domingo, 31 de outubro de 2010

Metáfora da vida

É a verdade, só verdade, que enche com toda a alegria este céu próximo, que preencho com todas a cores até que estas se unam num todo e absoluto vermelho.

Coimbra, ontem.

sábado, 30 de outubro de 2010

Palavras oferecidas, dadas, sentidas

Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde a beijo a beijo foi acesa.

Eugénio de Andrade, Os Joelhos in Obscuro Domínio

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Exactidão na palavra (os arquitectos também acertam)

A felicidade não é uma moeda de dez tostões no bolso ou um brioche na mão. É um sentimento, um imponderável, um acto do coração.

Le Corbusier in Urbanismo

Vasculhando no meu baú

Gosto de vasculhar o blog. Gosto de o fazer com os dos outros também. Procurar para além do tempo presente. Mas tenho um prazer redobrado com este, que é meu. Parece que procuro, apenas por curiosidade, num baú para onde fui enviando gestos, gostos, emoções, partilhas, coisas minhas. É um reencontro comigo que recebo. Cada olhar que lanço ou som que me é dado devolve-me parte de mim, do que sou, da forma como me vejo, como me projecto, como contacto com a vida e com outros. São peças que encaixam em qualquer parte da minha matéria. Que vêm sem manual de montagem, mas que reconheço e identifico com cada local a que pertencem.
Nestas viagens internas, ao fundo de Um Sopro e Tudo Mais , deparei-me com a morte de Lhasa. Registei-a, na altura, por me ter surpreendido e pela música que cantava me ter sempre, a partir do momento em que a conheci, interpelado de um modo especial. O tom quente e melancólico com que se fazia ouvir era verdadeiramente especial. Emocionante.
Em 4 de janeiro escrevi sobre isso mesmo, dizendo:

A cantora Lhasa, com apenas 37anos, não mais cantará. Permanecerão os seus albúns, maravilhosos, que lutarão contra a sua ausência.
Foi com La llorona que tomei contacto com a sua voz única. Essa permanecerá por meio das suas fantásticas interpretações.


Permanecerão mesmo. A beleza fica. E foi à sua beleza que voltei dois meses mais tarde, aqui mesmo, em 19 de março, com uma das suas músicas mais bonitas e é essa mesma música que volto a registar. Gostei de a voltar a ouvir. Já não a sentia há muito, mas tropecei nela por aí e gostei. Como podem ser belas a música e as palavras que a seguem. Fico a escutar. Escuto com dedicação. Com toda.


Lhasa from nadirseyrek on Vimeo.

Palavras de que me sirvo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade, Respiro o teu corpo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Música do dia - convocando calma


Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher

Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
[e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Um dos meus filmes

Rendo-me à imagem, aos diálogos, à cor, à luz, ao argumento, à música de Gershwin, à cidade e ao modo como é filmada.
Gosto de filmes que tiram partido das cidades onde são rodados e este é sem dúvida um desses exemplos. Um grande exemplo.
Foi uma descoberta que fiz há muitos, há imensos anos. Vi-o apenas uma vez. Mas ficou-me marcado na memória. Como só as coisas boas e que verdadeiramente nos importam ali ficam gravadas.

Sabedoria de poeta

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, As sem razões do amor

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Porque as palavras me seduzem

O sentido perfeito do real pertence aos que avistam o ideal. (...) O ideal é a última expressão da realidade, ou ela a continuar-se além de si.

Teixeira de Pacoaes

A Mulher mais bonita do mundo - José Luís Peixoto

Estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

Estás tão bonita hoje.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

Estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

De encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

in A Casa, a Escuridão

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cores intensas ao final da tarde

Faup, hoje.

A gentileza visual da minha varanda

Sala 5.2, Torre H, Faup; hoje.




Música do dia - pela cidade

A propósito de palavras

O AMOR é para cumprir.
Histórias impossíveis são bonitas na literatura e no cinema, mas não na vida. Fazem pensar no que se perde com barreiras e muros à felicidade, mas não as quero no meu universo. Eu prefiro dizer, como Vinicius, ''que seja infinito enquanto dure''. Não fujo da vida e do amor para o tornar mais heróico. No fim da linha, os heróis olham para quem teve uma vida normal, mas cheia - plena - lamentando não terem sido menos singulares.

Na verdade, sem qualquer dúvida, prefiro ficar com Vinicius e com as suas palavras. Nada como um sorisso quente, o único que conta.

Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor
Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor


Vinicius de Moraes

Para que serve um Blog? - textos recuperados

Nas diversas aproximações que tenho vindo a fazer a este espaço, a dúivida surge-me. Mas em nada me incomoda. A resposta ou respostas podem ser várias, múltiplas e todas me satisfazem. Que se movam por aí. Têm liberdade total.

...para além de funcionar como um local para onde se manda um quantidade sem fim de coisas ao sabor de gostos, ao ritmo paixões, com a cadência de estados de alma, segundo a variabilidade das incertezas e do tempo, confesso que não sei responder.

...fio condutor?! quem é que quer retirar o inesperado à vida?

Ou dito de outro modo, este blog está temporária, se não definitivamente, com a organização desactivada. Deixou de ter fio condutor. Um fio condutor é uma amarra que prende e não permite o inesperado, correcções no rumo, deperdiça o valioso, apenas porque não estava lá desde o início. Um fio condutor é tão só o que colocamos sobre o ilusório, na tentativa de dar um sentido voluntário à multipla sucessão de factos que acontecem com total independência de nós e da nossa vontade e aconteceriam de qualquer modo, sem a nossa existência, porque, na verdade, o mundo não nos pede licença para se movimentar. O nosso papel é apenas pegar ou largar.
Os temas estão em alargamento. Aqui cabe tudo o que faz sentido acontecer no quotidiano. A temática é não não ter temática. Tem apenas conteúdo: o que me apetecer. Nem arquitectura, nem surf, nem cinema, nem qualquer outra coisa de melhor ou pior definição. Não se define a vida.
A vida é um excelente caos de inesperados acontecimentos e sucessão de oportunidades, mesmo das que se perdem, das que não se perdem, das que ficam, das que permanecem. Um Sopro e Tudo Mais está convictamente refém: não quer sobrepor-se à feliz desorganização da Espuma dos Dias, ao involuntarismo das surpresas. Aceita com alegria o que que não quer nem pode controlar. E espelha-o no seu espaço.
Porque ''O que importa é a relação com a vida'' .*

*Fernando Távora.

Corpo de Mulher

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.

Pablo Neruda

Um filme mítico

Blade Runner é um daqueles filmes míticos. É uma bela história. Mas fascina-me também pela capacidade de reinvenção de cenários urbanos e de modos de vida na cidade. As atmosferas fantásticas são belas, poéticas, apesar de muitas vezes angustiantes. É um marco. É um dos paradigmas da aproximação entre arquitectura e cinema. Mas não se fica por aqui. A banda sonora é histórica. Maravilhosa. Era um cd que existia mais ou menos por todas as casas que conheço. Um som, uma melodia, únicos, com que por acaso, um grande acaso, tropecei de novo e não na pilha de cd. Fico a ouvir. O filme, talvez o reveja um destes dias.

domingo, 24 de outubro de 2010

Magnífica música do dia, com um especial Sting

Navegando o mar largo

Momentos de encontro com o mar, com amigos, hoje, com a Figueira da Foz como horizonte.