Lembro-me de as ''As noites de China Blue''. Quando penso numa vida dupla é o que mais rapidamente me assalta o pensamento. Vi o filme, ainda adolescente. Recordo-o bem: a atraente psicóloga que à noite vestia a pele de prostituta.
Quando se profere
vida dupla, nada de mais simples acontece no mundo da imaginação. A expressão não atesta a idoneidade ou a moralidade de qualquer personalidade ou conduta. Normalmente, isto é verdade. Mas nem sempre.
Elisabete Cardoso é um dos valiosos exemplos que contrariam a norma.
Durante o dia, é analista financeira numa importante empresa e dá aulas de Estatística e Gestão de Marcas na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. À noite, é voluntária da Comunidade Vida e Paz.
Para além do conformismo que nos tolhe, do egoísmo que nos amansa e limita, para além do aburguesamento a que o bem estar de uma profissão confortável nos atira, Elizabete divide parte do seu tempo, aquele que poderia reservar apenas para si, com os sem-abrigo de Lisboa. A noite vê-a a distribuir alimentos e agasalhos por inúmeros espaços onde se agrupam os que nada têm, os que possuem apenas o tecto da rua como abrigo.
Um exemplo de generosidade e grandiosidade.