Ouço Fernando Alves entre casa e o trabalho. Faz parte da rotina. E com a chegada das primeiras chuvas de 2012, chega, também, a história de uma música incrível - chega pela bela e maravilhosa prosa que enche diariamente o melhor momento da rádio portuguesa. Como mais ou menos tudo o que interessa, nasce de um acontecimento simples, de uma boa ideia e de um acaso. "Águas de Março", nisso, confirma a vida.
"Sérgio Jaguaribe, o bissexto que assina Jaguar, foi o Rangel do Pasquim. (...) Foi ele que criou o nome Pasquim e explicou que o nome desarmadilhava o sarcasmo dos inimigos. O nome esvaziava o ricochete do veneno. Ontem encontrei uma entrevista de Jaguar à TV Câmara. Uma entrevista dada em 2004. Ao longo da conversa, o cartoonista conta que, no auge do Pasquim, teve uma ideia: editar, com o jornal, um disco de bolso, um 45 rotações. De um lado do disco, surgiria um autor consagrado. Do outro, um desconhecido. O primeiro desconhecido lançado no Disco de Bolso do Pasquim foi João Bosco. Do lado A, Tom Jobim. Do lado B, João Bosco. Jaguar tinha ouvido João Bosco em Ouro Preto. Um amigo cartoonista falou-lhe desse rapaz que estudava engenharia e que "tocava barbaridades", canções com letras maravilhosas. João Bosco cantou no lado B. E no lado A? Ele explica que pediu a Tom Jobim uma canção. Uma semana depois Jobim ligou-lhe: "Pode vir cá a casa. Tenho a canção pronta". Assim nasceu uma maravilha chamada 'Águas de Março'."
"Há muitas coisas que percebo que não sou, mas dizer exactamente o que sou não consigo. Tento, dia a dia, ganhar o título de ser uma pessoa. E já não é pouco."