob a acção da passagem do tempo, sempre de acordo com a vida.

Testemunhos do tempo em movimento






terça-feira, 21 de abril de 2009

Planos sem gente

A chuva humedece os planos. O chão permanece molhado. As cores intensificam-se.
A percepção do espaço altera-se. Despe-se de gente, abrigada nos interiores de uma arquitectura que já não é a mesma. Durante algum tempo, cumprir-se-á com uma outra face.

Faup; Álvaro Siza.



segunda-feira, 20 de abril de 2009

Detalhes de divina beleza

Deus está nos pormenores
Mies van der Rohe

Boa Nova: Álvaro Siza.

Entre dois mundos

Na espessura de uma parede é provocada a relação entre interior e exterior. Com desvelo, o espaço transita entre dois mundos.
A luz que passa pela abertura rasgada na superfície mede a intensidade da relação pretendida. A cor acentua o contraste. Define, com rigorosa demarcação, o espaço. A textura da parede domestica as sensações. Dá conforto.
E a lição de Barragan permanece, intacta, sobrevivendo ao tempo.

Quinta da Conceição; Fernando Távora.





domingo, 19 de abril de 2009

Ainda Há Pastores?











Hermínio, o pastor. O que se move na Serra todos os dias. Domingos e dias santos, sem parar, como refere. Rodeado do abandono que se aprofundou com a chegada das leis comunitárias que foram fechando as queijarias, as mesmas leis que deixaram longe os sinais de desenvolvimento e conforto do local que as criou, vive os dias na solidão. Não vê ninguém de sol a sol. Tem pouco e ambiciona pouco. Mas o pouco que deseja, porque mais não pode, significa muito. Entre os desejos do corpo e os poucos sonhos que alimenta, mantém o olhar vivo. A certeza de que um dia há-de ver e ouvir Quim Barreiros tem a grandeza de um grande sonho que se pretende vivido. O Vale não permite mais. Ele sabe-o.
Rosa, a menina que, junto com o seu irmão, dominava os sorrisos e os sonhos de criança do vale. A mesma a quem a poeira e dureza da terra retirou ao sonho a vontade de estudar. Gouveia ficou fora das rotas da vontade do seu pai, e a economia de subsistência encerrou-lhe as saídas do vale.
Casais de Folgosinho, um local ausente do Portugal europeu, dos fundos comunitários que não trouxeram o bem estar que habita os olhos que vêem com interesse turístico ou alheamento um outro país que não conhecem. Um país divido entre os excluídos de uma geografia ignorada e distante, do lado errado da vida, e o privilégio adormecido pela estupidez sem limites, que nunca se sente satisfeita, por mais que tenha, por muito que acumule.
Ainda há Pastores é um lindíssimo documentário realizado por Jorge Pelicano, escrito pelo próprio, por Cátia Vicente e João Morais, a que Fernando Alves empresta a voz. Vale a pena ver. Ver, também, como bem nos corre a vida.

sábado, 18 de abril de 2009

Imagens de apropriação espacial

O corpo mede e compara. Usa. Atribui sentido.
Só o corpo importa.

Praça de Espanha; Roma.