A partir da rua, são poucos os degraus que separam do espaço interior. As surpresas sucedem-se. À direita, a loja anuncia, em paredes e estantes envolventes do conforto sentido, os sabores oferecidos. Mais uns passos, recantos de mesas baixas, de luz coada e de suave coloração, filtram o olhar sobre a cozinha, que uma longa janela oferece à indiscrição, ao prescrutar dos movimentos vários que antecedem a entrega aos aromas procurados. Lá fora, no pátio, ouve-se conversas em voz baixa. O espaço é ocupado com palavras surgidas à volta de chávenas de sabores exóticos. Subindo à casa e atravessando a primeira sala de luz baixa e cores mais afirmadas, um outro compartimento. Aqui, o silêncio é total. Ouve-se epenas o tempo a passar. A luz vem do exterior. A rua está lá fora, em frente das altas janelas, iluminando o espaço e invadindo-o com uma sensação de inesperado isolamento e calma. Não se vê o chão da cidade, nem pessoas - tão só o telhado da casa oferecida ao olhar frontal. Adivinha-se o movimento fora das paredes, mas a memória que dele ficou intensifica a serenidade que ocupa o interior da sala e permanece no lugar. Em volta, tudo parece estar por ali há bastante tempo. Uma estranha sensaçao de autenticidade faz acreditar que tudo é genuíno. Que tudo foi ali colocado pelo passar dos anos, em actos que se foram sobrepondo, junto com a acumulação de objectos. Não importava o logro, considerou. Sempre que ali entrava sentia-se confortável. O desejo era outra vez o de permanecer. Os sabores imperavam, pensou repetidamente.
O seu pensamento, de novo, foi ocupado pela permanência da familiar ideia: sentia-se recompensado pela densidade e espessura da vida na cidade.
Rota do Chá; Rua Miguel Bombarda, Porto.




