sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A cidade como media

São múltiplas a cargas simbólicas ou suportes funcionais das paredes e superfícies da cidade. Mensagens passam de mão em mão, números trocam-se, negócios efectuam-se, o Alex e a Liliana, sobretudo, fixam o olhar em locais onde nunca haviam reparado. É inesperada, a cidade. A cidade nunca surge programada. A espontaneidade apanha-a, desprevenida ou não, porque é parte de todo o improgramável que é a vida em si mesma, espalhada pela sempre renovada surpresa dos espaços.



Um dia banal na FAUP

É vida, autêntica vida, que pulsa, reverbera e cintila pelos espaços e superfícies da faculdade.

FAUP, quinta-feira-


Na mouche

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Official Andy Irons Memorial Paddle-Out

Palavras que valem um dia de sol

Só os namorados coleccionam sorrisos.
...e muito jovens... e muito sonhadores.


António Santos

''A vida é um sopro''

Depois de deixar assentar a poeira, deixo aqui algumas linha a propósito do fim inesperado de Andy Irons.

Andy Irons tinha 32 anos, era surfista profissional e foi campeão do mundo por três vezes. Seria pai daqui a um mês. A primeira ideia é de lamento. Lamento profundo pela morte de alguém tão novo, cheio de vigor, um desportista exemplar. Adivinhava-se uma vida saudável, cheia de energia e com muitos anos ainda por vir. Mas a lei da vida não segue os circuitos e vontades da lógica esperada. As expectativas nem sempre se cumprem. E o inesperado é sempre motivo de choque quando se trata da diferença, ténue, frágil, entre vida e morte.
A morte é sempre motivo de choque. Mas a morte de alguém que não se espera que morra, a morte súbita e inexplicável é ainda mais chocante. A morte de alguém na força da vida é um choque imenso.
A morte é uma intriga. Podemos dizer que é tão natural como viver, que faz parte da vida, que é uma condição dessa mesma vida. Tudo isso não acrescenta nada à incompreensão sobre aquilo que é em si mesma e ao irracional que traz consigo. Todas as benévolas resignações trazem tanta compreensão para o desaparecimento da vida, como tudo quanto se sabe, hoje, sobre o Big Bang nos permite decifrar o sentido do universo. Parece que existe, e daí?

A propósito de tudo isto, não posso deixar de pensar em mim mesmo. Em tudo que tinha deixado de viver, de sentir, de partilhar, de ouvir, de dar, de receber. Não consigo esquecer-me dos sonhos que não teria conseguido construir dentro de mim e a que espero ainda vir a dar realidade, vida que desejo ainda poder vir a partilhar.
Tudo teria ficado lá atrás. Esquecido num qualquer buraco negro da indecifrável falta de existência. Por isso mesmo, esperar para ver é estúpido. Perder tempo é indecoroso.
Viver de modo consequente é necessário, mas só faz sentido se acontecer com toda a emoção. Sem demasiado ''pare, escute e olhe'' como nas passagens de nível. As passagens de nível estão a ficar uma realidade em extinção além do mais! É preferível estar do lado interior da cancela e apanhar mesmo o comboio!
Como diz Kundera, ''a vida não se experimenta, vive-se! Frase a que Lobo Antunes redobra o sentido: ''a morte é uma puta e a uma puta não se pode dar confiança.''
Niemeyer, dando explicação ao título deste post, afirma: ''nasceu, morreu, fodeu-se.'' Enfim, tudo é tão cru e rápido que o que conta é o que está pelo meio. O magnífico que está pelo meio. Magnífico que é tão pouco e tão essencial que não pode ser desperdiçado, nem guardado ou escondido.
É urgente viver!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010

Metáfora da vida

É a verdade, só verdade, que enche com toda a alegria este céu próximo, que preencho com todas a cores até que estas se unam num todo e absoluto vermelho.

Coimbra, ontem.

sábado, 30 de outubro de 2010

Palavras oferecidas, dadas, sentidas

Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde a beijo a beijo foi acesa.

Eugénio de Andrade, Os Joelhos in Obscuro Domínio

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Exactidão na palavra (os arquitectos também acertam)

A felicidade não é uma moeda de dez tostões no bolso ou um brioche na mão. É um sentimento, um imponderável, um acto do coração.

Le Corbusier in Urbanismo

Vasculhando no meu baú

Gosto de vasculhar o blog. Gosto de o fazer com os dos outros também. Procurar para além do tempo presente. Mas tenho um prazer redobrado com este, que é meu. Parece que procuro, apenas por curiosidade, num baú para onde fui enviando gestos, gostos, emoções, partilhas, coisas minhas. É um reencontro comigo que recebo. Cada olhar que lanço ou som que me é dado devolve-me parte de mim, do que sou, da forma como me vejo, como me projecto, como contacto com a vida e com outros. São peças que encaixam em qualquer parte da minha matéria. Que vêm sem manual de montagem, mas que reconheço e identifico com cada local a que pertencem.
Nestas viagens internas, ao fundo de Um Sopro e Tudo Mais , deparei-me com a morte de Lhasa. Registei-a, na altura, por me ter surpreendido e pela música que cantava me ter sempre, a partir do momento em que a conheci, interpelado de um modo especial. O tom quente e melancólico com que se fazia ouvir era verdadeiramente especial. Emocionante.
Em 4 de janeiro escrevi sobre isso mesmo, dizendo:

A cantora Lhasa, com apenas 37anos, não mais cantará. Permanecerão os seus albúns, maravilhosos, que lutarão contra a sua ausência.
Foi com La llorona que tomei contacto com a sua voz única. Essa permanecerá por meio das suas fantásticas interpretações.


Permanecerão mesmo. A beleza fica. E foi à sua beleza que voltei dois meses mais tarde, aqui mesmo, em 19 de março, com uma das suas músicas mais bonitas e é essa mesma música que volto a registar. Gostei de a voltar a ouvir. Já não a sentia há muito, mas tropecei nela por aí e gostei. Como podem ser belas a música e as palavras que a seguem. Fico a escutar. Escuto com dedicação. Com toda.


Lhasa from nadirseyrek on Vimeo.

Palavras de que me sirvo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade, Respiro o teu corpo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Música do dia - convocando calma


Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher

Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
[e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Um dos meus filmes

Rendo-me à imagem, aos diálogos, à cor, à luz, ao argumento, à música de Gershwin, à cidade e ao modo como é filmada.
Gosto de filmes que tiram partido das cidades onde são rodados e este é sem dúvida um desses exemplos. Um grande exemplo.
Foi uma descoberta que fiz há muitos, há imensos anos. Vi-o apenas uma vez. Mas ficou-me marcado na memória. Como só as coisas boas e que verdadeiramente nos importam ali ficam gravadas.

Sabedoria de poeta

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, As sem razões do amor

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Porque as palavras me seduzem

O sentido perfeito do real pertence aos que avistam o ideal. (...) O ideal é a última expressão da realidade, ou ela a continuar-se além de si.

Teixeira de Pacoaes

A Mulher mais bonita do mundo - José Luís Peixoto

Estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

Estás tão bonita hoje.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

Estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

De encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

in A Casa, a Escuridão

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cores intensas ao final da tarde

Faup, hoje.

A gentileza visual da minha varanda

Sala 5.2, Torre H, Faup; hoje.




Música do dia - pela cidade

A propósito de palavras

O AMOR é para cumprir.
Histórias impossíveis são bonitas na literatura e no cinema, mas não na vida. Fazem pensar no que se perde com barreiras e muros à felicidade, mas não as quero no meu universo. Eu prefiro dizer, como Vinicius, ''que seja infinito enquanto dure''. Não fujo da vida e do amor para o tornar mais heróico. No fim da linha, os heróis olham para quem teve uma vida normal, mas cheia - plena - lamentando não terem sido menos singulares.

Na verdade, sem qualquer dúvida, prefiro ficar com Vinicius e com as suas palavras. Nada como um sorisso quente, o único que conta.

Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor
Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor


Vinicius de Moraes

Para que serve um Blog? - textos recuperados

Nas diversas aproximações que tenho vindo a fazer a este espaço, a dúivida surge-me. Mas em nada me incomoda. A resposta ou respostas podem ser várias, múltiplas e todas me satisfazem. Que se movam por aí. Têm liberdade total.

...para além de funcionar como um local para onde se manda um quantidade sem fim de coisas ao sabor de gostos, ao ritmo paixões, com a cadência de estados de alma, segundo a variabilidade das incertezas e do tempo, confesso que não sei responder.

...fio condutor?! quem é que quer retirar o inesperado à vida?

Ou dito de outro modo, este blog está temporária, se não definitivamente, com a organização desactivada. Deixou de ter fio condutor. Um fio condutor é uma amarra que prende e não permite o inesperado, correcções no rumo, deperdiça o valioso, apenas porque não estava lá desde o início. Um fio condutor é tão só o que colocamos sobre o ilusório, na tentativa de dar um sentido voluntário à multipla sucessão de factos que acontecem com total independência de nós e da nossa vontade e aconteceriam de qualquer modo, sem a nossa existência, porque, na verdade, o mundo não nos pede licença para se movimentar. O nosso papel é apenas pegar ou largar.
Os temas estão em alargamento. Aqui cabe tudo o que faz sentido acontecer no quotidiano. A temática é não não ter temática. Tem apenas conteúdo: o que me apetecer. Nem arquitectura, nem surf, nem cinema, nem qualquer outra coisa de melhor ou pior definição. Não se define a vida.
A vida é um excelente caos de inesperados acontecimentos e sucessão de oportunidades, mesmo das que se perdem, das que não se perdem, das que ficam, das que permanecem. Um Sopro e Tudo Mais está convictamente refém: não quer sobrepor-se à feliz desorganização da Espuma dos Dias, ao involuntarismo das surpresas. Aceita com alegria o que que não quer nem pode controlar. E espelha-o no seu espaço.
Porque ''O que importa é a relação com a vida'' .*

*Fernando Távora.

Corpo de Mulher

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.

Pablo Neruda

Um filme mítico

Blade Runner é um daqueles filmes míticos. É uma bela história. Mas fascina-me também pela capacidade de reinvenção de cenários urbanos e de modos de vida na cidade. As atmosferas fantásticas são belas, poéticas, apesar de muitas vezes angustiantes. É um marco. É um dos paradigmas da aproximação entre arquitectura e cinema. Mas não se fica por aqui. A banda sonora é histórica. Maravilhosa. Era um cd que existia mais ou menos por todas as casas que conheço. Um som, uma melodia, únicos, com que por acaso, um grande acaso, tropecei de novo e não na pilha de cd. Fico a ouvir. O filme, talvez o reveja um destes dias.

domingo, 24 de outubro de 2010

Magnífica música do dia, com um especial Sting

Navegando o mar largo

Momentos de encontro com o mar, com amigos, hoje, com a Figueira da Foz como horizonte.


















sábado, 23 de outubro de 2010

Cool sound

Momentos únicos, hoje.


O mar é tranquilizador. É belo e relaxante. Único. Quase perfeito. Na sua superfície mora quase toda a felicidade.

A cidade - a vida - como local de encontro e desencontro

Impressionam-me histórias de vida. Histórias singulares. Diferentes de tudo que conheço. É usual dizer-se que a vida das pessoas não é assim tão distinta. A seguir ao nascimento, já se sabe o esperado. É inevitável e cru. Mas o modo de lá chegar é cheio de nuances, particulares, singularidades, diversidades, sendo isto mais verdade para alguns do que para outros. ''Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira'', escreveu Toslstoi em Anna Karenina. Na verdade, é isto mesmo. É nos momentos de maior infortúnio que tudo, na vida, se mostra de modo único, não repetível, exclusivo.

Confesso que não gosto de televisão. Desde pequeno que tenho dificuldade em lidar com essa caixa alienante e com os conteúdos com que, com poucas excepções, me sinto violentado no interior da minha intimidade pessoal e espacial. Mas ontem, por um acaso inesperado, cruzei os olhos com um programa que me absorveu. ''Histórias com gente dentro'' fez-me ficar a olhar. O relato na primeira pessoa era impressionante. Tocante. Um homem falava de si próprio, recuando ao ano de 1972. Paris era a cidade. Um dos muitos cafés, o local. Contrariando a sua descrença de sempre em amor à primeira vista, uma qualquer circunstância inexplicável fê-lo atravessar a sala para se apresentar a uma jovem mulher, movido por um forte impulso interior, irreprimível, do coração, nunca antes conhecido. A rapariga achou-o muito simpático, agradeceu a atenção, mas estando a iniciar uma relação, não adiantou mais do que impõem regras de banal cordialidade. O homem rumou a Londres, segundo um dos múltiplos destinos da sua vida e deixou a paixão, esquecida, para trás.
12 anos depois, estava de novo num café, e sentiu exactamente o mesmo, a olhar novamente um rosto feminino. Perguntou-se como é que um acontecimento insólito, em que nunca havia acreditado, podia tocar a mesma pessoa duas vezes na vida . Perante uma cara desconhecida, disse, estava de novo a experimentar um daqueles momentos em que ''se suspende a respiração, aliás, um daqueles momentos em que não é sequer preciso respirar para continuar a viver.'' Com a mesma coragem de anos antes, apresentou-se a quem a sua alma já se encontrava rendida. Surpreendido, ela já o conhecia. Já se conheciam há 12 anos. Já se haviam conhecido em circusntâncias em tudo iguais, num café, em Paris. A história estava a repetir-se, com os mesmos protagonistas, mas, desta vez, adivinhava-se, toda a conjugação cósmica determinava que a alegria fosse não menos do que total. Mas a vida é como quer e não como quem a vive deseja. 6 meses depois, o fim é inesperado e pesado. O cancro mata a bonita mulher e a felicidade de ambos.
Bem diz Vinicius que ''a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida''. Quando tudo se julga ser perfeito, alguma peça aparece fora do sítio e provoca desacerto onde parecia estar a perfeição.
Mas o mais surpreendente são as capacidades inesperadas para aceitar ou lidar com o que parece ser a crueldade da vida. Neste caso, com o rude golpe que este homem sofreu, depois de pensar que a sua vida ía finalmente começar. As suas palavras são desarmantes. Toda esta história de vida dá que pensar. Deverá fazê-lo pelo que todos os dias se desperdiça, não dá, não é dito, não é feito, não é vivido, é guardado. E as palavras, essas, são, como muitas vezes o são, únicas. Belas. Mais do que belas.

''O amor é uma coisa extraordinária. O amor não é como o dinheiro. O amor, quanto mais se dá mais fica.''

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Palavras quase banais para hoje mesmo

As palavras não são tudo.
São um meio, um caminho.
Para percorrer e fazer da vida o presente.
Para convocar o melhor do que pode ser viver; viver plenamente, sem receios.
Mas é pouco.
Toda a palavra é insuficiente.
Com toda a palavra não chegarei a partir todas as pedras e obstáculos.
Mas toda a palavra vale a pena. Junto-a ao olhar, ao seu brilho, ao seu fogo, às mãos quentes, ao sorriso solar, ao ser, ao querer.
Através da palavra faço parte do caminho.
Palavras e vida misturam-se-me nos bolsos.
Com elas, ouso dizer.
Ouso viver.
Ouso dizer-te.
Palavras são surpresas.
Palavras são mudança.
Palavras são o que não eram.
Palavras são luta contra o medo.
Palavras trazem calma.
Palavras são generosas.
Mas palavras são ainda tão inúteis. Boas e bonitas, mas inúteis.
O que conta é vencer barreiras, todas as barreiras.
E acreditar.
E sentir.
Sentir o que vem de debaixo da pele.
Crer no que é único e especial e intensamente raro.
Intenso para lá do que as palavras conseguem captar e expressar.
Toda a palavra é insuficiente para a vida, rica como só a vida pode ser.
Toda a palavra não chega a valer o infinito de uma carícia.
Mas como podem ser belas as palavras. Como pode ser única a ideia que querem contar.
Como é especial ouvi-las, como me deixo seduzir, como são BELAS.
Como são importantes.
E como a música é importante.

Só a palavra certa é de utilidade pública

E só a palavra certa permanece.
Não se esgota.
Não tem prazo de validade.
Não é sujeita a período de utilidade.
Vence-nos e permanece para além do que pensemos.
Sente-se independente e não recebe ordens.
Ordena mais do que qualquer outro condicionamento.
É insubstituível e imperecível.
Ecoa porque tem sonoridade própria.
Não adormece com uma palmadinha nas costas.
Não é de poisar à entrada de casa até novo uso mais conveniente.
É beleza e brilho para quem ousa ceder-lhe.
Mistura-se com a vida e faz parte dela.
É a própria vida, que a aceita sorrindo.
É tudo.
Com tudo.
Dá tudo.
E é tão só palavra
Enorme palavra.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

João Gilberto - Genial

Faup. E porque hoje é quinta-feira





Hoje na Faup

Os Curadores da Conferência Internacional ''Arquitectura [in] ]out[ Política'' integrada na Trienal de Arquitectura de Lisboa, Cláudia Taborda e José Capela, subiram ao Porto para propor um debate em torno do Bairro da Bouça e o SAAL - Serviço de Apoio Ambulatório Local (organismo central na promoção de habitação popular no pós 25 de Abril).
Álvaro Siza, Alexandre Alves Costa e Orquídea Santos revisitaram a condição de protagonistas de 75: como arquitecto, como dirigente do Secretariado Norte do SAAL e como moradora.
Frase da tarde: ''A luta por habitação condigna foi a luta mais bonita ao seguir ao 25 de Abril'' - Orquídea Santos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Just surrender; music is almost everything...

Palavras exactas e belas

"Procure o sr. Cabral do Nascimento ter sempre este facto tão presente, que não saiba que o tem presente - que uma obra de arte, por dispersa que seja a sua realisação detalhada, deve ser sempre uma cousa una e organica, em que cada parte é essencial tanto ao todo, como ás outras que lhe são annexas, e em que o todo existe syntheticamente em cada uma das partes, e na ligação d'essas partes umas ás outras. Comprehenda isto até á inconsciencia. Sinta isto até não o sentir. E, sentido e comprehendido isto até com o corpo, despreze todo o resto. Salte por cima de todas as logicas. Rasgue e queime todas as grammaticas. Reduza a pó todas as coherencias, todas as decencias, e todas as convicções. Feita sua aquella, a unica regra de arte, pode desvairar á vontade, que nunca desvairará; pode exceder-se, que nunca poderá exceder-se; pode dar ao seu espirito todas as liberdades, que elle nunca tomará a de o tornar mau poeta.
O resto é a literatura portugueza."

Fernando Pessoa

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Poética no trabalho

Entre muros de granito áspero e duro e superfícies docemente banhadas pela luz solar, entre pura beleza e espaços inspiradores, entre o afago do olhar e a tranquilidade sensorial. Espaços para descoberta de novos amores, amizades e para namorar - para uns; para ser feliz, para vida - para mim. Para me dar conforto e envolver de Belo.


Faculdade de Arquitectura, Porto; Álvaro Siza.

Espaço de encontro com a felicidade

Leirosa, esta manhã.

Música do dia (ou dos dias)

Liberdade para dentro da cabeça...

Fotos: Christine Haering (09OUT10)



segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Palavras que me ocorrem para repetir ao acordar

Negligenciar a pequena inveja, a raiva e o ciúme.
Não ouvir.
Sentir.
Caminhar por conta e risco.
Deixar as bem intencionadas opiniões fora do tempo e do espaço.
Crer na intuição.
Acreditar porque sim e por vontade.
Gostar de um dia de sol.
Não resistir a um sorriso franco.
Afastar os maus olhados.
Combater a miopia de quem julga abrir os olhos.
Crer contra a descrença alheia.
Beijar com inocência e ousadia até ao limite dos raios solares.
Saudar a vida, por ser uma só.
Viver sem reservas, sem medos ou bloqueios.
Simplesmente, não esquecer de aproveitar plenamente a vida.

Outras descobertas musicais

Para terminar bem o dia ao som da insubstiuível tonalidade do piano

Para iniciar a semana com energia entusiástica

domingo, 17 de outubro de 2010

Niemeyer sobre si mesmo

Os grande homens são como os grande livros. Perante as suas palavras pensamos: era isto mesmo que eu queria dizer e nunca consegui expressá-lo deste modo, com esta certeza e clareza. Abrem-nos os olhos. Tudo parece tão claro na boca ou nas páginas de outros. Tudo parece tão óbvio e sem parecer poder ser de outro modo. Acho que esses homens existem para melhorar a nossa vida, nasceram com essa missão, e sem eles a nossa existência seria certamente mais pobre. Pior.

“Eu diria que é um ser humano como outro qualquer - que nasceu,viveu e morreu. Sou um homem comum – que trabalhou como todos os outros. Passou a vida debruçado sobre uma prancheta. Interessou-se pelos mais pobres. Amou os amigos e a família. Nada de especial. Não tenho nada de extraordinário. Acho ridículo esse negocio de se dar importância. Eu consegui manter, a respeito dos homens, uma posição que me tranquiliza muito: vejo os homens como uma casa, em que você pode consertar as janelas, acertar o aprumo das paredes, pintar. Mas, se o projeto inicial foi ruim, fica prejudicado. Aceito as pessoas como elas são. Todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. O homem nasce numa loteria: é bom, é ruim, é inteligente ou não. Se a gente aceita este fato como uma condição inevitável, a gente tem de ser mais paciente com as pessoas, aceitá-las como elas são”.

Oscar Niemeyer em entrevista, Abril de 2004

Um dia mais na mítica praia da Murtinheira

Se a alegria se encontra nos locais, este é seguramente um dos lugares do mundo onde só se pode ser feliz.

Murtinheira

O vazio vai tomando o lugar da praia alegre e feliz, antes habitada. Os mesmos sítios parecem perder um certo sentido. O olhar não encontra onde se fixar. Tudo parece incompleto. Demasiado amplo para tão pouca presença ou alma. Mas talvez seja apenas ilusório...

Bom Swing

Uma banda que não me desculpo de nunca ter visto ao vivo, apesar das várias vezes que já passaram pelo país.... É música com swing, boa onda. Se me perguntarem o que gostaria de ver em concerto respondo sem ter de pensar: Simply Red. São simplesmente fantásticos. Músicos para ouvir, ver e voltar a ouvir. Enjoy them!


Palavras revisitadas

Há textos de que por vezes me lembro ou com os quais volto a chocar.
Miguel Esteves Cardoso é uma descoberta que fiz nos tempos do Independente. Escrevia umas crónicas maravilhosas. As crónicas evoluíram para livros e os livros foram ficando. Uma das vezes em que numa livraria abri um livro ao acaso, não mais esqueci as palavras que li. O título já não recordo. Mas o texto era inesquecível. Era um desses pedaços de prosa que nos fazem pensar e tocam o prazer, pela beleza e realismo que afirmam.

''Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nascostas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso, Elogio do amor puro.

Palavras para surpreender ou como a realidade é muito mais complexa do que os juízos

As pessoas que mais me fascinam são as mais complexas. Adoro-as pelas suas contradições. Gosto de pessoas. Gosto de pessoas, ponto. Mas não nego que há características mais fascinantes ou intrigantes, se quisermos, do que outras. De resto, estas palavras parecem até desnecessárias. As pessoas são por natureza contraditórias. Faz parte da condição de ser gente, de nos expressarmos como humanos, com fraquezas, forças e fragilidades. Nada é sempre linear e facilmente reconhecível ou sempre previsível. Felizmente, direi. É por isso que mesmo as pessoas que mais nos dizem não param de nos surpreender. A surpresa faz, é um facto, parte das relações humanas. Umas vezes mais fortes, outras mais suavizadas, ela lá está. E por vezes, os juízos são tão inesperadamente incompletos ou errados! O que parecia ser não passa, afinal, de máscaras que repousam sobre uma face e escondem a pessoa de verdade, resguardada por pudor ou qualquer outro cuidado.
É verdade que não gosto de relativismos totais, do totalmente ilusório, mas tão-pouco vejo grandes vantagens nas certezas totais sobre a vida e as pessoas. Acho-as tão deslocadas como inúteis.

lembrei-me de voltar a ter estes pensamentos a propósito da entrevista de Lobo Antunes ao Expresso este fim-de-semana. As palavras são supreendentes. Diria que estão no limite do possível, quase para lá do possível, mas não deixam de fazer pensar.

''O Christian Bourgois [editor francês da obra de Lobo Antunes] com quem não falava de livros, escreveu-me uma carta, antes de morrer, em que diz: 'Tu és meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto'.
Nunca me tinha dito isto. Era um homem que parecia seco, mas por baixo desta frieza aparente havia um calor humano extraordinário.''

sábado, 16 de outubro de 2010

Of course we can...

Wim Mertens como parte da memória e dos sentidos

Conheci a sonoridade de Wim Mertens há longo tempo. Era música mais ou menos de culto pelas salas de projecto do 1º ao 5º anos do curso de arquitectura. Habituei-me a ouvi-lo em momentos de maior e mais intenso convívio em sessões de trabalho conjunto, fora do período das aulas, ou quando me dedicava, solitário, a outras ocupações. Daí até me confrontar ao vivo com os seus piano e voz passou tempo, muitos anos. Falhei várias actuações em Portugal, até que há dois anos (julgo) consegui ter o privilégio de o ver e ouvir no Gil Vicente. Essa noite produziu em mim a vontade de não a deixar como acontecimento isolado. E surge agora uma outra oportunidade. Dia 5 de Novembro estará no CAE, na Figueira da Foz, para novo concerto. A não perder, direi.

Segundo dia no mar da mítica Murtinheira



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

E porque é fim-de-semana, o tempo é de alegria... TUDO, TUDO, TUDO VAI DAR PÉ!

Pequenos pensamentos com palavras banais

Esta semana, 33 homens escaparam a 69 dias a 700 metros de profundidade. 69 dias e 700 metros que os separavam da vida verdadeira, que os mantinham em suspenso, que os colocavam numa gaveta de sobrevivência por tempo indefinido. 69 dias e 700 metros que mantiveram famílias inteiras, mulheres, pais, mães, filhos também suspensos, por um fino fio de esperança que os unia biunivocamente através da imensa distância que atravessava os vários estratos de sedimentação do solo que nestes mais de dois messes resolveram aumentar de espessura. Foram mais de dois meses em que muitos seres humanos conheceram uma angústia infinda. Não apenas a de perder a vida ou de a ver perder. Mas a da privação definitiva do amor insubstituível de toda a vida, de pai, de mãe, de amigo, de filho, de mulher, de amante. Isto é incompreensível (ou esquecido, pelo menos) para todos os que, deste lado certo da vida, confortavelmente se sentam no sofá ou experimentam a mais radical de todas as experiências de movimentos verticais e para lá da luz solar: a tranquilidade das subidas e descidas na fiabilidade dos elevadores que nos transportam no nosso mundo de normas e regras de segurança.
Durante esses 69 dias, muitos de nós passaram pela praia, pelas esplanadas, pela ideia de que a vida não muda. Mas muda. ''A vida muda. A vida muda depressa. Você senta-se para jantar e a vida que conhecia acaba num instante'', escreveu Joan Didion, em O ano do Pensamento Mágico, depois de ver o marido morrer à mesa, enquanto jantavam. Mas será a vida cruel? Claro que não é. Não se vira contra nós. Simplesmente é assim. A nós cabe-nos aproveitar. Ou o fazemos ou deitamo-la pela janela das coisas que negligenciamos, que desprezamos ou tratamos com indiferença. Por vezes, quase sempre, temos tendência para esquecer que todos os equilíbrios que afortunadamente vamos conseguindo são de uma casualidade tremenda. Quase partes de uma qualquer Teoria do Caos. Esquecemos que segundo essa teoria, um movimento suave e súbito num qualquer ponto distante e desconhecido pode abalar e destruir tudo o que julgávamos conquistado. Mas como nos iludimos e desperdiçamos tudo! Como nos confortamos e acomodamos, como pensamos que o amor está por aí disponível e é um bem em sobra, apto a ser conquistado e usado a qualquer instante e que teremos sempre oportunidade de o conhecer de novo, tendo-o já deixado para trás em circusntância várias, porque não era do nosso número, não tinha o nosso tamanho, não tinha a cor que julgávamos mais recomendável, não parecia ser do tipo correcto, tinha um qualquer defeito, ou não nos parecia o adequado! Pelo meio, deixamos o engano, o logro, o equívoco, comandar a vida ou parte dela, não dizemos às pessoas o quanto gostamos delas, não as fazemos sentir-se especiais. No fundo, julgamos que vivemos num ciclo em que tudo se repete: o que se perde hoje será encontrado noutro momento deste movimento circular, contínuo, julga-se. Se estava lá ontem ou há meses ou anos, disponível, porque não há-de estar daqui por outros tantos meses ou dias, noutro lugar e com outras pessoas? A resposta é simples. Porque não se trata de um jogo. Porque nada está pré-determinado. Porque as circunstÂncias e as pessoas que nos envolvem mudam, mudam muito, são outras, muito distintas. Porque não dominamos a vida, embora gostemos de pensar que sim. Porque o tempo é linear e não sabemos onde iremos passar e em que paragens iremos repousar a esperança. Perante isto qual é a resposta? Boa pergunta... Mas está certamente para além do orgulho. Nisto estou com a Sade!


Palavras para um dia como o de hoje

Partir, quebrar, dobrar, ultrapassar limites absurdos.
Pontapear riscos e medos.
Não parar perante o óbvio.
Não corresponder ao expectável.
Colocar em causa.
Agir pela vontade.
Rejeitar opiniões.
Querer o que ninguém quer.
Desejar para além do permitido.
Ambicionar o sonho.
Procurar o mais difícil.
Beijar como quem respira.
Deixar a vida entrar no corpo.
Ousar ser feliz.

Segredado e partilhado

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não divinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos

E tudo proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade, Certas Palavras

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Só as palavras são pouco, demasiado pouco

Não há palavras para corresponder à profunda generosidade. A aquela que nos toca e deixa desarmados. Sem saber como reagir ou pensar. Não basta um sorriso ou uma não estendida. Não basta deixá-la suspensa no ar com aquele sem se fechar à espera de poder corresponder. É excessiva insuficiência para um mundo demasiado grande.
Palavras por inventar, sorrisos incansáveis e sem fim e mãos, muitas mãos, todas disponíveis, talvez fossem um começo para expressar o muito que percorre a minha alma, eternamente reconhecida e generosamente feliz. Dizê-lo é relembrar. É assinalar e agradecer.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Palavras para repetir, para sempre te repetir

É urgente o amor
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade, É Urgente o Amor

domingo, 10 de outubro de 2010

O que pode?...

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 9 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Porque simplesmente é assim mesmo

A prudência é tão só a maior inimiga de quem quer viver. Viver é intenso, no limite, lutar até ao fim, sem receio do pior que há-de vir sem se saber se virá. Viver é arriscar, é querer mais do que a prevenção cómoda e segura, sem surpresas. Viver é ousar ultrapassar a banalidade. Viver é ser capaz de atingir a exaltação e o sublime. O medo é simplesmente desistir da vida e da felicidade. O medo é o alinhamento com pequenas alegrias rasteiras de algibeira. O medo é um domingo banal de jogo da bola da terceira divisão B. Viver é tudo e querer tudo. O medo é uma casa em ruínas que há muito desistiu de ficar em pé.


“Houve um tempo em que, nos amores e nas paixões, se falhava de forma espectacular. Com baba e ranho. Dava-se tudo. Saíamos rasgados de pele e coração. Valia sempre a pena, mesmo quando perdíamos o chão. Os erros, as faltas, as vertigens, o pé à beira do abismo existiam para nos lembrarmos de que somos humanos. A regra era cair e levantar, prontos para outra depois de lutos intensos, sofridos, partilhados. Agora tudo isso existe sob a forma de prevenção. Para nos lembrarmos do que não devemos fazer, dos riscos que não devemos correr, contra o vírus da solidão. Fomos ficando higienizados. Da alma à cama. Uma espécie de “se conduzir, não beba” para evitar os males do coração. Como se pudéssemos dizer “se amar, não se magoe”. Com o passar dos anos, aprendemos a contornar os sintomas a bem da decência, da pose e da anestesia geral ou local, conforme as necessidades. O importante é não dar parte de fracos. O ciúme é uma coisa moderna, para ser compreendida. A discussão acalorada está fora de moda. A vingança é um prato que não se serve nem frio nem quente nas relações mais conceituadas. É coisa do povo, ementa de vidas de tasco, entre um tiro de caçadeira e um facalhão de meter respeito. O civismo entrou definitivamente na nossa intimidade para amansar os corpos, os gestos, as palavras. A postura é um fato de pronto-a-vestir que o usamos para entrar e sair das relações. Talvez até já nem se rasguem roupas quando chega a hora. O sentimento não ferve, a aprendizagem das loucuras que fizemos é renegada e a história do que fomos não tem disco duro porque a caixa de mensagens é mais prática e descartável. De resto, já não há cartas para guardar porque ninguém as escreve. Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ao nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar para a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela”.

Revista Egoísta, Setembro 2009

Palavras sábias para usar diariamente sem cansar

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

Concordo com você,e é por isto que eu me arrisco tanto.
TE AMO...TE AMO...TE AMO...TE AMO...TE AMO...!!!!!!!!!!


Carlos Drumond de Andrade

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

The power of words or the power of LIFE*

What and If are two words as non-threatening as words can be. But put them together side-by-side and they have the power to haunt you for the rest of your life: What if? What if? What if?
I don't know how your story ended but if what you felt then was true love, then it's never too late. If it was true then, why wouldn't it be true now? You need only the courage to follow your heart. I don't know what a love like Juliet's feels like - love to leave loved ones for, love to cross oceans for but I'd like to believe if I ever were to feel it, that I will have the courage to seize it. And, Claire, if you didn't, I hope one day that you will.



*retirado de uma qualquer tela de projecção.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Desenhos I

Todos os desnhos contam uma história. A sua própria ou a de um qualquer momento. São instantes de vida, preenchidos, quer sejam a fuga à atenção de uma reunião, quer sejam um desafio ou um exercício em si mesmos, quer sejam outra coisa, mais pessoal ou emotiva. Todos têm em comum um traço, uma narrativa, que se funde com o lápis, a caneta, a mão, o braço, a cabeça que que lhes dá vida. E quando terminam, quando ganham autonomia, se correspondem ao que esperávamos, são, em si mesmos, momentos de alegria, sentida sempre que revisitados.

Desenhos II

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

sábado, 25 de setembro de 2010

Não vamos ter descanso enquanto as árvores da cidade não forem todas derrubadas!

Desta vez foi na Rua João Pinto Ribeiro (entre a Afonso Hernrique e a Dias da Silva). Foram abatidas 24 das 32 árvores ali existentes. No entanto, apenas 11 estavam em más condições fitossanitárias, ou seja, só essas haviam sido alvo da recomendação de abate. O resto deve-se à inteira responsabilidade e vontade da Junta de Freguesia. E a reacção da Câmara? Não comenta. Em intervenção oficial (num jornal local) diz que foi uma intervenção da responsabilidade da Junta de Freguesia. ...muito Bom!
A culpa, já se sabe, morre solteira. Simplesmente aconteceu. Suponhamos, porém, que a tal Junta lesava patrimonialmente um de nós, um qualquer cidadão, no valor correspodente ao da totalidade das árvores cortadas sem motivo ( e isto para colocar a questão de modo completamente redutor, pois está em causa muito mais do que dinheiro); tinha que o indemnizar, é óbvio. Ou seja, havia apuramento de responsabilidades. Mas como se trata de nos lesar a todos em nome de um suposto exercício de competências públicas de natureza indeterminada, está tudo bem. Acontece o que costuma suceder em circunstâncias idênticas. Até porque estão legitimados por voto. Uma coisa é certa, se já era dominante a ideia que, no quadro vigente, as Junta de Freguesias são uma nebulosa que ninguém sabe para o que é que servem, face a este tipo de actuação instala-se a certeza: não servem para absolutamente nada.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Momento de libertação

Figueira da Foz, hoje.




terça-feira, 21 de setembro de 2010

Há vida na Faculdade...

Esta tarde, intervalando na Faup.


Aforismos Roubados

...o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.

Victor Hugo

Porque está sol!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mobilidade

...ou falta dela.

Lisboa, regresso da Praia do Meco, num sábado de meter medo.