quinta-feira, 18 de julho de 2013

Está bem assim

Faço parte de uma geração tremendamente regressiva, obcecada com a infância e a adolescência, uma geração de nostalgias precoces, de revivalismos patéticos, e na qual muita gente, especialmente os homens, vive um complexo de Peter Pan. Conheço homens de 40 anos que ainda se referem às mulheres da sua idade como «raparigas», como se fossem as «jeunes filles en fleurs» proustianas, e não as «femmes de trente ans» de Balzac... não é cavalheirismo, é hábito, fantasia, melancolia.”
Tive a minha «crise de meia-idade»... porque... ainda me confrontava com uma ideia típica da juventude: a ideia de que a vida só é digna quando vivida na «felicidade». Qualquer entrave a esse desfecho parecia-me uma catástrofe.”
Já sei que não sou melhor nem pior do que os outros, sei ao milímetro aquilo que valho, sei perfeitamente que não vou deixar vestígio, que desapareço quando morrer a última pessoa que me conheceu. E nada disto é trágico.”
Na juventude, sem dúvida, acreditei que era «especial», nem sei bem em quê, que a minha geração era «diferente», que iríamos fazer grandes coisas. Agora tenho colegas e amigos obscuros e célebres, advogados, desempregados, romancistas, ministros, e somos tão especiais ou tão pouco como aqueles que vieram antes de nós e os que virão depois, «génios-para-si-mesmos sonhando», gente banal, como é toda a gente.”
Claro que «errei todo o discurso de meus anos», e preferia ter acertado. Mas tentei e fracassei, o que também não está mal, e merece uma medalhinha pela comparência. Pelo menos evitei o destino daquele colega que de vez em quando encontro no cinema e me diz: «detesto a minha vida», «detesto o que faço», «estou farto do meu casamento». E eu ouço-o e despeço-me com aquela frase vazia típica de pessoas com 40: «Havemos de jantar um dia destes».”
... Pessimista e misantropo, é verdade que vou ficando sozinho. Mas... não compreendo esse medo de ficar sozinho, que me inquietava ainda... Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me enganei, e dez pessoas é um mundo.”
E, entretanto, não faleci, o que também não estava garantido. Tenho ainda mais uns anos de esplendor inútil, não sei quantos, quem sabe se mais quatro ou quarenta. Está bem assim.”
 
Pedro Mexia, in edição de 1 de Dezembro de 2012 do Jornal Expresso

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Para suspender os sentidos

O dia a deixar de ser, com 30º.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

As cidades têm olhos de janelas...

...e passos que giram como rodas.
Com elas ou atrás delas move-se a liberdade, a descoberta, o inesperado e os mistérios da vida que se oferecem a cada vida.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Perante o horizonte

A janela dilata a vontade de ver, como uma expansão que quer conquistar a dimensão longínqua. Todo o horizonte, por estar longe, parece caber no interior da mão. Esta ilusão faz parte do sonho e, ao alimentá-lo, alimento também o desejo de partir. De não parar.
E o Báltico ali fora. Tão longe à partida, mas dando certeza à certeza de que os mares são só sete. Como as partidas do mundo - que só são grandes, se olhadas com olhos pequenos.
E aqui, no Museu Louisiana, as pálpebras abrem, enormes, ao pedaço de mundo roubado ao espaço do mundo.

Sem ondas? Usa a imaginação!


quinta-feira, 13 de junho de 2013

E assim faço esta tarde


Hoje está de sonho

Uma imagem para o dia.
No tempo e no espaço, todas as horas, todos os momentos, todos os horizontes, todas as possibilidades,, todas os mundos, todas as vidas. Todos os sonhos.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Hoje está de poesia (os múltiplos sentidos musicais)


Sobre mim cavalgas

cingindo-me os flancos 

Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados

ondulas, avanças, 

retesas os braços,

comprimes as ancas.

Depois para a
frente 

inclinas-te olhando
o que entre dois ventres

ocorre entretanto,
e o próprio galope

em que vais lançada

Que lua te empolga

Que sol te embriaga

Lua e sol tu és 

enquanto cavalgas 

amazona e égua 

de espora cravada
no centro do corpo

Centauresa alada 

com os seios soltos

como feitos de água.

Queria bebê-los 

quando mais te dobras

Os cabelos esses 

sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas 

já é outra a sede
que me queima a língua:
A de nos teus olhos 

tão perto dos meus
descobrir o modo 

de beber o céu. 


David-Mourão Ferreira , in Música de Cama

Os limites são um equívoco

Poucas coisas me fazem ficar acordado até depois das 2h00, na véspera de um normal dia de trabalho, em frente à televisão. Mas esta noite foi diferente. Estabeleço uma relação diferente com o sofá, quando as ondas percorrem o ecrã com a cadência das manobras que o ocupam. As imagens retêm-me quando a mestria faz parecer fácil o que nunca farei na vida, mesmo que tenha 7 como os gatos e receba outra de bónus numa qualquer promoção que me brinde generosamente ao abastecer num qualquer posto aderente. E foi assim. E Kelly recompensou-me. Tem sempre essa atenção para com os que o esperam. É gentil e cortês, quando se trata de assunto de ondas. Contraria todos os burocratas. Todas as manifestações rotineiras, quotidianas e do porque-sim.
Porque quem faz por fazer, faz mal. Porque se tem de começar, não é motivo! Será um começo para nada fazer ou para fazer mal. A excelência é atingida quando o prazer é lido nos membros da equação.
Slater, ontem à noite, nas ilhas Fiji, foi assim apanhado quando, com 41 anos, disputava mais uma prova que acabou por ganhar, contra o seu adversário de 32.
Com um misto de admiração e entusiasmo, a imagem ficou-me como símbolo ou metáfora. Sobretudo, como uma lição.
Limites?
Alguém falou de limites?
Diverte-te e ultrapassa-te. Reproduz a imagem da felicidade.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aforismos roubados

"A vida pode mudar a arquitectura... No dia em que o mundo for mais justo, ela será mais simples."

Oscar Niemeyer

quarta-feira, 5 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

A cidade acontece

Em noites de (quase) Verão,
com o rio ali ao lado,
com as luzes vertidas na água,
com as encostas e as arquitecturas vendo-se ao espelho como quem procura refrescar-se,
com o ar que toca a pele confortavelmente, na varanda, com ritmo de jantar,
mas, sobretudo, com as mãos de Sokolov evocadas pela memória, ainda vibrante, de como a Casa foi brilhante e belissimamente da Música.

Quem sabe...


O dia a deixar de ser


quinta-feira, 30 de maio de 2013

terça-feira, 28 de maio de 2013