Não percebo muito de quotas. Sei que deixei de as pagar quando me desinteressei por futebol, farto de tanta incompetência, apesar das verbas implicadas em contratações, ''plantéis'' e épocas. Mas quanto a pescas, frotas pesqueiras, abate de barcos e produção pecuária ou agrícola, não consigo entender. Já se sabe que os produtores deitam fruta fora, que as explorações se desfazem do leite, que a PAC subsidia a produção ou a sua ausência, que os países mais fracos são mesmo o elo mais fraco perante as regras de comércio mundial impostas de cima para baixo; contudo, não se imagina a totalidade. Já se sabe que tudo se joga entre nascer do lado certo ou errado da vida. Tudo porque o bem estar de uns, condena os restantes. Tudo porque é importante controlar e manter os preços. É fácil pensar nisto enquanto a questão é abstracta. O que não se vê não se sente. Mas quando passa para a retina, a realidade torna-se mais dura.
Quénia; lixeira de Nairóbi. Perto vive, como muitos outros, milhares, uma mãe. É naquele local que procura diariamente alimento e forma de sustento. Os restos sáo a sua forma de vida. Todos os dias atravessa, com o filho, descalços, o rio e a cólera que nele se aloja. O destino é sempre o mesmo: os enormes montes de lixo onde se junta aos milhares de pessoas que buscam o mesmo. No local, só mesmo quem nada tem e os abutres que rodeiam os humanos na mesma procura de alimentos. O momento mais aguardado é a chegada do camião de lixo proveniente do aeroporto. Tudo é resgatado quando o veículo se imobiliza: pratos e talheres de plástico, restos de comida. Do meio da multidão, emerge a imagem de um homem que come, directamente das mãos, o que aparenta ser esparguete. Come no meio da confusão e do assalto ao camião que acaba de abrir as portas da caixa de carga, para efectuar o despejo. Todos se amontoam, mas as hierarquias imperam. Primeiro escolhem os chefes dos gangs. Depois, os outros ficam com as sobras das sobras. Finda a procura, a mãe regressa à barraca com o filho, atravessando de novo a cólera. Conseguiu centenas de sacos de plástico que, depois de lavados, venderá na feira, em Nairóbi. A sessão valeu-lhe também muitos bombons. O aspecto é o que se imagina: uma massa informe, esmagada, indeterminada na forma. As crianças comem-nos; a mãe serve-se deles como adoçante. A mãe está contente. Nunca conheceu outra realidade. Não sonha com outra. Está acostumada a esta rotina e modo de vida. Dá graças a Deus por viver perto da lixeira. Se esta se mudasse, a mãe e outros, como ela, iam atrás. Na cidade, tudo se vende, na feira, depois de arrancado à lixeira: brinquedos partidos; objectos incompletos; restos de pão ensacados.
A União Europeia seria um lugar perfeito, com um perfeito controlo dos seus excedentes de produção, com perfeitos subsídios para para nada produzir, com uma tranqulidade perfeita, se não não houvesse televisões e os noticiários não expusessem, em reportagem, como ontem, o que se passa fora das suas fronteiras e que o mundo não é assim tão idílico.