terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Passos de um Explorador da Cidade - espaços, sabores e sons

A partir da rua, são poucos os degraus que separam do espaço interior. As surpresas sucedem-se. À direita, a loja anuncia, em paredes e estantes envolventes do conforto sentido, os sabores oferecidos. Mais uns passos, recantos de mesas baixas, de luz coada e de suave coloração, filtram o olhar sobre a cozinha, que uma longa janela oferece à indiscrição, ao prescrutar dos movimentos vários que antecedem a entrega aos aromas procurados. Lá fora, no pátio, ouve-se conversas em voz baixa. O espaço é ocupado com palavras surgidas à volta de chávenas de sabores exóticos. Subindo à casa e atravessando a primeira sala de luz baixa e cores mais afirmadas, um outro compartimento. Aqui, o silêncio é total. Ouve-se epenas o tempo a passar. A luz vem do exterior. A rua está lá fora, em frente das altas janelas, iluminando o espaço e invadindo-o com uma sensação de inesperado isolamento e calma. Não se vê o chão da cidade, nem pessoas - tão só o telhado da casa oferecida ao olhar frontal. Adivinha-se o movimento fora das paredes, mas a memória que dele ficou intensifica a serenidade que ocupa o interior da sala e permanece no lugar. Em volta, tudo parece estar por ali há bastante tempo. Uma estranha sensaçao de autenticidade faz acreditar que tudo é genuíno. Que tudo foi ali colocado pelo passar dos anos, em actos que se foram sobrepondo, junto com a acumulação de objectos. Não importava o logro, considerou. Sempre que ali entrava sentia-se confortável. O desejo era outra vez o de permanecer. Os sabores imperavam, pensou repetidamente.
O seu pensamento, de novo, foi ocupado pela permanência da familiar ideia: sentia-se recompensado pela densidade e espessura da vida na cidade.

Rota do Chá; Rua Miguel Bombarda, Porto.








domingo, 6 de fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Aforismos roubados

Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada por duas pessoas.


Henrik Ibsen in O Pequeno Eyolf

Palavras que não dormem

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, Não Digas Nada in "Cancioneiro"

sábado, 29 de janeiro de 2011

Subtileza

Aquilo que para nós faz a felicidade ou a infelicidade da nossa vida constitui para qualquer outro um facto quase imperceptível.

Marcel Proust

Aforismos roubados

A vida afectiva é a única que vale a pena. A outra apenas serve para organizar na consciência o processo da inutilidade de tudo.

Miguel Torga

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Palavras de poeta

Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro.
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
Não sinto, não sou triste.
Mas triste é o que estou.

Fernando Pessoa, Contemplo o que não Vejo in Cancioneiro

Música para estas horas matinais

Conhecimendo sobre nada ou coisa nenhuma

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice, Nunca são as coisas mais simples

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

E porque a semana está no fim...

...e a vida está aí para ser vivida. Plenamente vivida!

Palavras raras

A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade, A boca

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aforismos roubados

“The city air makes one free.”

Peter Hall in Cities in Civilization, 1998.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Humor (de futuros arquitectos)

(nas paredes da sala H 5.2)


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Aforismos Roubados

''Não existem Recibos Verdes que tenham escrito FAMOSO.''

Pedro Abrunhosa

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Outros sons

Vida urbana

...ou a sempre surpreendente sedução e magia de um espaço forrado de livros.

Livraria Lello; Porto.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Banda sonora momentânea

Espaços de retorno cíclico

Serralves; Porto.

A cidade para além do concreto

A cidade

Onde o inesperado acontece... ou o local onde todas as vidas se sobrepõem e cruzam, num ciclo sempre renovado

Café Paris; Porto.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A cidade - lugares

O inesperado de cada olhar ou pedaço de paisagem, entre a Casa da Música, Serralves, um mercado de baixa e o mar como reconforto.










quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Banda sonora

A propósito do Natal que chega

Por entre o calor imaginado - que salta em cada rasgo de luz para o exterior - e o toque frio da noite; por entre o bater sólido do caminhar sobre o granito gelado e cada janela que clareia o espaço em volta, cada novo passo é de progressivo afastamento. A vida vai saindo do edifício, para se acumular nas casas, nas salas, nos momentos, nos sorrisos, no encontro.
Mas com a brevidade do tempo que apenas se suspende, 2011 trará de novo a alma do lugar. A arquitectura voltará a pulsar e, com ela, as rotinas, as conversas, o convívio, os olhares, as cumplicidades, os namoros. Será a vida, ela própria, a manifestar-se e a tudo ocupar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Som do dia

Noite singular

Hoje e agora, o conforto encontrado fora das ruas da cidade.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Memória dos dias suavemente luminosos

Faup, num qualquer momento de encontro com a vida. Um olhar entregue a si mesmo, com um café na mesa e um pensamento na mão, protegido pela beleza, a beleza do contacto da arquitectura com os dias.

Imagens de um edifício vivo

Faup, quinta-feira, dia 2.




sexta-feira, 12 de novembro de 2010

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Escape mental

...para outras noites, outras paragens, outras motivações, outras... Simplesmente outras!

A Building that never sleeps

Faup, esta noite.





quarta-feira, 10 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Música do dia, colorida (para lá do negrume deste céu outonal)

Regresso, relembrando o meu trabalho...

Um ano depois, revisito-o no interior da memória... É bom voltar, confesso. Por lá ficou muito esforço, por vezes sofrimento, mas, sobretudo, as últimas imagens que me assaltam são de alegria e prazer.






sábado, 6 de novembro de 2010

Bravo, sublime, parabéns!

Kelly Slater conquistou o décimo título de campeão do mundo!

Hoje foi assim; no CAE

Simplesmente, sublime!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A cidade como media

São múltiplas a cargas simbólicas ou suportes funcionais das paredes e superfícies da cidade. Mensagens passam de mão em mão, números trocam-se, negócios efectuam-se, o Alex e a Liliana, sobretudo, fixam o olhar em locais onde nunca haviam reparado. É inesperada, a cidade. A cidade nunca surge programada. A espontaneidade apanha-a, desprevenida ou não, porque é parte de todo o improgramável que é a vida em si mesma, espalhada pela sempre renovada surpresa dos espaços.



Um dia banal na FAUP

É vida, autêntica vida, que pulsa, reverbera e cintila pelos espaços e superfícies da faculdade.

FAUP, quinta-feira-


Na mouche

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Official Andy Irons Memorial Paddle-Out

Palavras que valem um dia de sol

Só os namorados coleccionam sorrisos.
...e muito jovens... e muito sonhadores.


António Santos

''A vida é um sopro''

Depois de deixar assentar a poeira, deixo aqui algumas linha a propósito do fim inesperado de Andy Irons.

Andy Irons tinha 32 anos, era surfista profissional e foi campeão do mundo por três vezes. Seria pai daqui a um mês. A primeira ideia é de lamento. Lamento profundo pela morte de alguém tão novo, cheio de vigor, um desportista exemplar. Adivinhava-se uma vida saudável, cheia de energia e com muitos anos ainda por vir. Mas a lei da vida não segue os circuitos e vontades da lógica esperada. As expectativas nem sempre se cumprem. E o inesperado é sempre motivo de choque quando se trata da diferença, ténue, frágil, entre vida e morte.
A morte é sempre motivo de choque. Mas a morte de alguém que não se espera que morra, a morte súbita e inexplicável é ainda mais chocante. A morte de alguém na força da vida é um choque imenso.
A morte é uma intriga. Podemos dizer que é tão natural como viver, que faz parte da vida, que é uma condição dessa mesma vida. Tudo isso não acrescenta nada à incompreensão sobre aquilo que é em si mesma e ao irracional que traz consigo. Todas as benévolas resignações trazem tanta compreensão para o desaparecimento da vida, como tudo quanto se sabe, hoje, sobre o Big Bang nos permite decifrar o sentido do universo. Parece que existe, e daí?

A propósito de tudo isto, não posso deixar de pensar em mim mesmo. Em tudo que tinha deixado de viver, de sentir, de partilhar, de ouvir, de dar, de receber. Não consigo esquecer-me dos sonhos que não teria conseguido construir dentro de mim e a que espero ainda vir a dar realidade, vida que desejo ainda poder vir a partilhar.
Tudo teria ficado lá atrás. Esquecido num qualquer buraco negro da indecifrável falta de existência. Por isso mesmo, esperar para ver é estúpido. Perder tempo é indecoroso.
Viver de modo consequente é necessário, mas só faz sentido se acontecer com toda a emoção. Sem demasiado ''pare, escute e olhe'' como nas passagens de nível. As passagens de nível estão a ficar uma realidade em extinção além do mais! É preferível estar do lado interior da cancela e apanhar mesmo o comboio!
Como diz Kundera, ''a vida não se experimenta, vive-se! Frase a que Lobo Antunes redobra o sentido: ''a morte é uma puta e a uma puta não se pode dar confiança.''
Niemeyer, dando explicação ao título deste post, afirma: ''nasceu, morreu, fodeu-se.'' Enfim, tudo é tão cru e rápido que o que conta é o que está pelo meio. O magnífico que está pelo meio. Magnífico que é tão pouco e tão essencial que não pode ser desperdiçado, nem guardado ou escondido.
É urgente viver!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010

Metáfora da vida

É a verdade, só verdade, que enche com toda a alegria este céu próximo, que preencho com todas a cores até que estas se unam num todo e absoluto vermelho.

Coimbra, ontem.

sábado, 30 de outubro de 2010

Palavras oferecidas, dadas, sentidas

Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde a beijo a beijo foi acesa.

Eugénio de Andrade, Os Joelhos in Obscuro Domínio

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Exactidão na palavra (os arquitectos também acertam)

A felicidade não é uma moeda de dez tostões no bolso ou um brioche na mão. É um sentimento, um imponderável, um acto do coração.

Le Corbusier in Urbanismo

Vasculhando no meu baú

Gosto de vasculhar o blog. Gosto de o fazer com os dos outros também. Procurar para além do tempo presente. Mas tenho um prazer redobrado com este, que é meu. Parece que procuro, apenas por curiosidade, num baú para onde fui enviando gestos, gostos, emoções, partilhas, coisas minhas. É um reencontro comigo que recebo. Cada olhar que lanço ou som que me é dado devolve-me parte de mim, do que sou, da forma como me vejo, como me projecto, como contacto com a vida e com outros. São peças que encaixam em qualquer parte da minha matéria. Que vêm sem manual de montagem, mas que reconheço e identifico com cada local a que pertencem.
Nestas viagens internas, ao fundo de Um Sopro e Tudo Mais , deparei-me com a morte de Lhasa. Registei-a, na altura, por me ter surpreendido e pela música que cantava me ter sempre, a partir do momento em que a conheci, interpelado de um modo especial. O tom quente e melancólico com que se fazia ouvir era verdadeiramente especial. Emocionante.
Em 4 de janeiro escrevi sobre isso mesmo, dizendo:

A cantora Lhasa, com apenas 37anos, não mais cantará. Permanecerão os seus albúns, maravilhosos, que lutarão contra a sua ausência.
Foi com La llorona que tomei contacto com a sua voz única. Essa permanecerá por meio das suas fantásticas interpretações.


Permanecerão mesmo. A beleza fica. E foi à sua beleza que voltei dois meses mais tarde, aqui mesmo, em 19 de março, com uma das suas músicas mais bonitas e é essa mesma música que volto a registar. Gostei de a voltar a ouvir. Já não a sentia há muito, mas tropecei nela por aí e gostei. Como podem ser belas a música e as palavras que a seguem. Fico a escutar. Escuto com dedicação. Com toda.


Lhasa from nadirseyrek on Vimeo.

Palavras de que me sirvo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade, Respiro o teu corpo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Música do dia - convocando calma


Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher

Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
[e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e fá-la pairar, assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Um dos meus filmes

Rendo-me à imagem, aos diálogos, à cor, à luz, ao argumento, à música de Gershwin, à cidade e ao modo como é filmada.
Gosto de filmes que tiram partido das cidades onde são rodados e este é sem dúvida um desses exemplos. Um grande exemplo.
Foi uma descoberta que fiz há muitos, há imensos anos. Vi-o apenas uma vez. Mas ficou-me marcado na memória. Como só as coisas boas e que verdadeiramente nos importam ali ficam gravadas.

Sabedoria de poeta

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, As sem razões do amor

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Porque as palavras me seduzem

O sentido perfeito do real pertence aos que avistam o ideal. (...) O ideal é a última expressão da realidade, ou ela a continuar-se além de si.

Teixeira de Pacoaes

A Mulher mais bonita do mundo - José Luís Peixoto

Estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

Estás tão bonita hoje.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

Estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

De encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

in A Casa, a Escuridão

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Cores intensas ao final da tarde

Faup, hoje.

A gentileza visual da minha varanda

Sala 5.2, Torre H, Faup; hoje.




Música do dia - pela cidade

A propósito de palavras

O AMOR é para cumprir.
Histórias impossíveis são bonitas na literatura e no cinema, mas não na vida. Fazem pensar no que se perde com barreiras e muros à felicidade, mas não as quero no meu universo. Eu prefiro dizer, como Vinicius, ''que seja infinito enquanto dure''. Não fujo da vida e do amor para o tornar mais heróico. No fim da linha, os heróis olham para quem teve uma vida normal, mas cheia - plena - lamentando não terem sido menos singulares.

Na verdade, sem qualquer dúvida, prefiro ficar com Vinicius e com as suas palavras. Nada como um sorisso quente, o único que conta.

Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor
Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor


Vinicius de Moraes

Para que serve um Blog? - textos recuperados

Nas diversas aproximações que tenho vindo a fazer a este espaço, a dúivida surge-me. Mas em nada me incomoda. A resposta ou respostas podem ser várias, múltiplas e todas me satisfazem. Que se movam por aí. Têm liberdade total.

...para além de funcionar como um local para onde se manda um quantidade sem fim de coisas ao sabor de gostos, ao ritmo paixões, com a cadência de estados de alma, segundo a variabilidade das incertezas e do tempo, confesso que não sei responder.

...fio condutor?! quem é que quer retirar o inesperado à vida?

Ou dito de outro modo, este blog está temporária, se não definitivamente, com a organização desactivada. Deixou de ter fio condutor. Um fio condutor é uma amarra que prende e não permite o inesperado, correcções no rumo, deperdiça o valioso, apenas porque não estava lá desde o início. Um fio condutor é tão só o que colocamos sobre o ilusório, na tentativa de dar um sentido voluntário à multipla sucessão de factos que acontecem com total independência de nós e da nossa vontade e aconteceriam de qualquer modo, sem a nossa existência, porque, na verdade, o mundo não nos pede licença para se movimentar. O nosso papel é apenas pegar ou largar.
Os temas estão em alargamento. Aqui cabe tudo o que faz sentido acontecer no quotidiano. A temática é não não ter temática. Tem apenas conteúdo: o que me apetecer. Nem arquitectura, nem surf, nem cinema, nem qualquer outra coisa de melhor ou pior definição. Não se define a vida.
A vida é um excelente caos de inesperados acontecimentos e sucessão de oportunidades, mesmo das que se perdem, das que não se perdem, das que ficam, das que permanecem. Um Sopro e Tudo Mais está convictamente refém: não quer sobrepor-se à feliz desorganização da Espuma dos Dias, ao involuntarismo das surpresas. Aceita com alegria o que que não quer nem pode controlar. E espelha-o no seu espaço.
Porque ''O que importa é a relação com a vida'' .*

*Fernando Távora.

Corpo de Mulher

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.

Pablo Neruda

Um filme mítico

Blade Runner é um daqueles filmes míticos. É uma bela história. Mas fascina-me também pela capacidade de reinvenção de cenários urbanos e de modos de vida na cidade. As atmosferas fantásticas são belas, poéticas, apesar de muitas vezes angustiantes. É um marco. É um dos paradigmas da aproximação entre arquitectura e cinema. Mas não se fica por aqui. A banda sonora é histórica. Maravilhosa. Era um cd que existia mais ou menos por todas as casas que conheço. Um som, uma melodia, únicos, com que por acaso, um grande acaso, tropecei de novo e não na pilha de cd. Fico a ouvir. O filme, talvez o reveja um destes dias.