Depois de deixar assentar a poeira, deixo aqui algumas linha a propósito do fim inesperado de Andy Irons.
Andy Irons tinha 32 anos, era surfista profissional e foi campeão do mundo por três vezes. Seria pai daqui a um mês. A primeira ideia é de lamento. Lamento profundo pela morte de alguém tão novo, cheio de vigor, um desportista exemplar. Adivinhava-se uma vida saudável, cheia de energia e com muitos anos ainda por vir. Mas a lei da vida não segue os circuitos e vontades da lógica esperada. As expectativas nem sempre se cumprem. E o inesperado é sempre motivo de choque quando se trata da diferença, ténue, frágil, entre vida e morte.
A morte é sempre motivo de choque. Mas a morte de alguém que não se espera que morra, a morte súbita e inexplicável é ainda mais chocante. A morte de alguém na força da vida é um choque imenso.
A morte é uma intriga. Podemos dizer que é tão natural como viver, que faz parte da vida, que é uma condição dessa mesma vida. Tudo isso não acrescenta nada à incompreensão sobre aquilo que é em si mesma e ao irracional que traz consigo. Todas as benévolas resignações trazem tanta compreensão para o desaparecimento da vida, como tudo quanto se sabe, hoje, sobre o Big Bang nos permite decifrar o sentido do universo. Parece que existe, e daí?
A propósito de tudo isto, não posso deixar de pensar em mim mesmo. Em tudo que tinha deixado de viver, de sentir, de partilhar, de ouvir, de dar, de receber. Não consigo esquecer-me dos sonhos que não teria conseguido construir dentro de mim e a que espero ainda vir a dar realidade, vida que desejo ainda poder vir a partilhar.
Tudo teria ficado lá atrás. Esquecido num qualquer buraco negro da indecifrável falta de existência. Por isso mesmo, esperar para ver é estúpido. Perder tempo é indecoroso.
Viver de modo consequente é necessário, mas só faz sentido se acontecer com toda a emoção. Sem demasiado ''pare, escute e olhe'' como nas passagens de nível. As passagens de nível estão a ficar uma realidade em extinção além do mais! É preferível estar do lado interior da cancela e apanhar mesmo o comboio!
Como diz Kundera, ''a vida não se experimenta, vive-se! Frase a que Lobo Antunes redobra o sentido: ''a morte é uma puta e a uma puta não se pode dar confiança.''
Niemeyer, dando explicação ao título deste post, afirma: ''nasceu, morreu, fodeu-se.'' Enfim, tudo é tão cru e rápido que o que conta é o que está pelo meio. O magnífico que está pelo meio. Magnífico que é tão pouco e tão essencial que não pode ser desperdiçado, nem guardado ou escondido.
É urgente viver!