sábado, 6 de novembro de 2010

Hoje foi assim; no CAE

Simplesmente, sublime!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A cidade como media

São múltiplas a cargas simbólicas ou suportes funcionais das paredes e superfícies da cidade. Mensagens passam de mão em mão, números trocam-se, negócios efectuam-se, o Alex e a Liliana, sobretudo, fixam o olhar em locais onde nunca haviam reparado. É inesperada, a cidade. A cidade nunca surge programada. A espontaneidade apanha-a, desprevenida ou não, porque é parte de todo o improgramável que é a vida em si mesma, espalhada pela sempre renovada surpresa dos espaços.



Um dia banal na FAUP

É vida, autêntica vida, que pulsa, reverbera e cintila pelos espaços e superfícies da faculdade.

FAUP, quinta-feira-


Na mouche

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Official Andy Irons Memorial Paddle-Out

Palavras que valem um dia de sol

Só os namorados coleccionam sorrisos.
...e muito jovens... e muito sonhadores.


António Santos

''A vida é um sopro''

Depois de deixar assentar a poeira, deixo aqui algumas linha a propósito do fim inesperado de Andy Irons.

Andy Irons tinha 32 anos, era surfista profissional e foi campeão do mundo por três vezes. Seria pai daqui a um mês. A primeira ideia é de lamento. Lamento profundo pela morte de alguém tão novo, cheio de vigor, um desportista exemplar. Adivinhava-se uma vida saudável, cheia de energia e com muitos anos ainda por vir. Mas a lei da vida não segue os circuitos e vontades da lógica esperada. As expectativas nem sempre se cumprem. E o inesperado é sempre motivo de choque quando se trata da diferença, ténue, frágil, entre vida e morte.
A morte é sempre motivo de choque. Mas a morte de alguém que não se espera que morra, a morte súbita e inexplicável é ainda mais chocante. A morte de alguém na força da vida é um choque imenso.
A morte é uma intriga. Podemos dizer que é tão natural como viver, que faz parte da vida, que é uma condição dessa mesma vida. Tudo isso não acrescenta nada à incompreensão sobre aquilo que é em si mesma e ao irracional que traz consigo. Todas as benévolas resignações trazem tanta compreensão para o desaparecimento da vida, como tudo quanto se sabe, hoje, sobre o Big Bang nos permite decifrar o sentido do universo. Parece que existe, e daí?

A propósito de tudo isto, não posso deixar de pensar em mim mesmo. Em tudo que tinha deixado de viver, de sentir, de partilhar, de ouvir, de dar, de receber. Não consigo esquecer-me dos sonhos que não teria conseguido construir dentro de mim e a que espero ainda vir a dar realidade, vida que desejo ainda poder vir a partilhar.
Tudo teria ficado lá atrás. Esquecido num qualquer buraco negro da indecifrável falta de existência. Por isso mesmo, esperar para ver é estúpido. Perder tempo é indecoroso.
Viver de modo consequente é necessário, mas só faz sentido se acontecer com toda a emoção. Sem demasiado ''pare, escute e olhe'' como nas passagens de nível. As passagens de nível estão a ficar uma realidade em extinção além do mais! É preferível estar do lado interior da cancela e apanhar mesmo o comboio!
Como diz Kundera, ''a vida não se experimenta, vive-se! Frase a que Lobo Antunes redobra o sentido: ''a morte é uma puta e a uma puta não se pode dar confiança.''
Niemeyer, dando explicação ao título deste post, afirma: ''nasceu, morreu, fodeu-se.'' Enfim, tudo é tão cru e rápido que o que conta é o que está pelo meio. O magnífico que está pelo meio. Magnífico que é tão pouco e tão essencial que não pode ser desperdiçado, nem guardado ou escondido.
É urgente viver!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010

Metáfora da vida

É a verdade, só verdade, que enche com toda a alegria este céu próximo, que preencho com todas a cores até que estas se unam num todo e absoluto vermelho.

Coimbra, ontem.

sábado, 30 de outubro de 2010

Palavras oferecidas, dadas, sentidas

Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde a beijo a beijo foi acesa.

Eugénio de Andrade, Os Joelhos in Obscuro Domínio

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Exactidão na palavra (os arquitectos também acertam)

A felicidade não é uma moeda de dez tostões no bolso ou um brioche na mão. É um sentimento, um imponderável, um acto do coração.

Le Corbusier in Urbanismo

Vasculhando no meu baú

Gosto de vasculhar o blog. Gosto de o fazer com os dos outros também. Procurar para além do tempo presente. Mas tenho um prazer redobrado com este, que é meu. Parece que procuro, apenas por curiosidade, num baú para onde fui enviando gestos, gostos, emoções, partilhas, coisas minhas. É um reencontro comigo que recebo. Cada olhar que lanço ou som que me é dado devolve-me parte de mim, do que sou, da forma como me vejo, como me projecto, como contacto com a vida e com outros. São peças que encaixam em qualquer parte da minha matéria. Que vêm sem manual de montagem, mas que reconheço e identifico com cada local a que pertencem.
Nestas viagens internas, ao fundo de Um Sopro e Tudo Mais , deparei-me com a morte de Lhasa. Registei-a, na altura, por me ter surpreendido e pela música que cantava me ter sempre, a partir do momento em que a conheci, interpelado de um modo especial. O tom quente e melancólico com que se fazia ouvir era verdadeiramente especial. Emocionante.
Em 4 de janeiro escrevi sobre isso mesmo, dizendo:

A cantora Lhasa, com apenas 37anos, não mais cantará. Permanecerão os seus albúns, maravilhosos, que lutarão contra a sua ausência.
Foi com La llorona que tomei contacto com a sua voz única. Essa permanecerá por meio das suas fantásticas interpretações.


Permanecerão mesmo. A beleza fica. E foi à sua beleza que voltei dois meses mais tarde, aqui mesmo, em 19 de março, com uma das suas músicas mais bonitas e é essa mesma música que volto a registar. Gostei de a voltar a ouvir. Já não a sentia há muito, mas tropecei nela por aí e gostei. Como podem ser belas a música e as palavras que a seguem. Fico a escutar. Escuto com dedicação. Com toda.


Lhasa from nadirseyrek on Vimeo.

Palavras de que me sirvo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade, Respiro o teu corpo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Música do dia - convocando calma


Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher

Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
[e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Um dos meus filmes

Rendo-me à imagem, aos diálogos, à cor, à luz, ao argumento, à música de Gershwin, à cidade e ao modo como é filmada.
Gosto de filmes que tiram partido das cidades onde são rodados e este é sem dúvida um desses exemplos. Um grande exemplo.
Foi uma descoberta que fiz há muitos, há imensos anos. Vi-o apenas uma vez. Mas ficou-me marcado na memória. Como só as coisas boas e que verdadeiramente nos importam ali ficam gravadas.

Sabedoria de poeta

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, As sem razões do amor

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Porque as palavras me seduzem

O sentido perfeito do real pertence aos que avistam o ideal. (...) O ideal é a última expressão da realidade, ou ela a continuar-se além de si.

Teixeira de Pacoaes

A Mulher mais bonita do mundo - José Luís Peixoto

Estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

Estás tão bonita hoje.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

Estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

De encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

in A Casa, a Escuridão

segunda-feira, 25 de outubro de 2010