a.noi.te.cer, intransitivo
1.fazer-se noite
2.escurecer

Enquanto caminhava, pensava. Para ele, a quem a cidade nunca deixava de surpreender, o significado do cair do dia era mais do que uma circunscrição semâmtica. Os diciónários não lhe bastavam para descrever o que via asempre que o dia acabava.
Com o final do dia, sentia que chegava um encerramento. Sentia que já não havia vida para além das fachadas. O que via eram planos moribundos que limitavam as ruas. Olhava e sentia: não havia nada que trouxesse vida às janelas.
Essa era a sua realidade desde sempre, era assim que sempre havia habitado, mas, apesar de há muito a conhecer, não se habituava à ideia. Sabia da existência de outros mundos. Mais ricos.
Lembrava-se de uma pequena terra que vivia ao contrário da morte anunciada com o sol poente. Ali - recordava-se - com a noite, os edifícios animavam-se. As janelas ganhavam vida, as fachadas comunicavam. A intensidade da vida das casas era trazia para o exterior. Ali não havia cortinas, não havia persianas, não havia ocultações da luz proveniente de cada compartimento com gente. Era como uma inversão da cidade a que assistia: depois das horas diurnas, a luz irrompia a partir do interior.
Verificava não existir a necessidade de defesa em relação a um inimigo não identificado em nome de uma qualquer ideia de privacidade. À ideia de separação e afastamento, via que a Holanda contrapunha a partilha: a partilha de um espaço entendido como comum: a cidade. Isso agradava-lhe.